🪓 OSCE Supremo · Material de Estudo Completo

Lenhador
Politraumatizado

Síndrome do Esmagamento · Choque Hemorrágico · Rabdomiólise · Hipercalemia · Tríade da Morte

ATLS 10ª Ed. Choque Classe III FiO₂ Calculada TXA – Janela 3h L.A.V.E. Sínd. Compartimental
Dr. André Rossanno
Intensivista · Educação Médica
"Não existe nenhum vento favorável para quem não sabe para onde vai — na medicina de emergência, a sequência é o mapa. Quem perde a sequência, perde o paciente." — Adaptado de Sêneca · Princípio do ATLS
📖

Cenário ClínicoO Caso do Lenhador

👤 Identificação e Mecanismo

Paciente masculino, 41 anos, lenhador rural, sem comorbidades conhecidas. Durante trabalho de derrubada de árvore em área de difícil acesso, sofreu esmagamento do tronco inferior e membros inferiores por tronco de grande porte. Trazido por colega de trabalho que presenciou o acidente.

⏱️ Linha do Tempo — Dados do Acompanhante

O colega de trabalho que acompanhou o paciente informou os seguintes dados. O acompanhante é fonte de história clínica crítica — sempre interrogar!

🌲
09h00 — Hora 0
Árvore cai. Esmagamento imediato de MMII. Paciente preso sob o tronco.
🔍
+1h — 10h00
Colegas encontram o paciente. 1 hora preso até ser localizado.
🪚
+2h — 11h00
Árvore cortada. Paciente resgatado. 2 horas totais com membros esmagados.
🏥
+3h — 12h00
Chegada à emergência. 1 hora de transporte. Exatamente 3h do evento.
⚠️ Dado crítico: Do acidente (09h00) até a chegada (12h00) = 3 horas exatas. A janela terapêutica do TXA é de até 3 horas. O paciente está no limite absoluto. O TXA deve ser administrado IMEDIATAMENTE — sem atrasos.
📊 Sinais Vitais na Chegada
PA
86/52
mmHg — Hipotensão grave
→ Choque confirmado
FC
128
bpm — Taquicardia significativa
→ Classe III
FR
28
irpm — Taquipneia
→ dor + acidose + ansiedade
SatO₂
89%
Cateter nasal 5 L/min
→ Insatisfatória. Trocar!
Temperatura
35,2°C
Hipotermia leve
→ Risco tríade da morte
Glasgow
15/15
Consciente e orientado
→ IOT não indicada agora
🩺 Exame Físico Dirigido
RegiãoAchados
PescoçoColar cervical mantido. Jugulares planas — compatível com hipovolemia. (Distensão jugular sugeriria pneumotórax hipertensivo ou tamponamento).
TóraxExpansão simétrica. MV presente bilateralmente. Sem crepitações costais. Sem enfisema subcutâneo. Sem sinais de pneumotórax ou hemotórax.
AbdomeFlácido, dor difusa à palpação. Sem rigidez. FAST à beira leito: avaliar líquido livre em janelas periesplenética, perihepática e pélvica.
PelveSem instabilidade ao comprimido lateral (sem fratura em livro aberto). Hematoma volumoso em região glúteo-trocantérica direita — pode sequestrar 1–2 litros de sangue.
MID CRÍTICOEdema intenso. Compartimentos TENSOS à palpação. Dor desproporcional. Parestesia em pé direito. Pulso palpável (sinal precoce — não espere sumir).
MIEEdema moderado. Sensibilidade preservada.
UrinaColoração marrom-escura ("Coca-Cola") — mioglobinúria confirmada macroscopicamente.
ExtremidadesFrias, pegajosas. TEC > 3 segundos. Pele sudorética — sinais de hipoperfusão periférica.
🧠 Raciocínio Central do Caso

Este paciente possui 5 problemas simultâneos que se retroalimentam:

  1. Choque Hemorrágico Classe III — por sangramento muscular oculto e hematoma de quadril.
  2. Síndrome do Esmagamento — 2 horas de compressão → destruição muscular maciça.
  3. Rabdomiólise Grave — liberação de mioglobina, K⁺, CK e ácido úrico.
  4. Hipercalemia Potencialmente Fatal — K liberado da célula muscular destruída.
  5. Risco de Tríade da Morte — hipotermia (35,2°C) + coagulopatia nascente + acidose metabólica.
"O médico que só age quando tem certeza chega tarde demais. A medicina de emergência exige agir com a informação disponível — e isso se aprende com estudo, repetição e amor ao paciente." — Dr. André Rossanno
🏥

Pré-ABCDE · Primeiros 60 segundosMOV — Monitor, Oxigênio, Veia

CONCEITO FUNDAMENTAL: MOV não é parte do ABCDE — é o pré-ABCDE. Realizado simultaneamente à chegada do paciente, nos primeiros 60 segundos, em paralelo pela equipe.
📋 M · O · V — Detalhamento
LetraMedidaDetalhe no Lenhador
MMonitorECG contínuo (detectar hipercalemia), oximetria com curva de pulso, PA não-invasiva a cada 5 min, capnografia se IOT
OOxigênioSatO₂ 89% em cateter 5 L/min → trocar para Máscara de Venturi 50% imediatamente (ver Seção FiO₂)
VVeia2 acessos periféricos 14G ou 16G em fossas antecubitais. Coleta simultânea: hemograma, lactato, CK, K⁺, gasometria, coagulograma, urina tipo I, tipagem sanguínea.
🩸 Acesso Venoso no Trauma — Detalhes
ItemConduta
Quantidade2 acessos venosos periféricos simultâneos
Calibre ideal14G ou 16G — quanto maior o número, menor o calibre. O sangue passa melhor pelo menor número.
LocalizaçãoFossas antecubitais. Evitar MMII em trauma abdominal/pélvico.
Alternativa se falharAcesso intraósseo (IO) em <2 tentativas frustradas — mesmo fluxo que EV periférico calibroso
Coleta simultâneaHemograma, lactato, CK, K⁺, gasometria arterial, coagulograma, creatinina, ureia, urina tipo I, tipagem + prova cruzada
Início imediatoCristaloide 500 mL como ponte + solicitar sangue O negativo se tipo desconhecido
🫁

OxigenioterapiaCálculo de FiO₂ e Decisão de Dispositivo

Situação do paciente: SatO₂ = 89% em cateter nasal a 5 L/min. Este é o fluxo MÁXIMO do cateter nasal. A FiO₂ calculada é 41% — e ainda assim satura apenas 89%. É obrigatório trocar o dispositivo.
FiO₂ (%) = 21% + (fluxo L/min × 4%)
21% = ar ambiente  |  4% = incremento por litro de O₂ no cateter nasal
Cálculo do nosso paciente:
FiO₂ = 21 + (5 × 4) = 21 + 20 = 41%
SatO₂ = 89% com FiO₂ 41% → INSATISFATÓRIO → Trocar dispositivo!
🎭 Dispositivos de O₂ — Comparativo Completo
DispositivoFluxo MáximoFiO₂Indicação
Cateter nasal LIMITADO5 L/min25–41%Hipoxemia leve. Paciente cooperativo.
Máscara simples10 L/min40–60%Hipoxemia moderada. Mín. 5 L/min (lavar CO₂).
Máscara de Venturi ESCOLHA AQUI4–15 L/min24–50% controladaQuando precisa FiO₂ exata. Nosso paciente: conector azul 50%, 12 L/min.
Máscara c/ reservatório (NR)15 L/min80–90%Hipoxemia grave. Pré-IOT.
CPAP / VNITitulávelTitulávelInsuf. resp. sem indicação de IOT.
IOT + VM ÚLTIMO RECURSOTitulável21–100%Glasgow ≤8, falência, refratário a todos acima.
Decisão para o lenhador: Máscara de Venturi com conector azul (FiO₂ 50%, 12 L/min). Reavaliar em 5 minutos. Se SatO₂ ainda <94%: máscara não-reinalante 15 L/min. Se refratário: IOT com ISR (etomidato + succinilcolina).
🅰️

ATLS — AirwayVia Aérea e Proteção Cervical

🔎 Semiologia da Via Aérea no Trauma

Pergunte: "Qual é o seu nome?"

Colar cervical: Todo politraumatizado tem lesão cervical até prova contrária. Manter colar. Evitar hiperextensão. Estabilização bimanual se necessário mobilizar.
⚡ Critérios de IOT no Trauma
CritérioJustificativa
Glasgow ≤ 8Perda do reflexo de proteção da via aérea
Queda progressiva do Glasgow (≥ 2 pontos)Risco iminente de perda da via aérea
Hipoxemia refratária (SatO₂ <90% com máscara NR)Insuficiência respiratória grave
FR >35 ou <8 irpmFadiga ou apneia
Trauma de face com sangramento ativoRisco de obstrução progressiva
Edema de vias aéreas progressivo (inalação)Pode ocluir rapidamente
Lenhador agora: Glasgow 15, fala frases completas, via aérea pérvia. IOT NÃO indicada neste momento. Escalonar O₂ com Venturi. Monitorar continuamente.
🅱️

ATLS — BreathingAvaliação Respiratória

🔎 Semiologia Respiratória Completa no Trauma
EtapaO que observarSignificado
InspeçãoExpansão simétrica? Tiragem intercostal? Desvio de traqueia? Cianose?Assimetria → pneumo/hemotórax. Tiragem → esforço respiratório.
PalpaçãoDor à compressão costal? Crepitação? Enfisema subcutâneo?Crepitação → fratura costal. Enfisema subcutâneo → pneumotórax.
PercussãoHipertimpanismo? Macicez?Hipertimpanismo → pneumotórax. Macicez → hemotórax.
AuscultaMV abolido unilateral?→ pneumotórax ou hemotórax. Bilateral abolido → obstrução ou intubação seletiva.
🚨 Pneumotórax Hipertensivo — Diagnóstico e Conduta

Tríade clínica: hipotensão + hipoxemia + MV abolido unilateral. Pode ter desvio de traqueia (sinal tardio) e jugulares ingurgitadas.

⚠️ Regra absoluta: Não espere RX. Se pneumotórax hipertensivo → descompressão imediata no 2° espaço intercostal, linha hemiclavicular, com agulha 14G. Depois drenagem.
Lenhador: MV presente bilateralmente, sem sinais de pneumotórax ou hemotórax. Esta ameaça está afastada neste momento.
🅲

ATLS — CirculationChoque Hemorrágico e Reposição

🔎 Semiologia do Choque
SistemaSinalInterpretação
PeleFria, pegajosa, sudoréticaVasoconstricção periférica compensatória
PerfusãoTEC > 3 segundosHipoperfusão periférica
MentalAgitação → confusão → sonolênciaHipoperfusão cerebral progressiva
CardiovascularTaquicardia + hipotensãoCompensação simpática seguida de descompensação
JugularesPlanas (hipovolemia)Distingue de pneumotórax hipertensivo (jugular cheias)
🩸 Classes de Hemorragia — ATLS 10ª Ed.
🧠 Macete: "15 – 30 – 40 – MORREU" = porcentagens de perda por classe (I, II, III, IV)
ClassePerda (mL)%FCPAConduta
I<750<15%NormalNormalCristaloide
II750–1.50015–30%>100NormalCristaloide ± sangue
III ← nosso paciente1.500–2.00030–40%>120SANGUE OBRIGATÓRIO
IV>2.000>40%>140↓↓Protocolo maciço
Por que Classe III? FC 128 + PA 86/52 + hematoma glúteo (pode sequestrar 1–2 L) + esmagamento bilateral de MMII (sangramento intramuscular oculto). Total estimado: 30–40% da volemia.
💉 Protocolo de Reposição Volêmica
  1. 2 acessos 14G em fossas antecubitais. Coleta de exames simultânea.
  2. Cristaloide 500 mL (Ringer Lactato ou SF 0,9%) — apenas como ponte para o sangue.
  3. Concentrado de hemácias + plasma + plaquetas na proporção 1:1:1 (damage control resuscitation). Sangue O negativo se tipagem desconhecida.
  4. TXA 1g EV em 10 min — administrar IMEDIATAMENTE (3h exatas do trauma).
  5. Meta pressórica: PAS 80–90 mmHg até controle cirúrgico ("hipotensão permissiva").
  6. Fluidos aquecidos + cobertor térmico — temperatura 35,2°C, risco de hipotermia.
⚠️ Cristaloide em excesso é prejudicial: Dilui fatores de coagulação (coagulopatia dilucional) + resfria o paciente (hipotermia) + não carrega oxigênio. Resultado: piora a tríade da morte.
🧪

LaboratórioPor que o Hemograma pode estar Normal?

ARMADILHA CLÁSSICA: O hemograma precoce pode mostrar Hb 14 g/dL e Ht 42% com hemorragia Classe III. O diagnóstico de choque é CLÍNICO. Confiar no hemograma precoce e descartar hemorragia é erro letal.
🧠 Fisiopatologia — Por que o Hemograma Mente?

Na hemorragia aguda, há perda proporcional de hemácias E plasma — a concentração de Hb não cai imediatamente. A hemodiluição fisiológica (redistribuição de fluido intersticial para o intravascular) demora 2 a 6 horas para ocorrer. O hemograma só vai refletir a perda real horas depois.

O melhor marcador em tempo real: Lactato sérico. >2 mmol/L = hipoperfusão. >4 mmol/L = choque grave. Clearance de lactato (queda ≥10% em 2h) = boa resposta à ressuscitação.
📋 Painel de Exames — Resultados Esperados
ExameResultado EsperadoInterpretação
Hemograma (precoce)Hb pode ser NORMALEnganoso! Diagnóstico é clínico.
Lactato>4–6 mmol/LHipoperfusão grave. Alvo pós-ressuscitação: <2.
Gasometria arterialpH 7,20–7,25 / HCO₃ <18 / BE negativoAcidose metabólica por hipoperfusão.
K⁺>5,5–6,5 mEq/LHipercalemia por rabdomiólise.
CK>5.000–40.000 UI/LRabdomiólise grave. Normal <200 UI/L.
CreatininaElevada ou ascendenteLesão renal aguda em instalação.
CoagulogramaTP/INR/TTPa aumentadosCoagulopatia do trauma.
Urina tipo I (EAS)"Sangue" positivo SEM hemáciasMioglobinúria! Não é hematúria.
Tipagem + prova cruzadaUrgência absoluta antes da transfusão.
💊

Ácido TranexâmicoTXA — Salva o Coágulo

🔬 Mecanismo de Ação

No trauma grave, o organismo ativa fibrinólise precoce — dissolve coágulos recém-formados como resposta ao estresse. O TXA bloqueia a conversão de plasminogênio → plasmina, que é a enzima que destrói o coágulo.

Resultado: coágulo mais estável → menos fibrinólise → menos sangramento → menos morte. Estudo CRASH-2 (2010): redução de mortalidade por sangramento com NNT de ~67.
💉 Prescrição e Protocolo
ItemDetalhe
AtaqueÁcido tranexâmico 1 g diluído em 100 mL SF 0,9% → EV em 10 minutos
ManutençãoÁcido tranexâmico 1 g em 500 mL SF 0,9% → EV em 8 horas (infusão contínua)
Janela terapêuticaATÉ 3 HORAS do trauma — após esse tempo, pode aumentar eventos tromboembólicos
Nosso pacienteLIMITE EXATO — 3h! Administrar AGORA sem demora
ContraindicaçõesHistórico de trombose, CID estabelecida, >3h do trauma
Atenção ao horário: O acidente foi às 09h00. Chegada às 12h00. São exatamente 3 horas. O TXA deve ser administrado nos primeiros minutos da chegada — qualquer atraso coloca o paciente fora da janela.
🅳

ATLS — DisabilityAvaliação Neurológica

📊 Escala de Coma de Glasgow
ComponenteRespostaPontos
Abertura OcularEspontânea (sistema reticular preservado)4
À voz (rebaixamento leve)3
À dor (disfunção cortical importante)2
Ausente (coma profundo)1
Resposta VerbalOrientado5
Confuso4
Palavras inapropriadas3
Sons incompreensíveis2
Ausente1
Resposta MotoraObedece comandos6
Localiza dor5
Retirada4
Decorticação (flexão) → lesão acima do tronco3
Descerebração (extensão) → lesão de tronco2
Ausente1
Lenhador: Glasgow 15 = AO4 + V5 + M6. Sem indicação neurológica de IOT. Mas Glasgow 15 não significa paciente seguro — ele pode morrer de choque com Glasgow 15.
👁️ Semiologia Pupilar
AchadoInterpretação
Isocóricas e fotorreativas (normal)Sem lesão de tronco ou nervo oculomotor
Midríase fixa unilateralCompressão III par → herniação uncal — emergência neurocirúrgica
Midríase fixa bilateralPCR, hipóxia grave ou morte encefálica
Miose bilateral (puntiforme)Opioide ou lesão de ponte
Anisocoria (>1 mm de diferença)Lesão intracraniana até prova contrária
🅴

ATLS — ExposureExposição e Tríade da Morte

🔎 Por que Despir Totalmente?

O trauma mata escondido. Lesões em dorso, períneo, axilas e couro cabeludo são perdidas sem exposição total. Técnica: cortar roupa com tesoura, realizar log-roll com equipe de 4 (um controla coluna cervical), inspecionar dorso e períneo. Imediatamente após: cobrir com cobertor térmico.

🔥 Tríade da Morte — Fisiopatologia do Ciclo Vicioso
❄️
Hipotermia
Exposição prolongada + fluidos frios + vasodilatação do choque. Abaixo de 35°C: enzimas de coagulação perdem atividade. Abaixo de 32°C: coagulopatia grave, arritmias.
🩸
Coagulopatia
Consumo de fatores pelo sangramento + diluição por cristaloide + inativação pelo frio + fibrinólise precoce. O coágulo não se forma — o sangramento não cessa.
💀
Acidose
Hipoperfusão → metabolismo anaeróbico → lactato → pH cai. Acidose inativa enzimas de coagulação e reduz contratilidade miocárdica. pH <7,1 = colapso.
Hemorragia Hipoperfusão Acidose + Hipotermia Coagulopatia Mais sangramento Morte
Regra de ouro: Cada elemento da tríade potencializa os outros dois. Hipotermia piora a coagulopatia. Coagulopatia perpetua a hipoperfusão. Acidose agrava tudo. Só se sai desse ciclo quebrando os três ao mesmo tempo.
🛡️ Prevenção da Tríade — Medidas Ativas Desde a Chegada

A prevenção começa no segundo 1 do atendimento — não após a instalação. Muito mais fácil prevenir do que reverter.

ElementoMedida PreventivaQuando Iniciar
❄️ HipotermiaManta aluminizada (metalizada) — reflete o calor corporal, impede irradiaçãoImediatamente após exposição/exame
Cobertor de ar quente (warm air blanket / Bair Hugger®) — sopra ar aquecido sobre o corpoAssim que disponível
Fluidos IV aquecidos a 39–40°C — usar aquecedor de fluidos (Level 1®, enFlow®)Antes da infusão de qualquer cristaloide ou hemocomponente
Hemocomponentes aquecidos — sangue frio causa hipotermia e hemóliseAntes de transfundir
Ambiente aquecido — aumentar temperatura da sala de emergência se possívelDesde a chegada
🩸 CoagulopatiaMinimizar cristaloide — usar apenas 500 mL como ponte, evitar diluição de fatoresDecisão imediata
Hemocomponentes 1:1:1 — hemácias + plasma + plaquetas repostas proporcionalmenteClasse III em diante
TXA (Transamin) — bloqueia fibrinólise precoce, salva o coáguloAté 3 horas do trauma
Fibrinogênio (Crioprecipitado) — se fibrinogênio <1,5 g/LSe coagulograma alterado
💀 AcidoseControle do sangramento — a acidose só cede quando a perfusão for restauradaPrioridade absoluta
Ressuscitação volêmica eficaz — sangue carrega oxigênio, cristaloide nãoImediato
Bicarbonato de sódio — se pH <7,1 ou HCO₃ <10 mEq/L (use com critério — não corrige a causa)Quando pH crítico
Vasopressores se hipotensão refratária — noradrenalina para manter perfusão mínimaSe choque refratário à volemia
❄️ Tratamento da Hipotermia — Passo a Passo
Meta: Temperatura ≥ 36°C. Abaixo de 35°C = hipotermia clínica. Abaixo de 32°C = hipotermia grave com risco de FV.
  1. Remover roupas úmidas e molhadas imediatamente — roupa molhada conduz calor 25× mais que o ar seco.
  2. Manta aluminizada (space blanket / manta de resgate) — camada prateada reflete até 90% do calor irradiado pelo corpo. Barata, leve, eficaz. Deve cobrir cabeça também (30% da perda de calor é pelo escalpo).
  3. Cobertor de ar aquecido (Bair Hugger®) — sopra ar a 43°C sobre a superfície corporal. Reaquecimento externo ativo mais eficaz disponível na emergência.
  4. Fluidos IV aquecidos (39–40°C) — cada litro de SF a temperatura ambiente resfria o core em ~0,25°C. Usar aquecedor de linha (Level 1®, enFlow®) ou banho-maria improvisado.
  5. Hemocomponentes aquecidos — banco de sangue aquece a 37°C antes de transfundir. Nunca transfundir sangue gelado em volume.
  6. Monitorar temperatura central — temperatura retal ou esofágica é mais precisa que axilar.
  7. Casos graves (<32°C com instabilidade): considerar lavagem peritoneal com SF aquecido, ECMO ou bypass cardiopulmonar em centros de referência.
Macete da manta: "Expõe para examinar → cobre para salvar." A sequência é E (Exposure) justamente para lembrar: expor COM responsabilidade — e cobrir imediatamente após.
🩸 Tratamento da Coagulopatia — Damage Control Resuscitation
MedidaRacional / Dose
Transfusão balanceada 1:1:1Hemácias (O₂) + Plasma (fatores) + Plaquetas (tampão primário). Repor o que foi perdido na mesma proporção do sangue total.
TXA (Ácido Tranexâmico)Bloqueia plasminogênio → plasmina → salva o coágulo. 1g EV em 10 min + 1g EV em 8h. Até 3h do trauma.
Plasma Fresco Congelado (PFC)Repõe todos os fatores de coagulação. 10–15 mL/kg. Descongela em ~30 min — pedir precocemente ao banco de sangue.
CrioprecipitadoRico em fibrinogênio, fator VIII e XIII. Indicado se fibrinogênio <1,5 g/L. 10 unidades EV.
Concentrado de plaquetasSe plaquetas <50.000 com sangramento ativo. Uma unidade aumenta ~5.000–10.000/µL.
Gluconato de cálcioTransfusões maciças consomem cálcio (citrato do preservante quelata Ca²⁺). 1 g EV a cada 4 unidades de CH.
Evitar hipotermia e acidoseEnzimas de coagulação perdem 50% da atividade abaixo de 33°C. Tratar as três juntas.
💀 Tratamento da Acidose Metabólica no Trauma
Princípio fundamental: A acidose do trauma é consequência da hipoperfusão — não tem solução química enquanto o sangramento não for controlado. Tratar a causa é mais eficaz do que tamponar o pH.
MedidaRacionalLimitação
Controle do sangramento PRINCIPALRestaura perfusão → células voltam ao metabolismo aeróbico → lactato cai → pH sobe.Requer cirurgia ou intervenção definitiva.
Sangue (não cristaloide)Restaura capacidade de transporte de O₂. Cristaloide não carrega oxigênio e dilui tampões.Depende de estoque disponível.
Vasopressores (noradrenalina)Se hipotensão refratária após volemia: manter PAM ≥65 mmHg para perfusão mínima de órgãos.Não trata a causa — ganha tempo.
Bicarbonato de sódioIndicado apenas se pH <7,1 ou HCO₃ <10 mEq/L. Dose: 1–2 mEq/kg EV lento.Gera CO₂ → piora acidose intracelular se ventilação inadequada. Uso criterioso.
Otimizar ventilaçãoSe intubado: ajustar FR para manter pCO₂ 35–40 mmHg. Hipercapnia piora pH.
Monitorar lactato seriadoQueda ≥10% em 2h = boa resposta. Lactato persistente = hipoperfusão não controlada.
⚔️ Damage Control Surgery — Quando a Cirurgia Entra na Tríade

Quando o paciente está na tríade da morte, a cirurgia definitiva (longa, complexa) mata. O conceito de damage control preconiza:

  1. Cirurgia abreviada (1ª fase) — controlar hemorragia (clampar, tamponar, comprimir) e contaminação (ligar alça intestinal). Fechar temporariamente o abdome com bolsa de Bogotá ou wound VAC. Duração: <90 minutos.
  2. UTI (2ª fase) — ressuscitar: corrigir hipotermia, acidose e coagulopatia. Estabilizar por 24–48h.
  3. Cirurgia definitiva (3ª fase) — apenas quando temperatura >36°C, pH >7,3, coagulograma normalizado.
Macete: "Não conserta o carro com o motor pegando fogo. Apaga o fogo primeiro." — Damage control = apagar a tríade antes de operar definitivamente.
📋 Resumo — Prevenir vs. Tratar: 3 Inimigos, 3 Estratégias
InimigoComo PrevenirComo Tratar se Instalada
❄️ Hipotermia Manta aluminizada imediata · Fluidos aquecidos · Hemocomponentes aquecidos · Ambiente aquecido · Cobrir a cabeça Bair Hugger® · Lavagem peritoneal com SF quente · ECMO em extremos
🩸 Coagulopatia TXA até 3h · Cristaloide mínimo · Sangue 1:1:1 desde o início · Tratar hipotermia e acidose PFC · Crioprecipitado · Plaquetas · Cálcio a cada 4 unidades de CH · Damage control cirúrgico
💀 Acidose Controlar sangramento · Sangue (não cristaloide) · Evitar hipoperfusão prolongada Controle cirúrgico do sangramento · Vasopressores · Bicarbonato se pH <7,1 · Lactato seriado
Frase de ouro: "A manta salva vidas tão concretamente quanto o bisturi — mas custa centavos e está disponível em qualquer emergência. Usá-la é obrigação, não opção."
"Salvar uma vida é o ato mais grandioso que um ser humano pode praticar. Mas só salva quem estudou quando ninguém estava olhando." — Dr. André Rossanno · Intensivista
💪

Complicação CentralRabdomiólise

🔬 Fisiopatologia Simplificada
Esmagamento muscular Destruição de fibras Liberação: mioglobina + K⁺ + CK + fósforo + ácido úrico
Mioglobina chega ao rim Obstrução tubular + vasoconstrição renal + toxicidade direta LRA (Lesão Renal Aguda)
Urina Coca-Cola: A mioglobina na urina causa coloração marrom-escura macroscopicamente. No EAS (urina tipo I): "sangue positivo" SEM hemácias ao microscópio. Não confundir com hematúria!
🧪 Diagnóstico
🚰 Protocolo L.A.V.E. — Proteção Renal
LetraMedidaComo
LLíquido vigorosoSF 0,9% em 200–400 mL/h. Diluir e lavar a mioglobina dos túbulos renais.
AAlcalinizar a urinaBicarbonato 150 mEq (3 amp.) em 1L SG5% a 100–150 mL/h. Meta: pH urina >6,5. Mioglobina precipita em pH ácido.
VVigiar diureseMeta: ≥200–300 mL/h. SVD obrigatória para medir com precisão. Ajustar hidratação pela diurese.
EEvitar nefrotóxicosAINE, contraste iodado, aminoglicosídeos, vancomicina sem monitoramento.
Indicação de diálise: K⁺ refratário + acidose grave + oligúria persistente + sobrecarga volêmica. Acionar precocemente se sem resposta à hidratação.

Complicação LetalHipercalemia

PONTO MAIS COBRADO: Gluconato de cálcio NÃO baixa o potássio. Apenas protege o coração. Para baixar o K são necessárias outras medidas.
📊 ECG na Hipercalemia — Progressão
Nível de K⁺Achado no ECG
5,5–6,0 mEq/LOndas T altas, simétricas, apiculadas ("em tenda")
6,0–6,5 mEq/LAlargamento do QRS, PR prolongado
6,5–7,0 mEq/LOnda P achatada ou ausente
>7,0 mEq/LQRS muito alargado, padrão sinusoidal
>8,0 mEq/LFibrilação ventricular, assistolia
💉 Sequência de Tratamento da Hipercalemia
  1. Gluconato de cálcio 10% — 10 mL EV lento (5 min): Estabiliza membrana miocárdica. NÃO baixa K. Ação em 1–3 min. Duração 30–60 min.
  2. Insulina Regular 10 UI + Glicose 50% 50 mL EV: Internaliza K via Na/K ATPase. Ação em 15–30 min.
  3. Salbutamol inalatório 10–20 mg: Ativa receptor β₂ → K para dentro da célula. Ação em 30–60 min.
  4. Bicarbonato de sódio EV (se pH <7,2): Corrige acidose → K retorna para célula. 50–100 mEq EV.
  5. Furosemida 40 mg EV: Elimina K pela urina se função renal preservada.
  6. Hemodiálise: Remove K definitivamente se refratário ou LRA grave.
🦵

Emergência CirúrgicaSíndrome Compartimental

🩺 4 P's da Síndrome Compartimental
SinalDetalhe
Pain (Dor)Desproporcional ao trauma. Piora ao alongamento passivo do músculo (patognomônico).
Pressure (Pressão)Compartimento tenso à palpação. Pressão >30 mmHg ou dentro de 30 mmHg da PA diastólica = fasciotomia.
ParesthesiaHipoestesia ou parestesia distal — compressão nervosa.
ParalysisFraqueza ou paralisia — compressão neuromuscular avançada.
⚠️ Ausência de pulso é sinal TARDIO. Não espere o pulso sumir para indicar fasciotomia. A dor desproporcional + compartimento tenso já indicam a cirurgia. Quando o pulso some, a necrose já está em curso.
⚔️ Fasciotomia

Incisão longitudinal de toda a extensão do compartimento. Deixar aberto. Fechamento após 48–72h quando o edema regredir. Indicar cirurgia AGORA — o lenhador tem dor desproporcional + compartimento tenso + parestesia em pé direito.

🩺

MonitoramentoSVD — Sondagem Vesical de Demora

📋 Indicação, Técnica e Contraindicações
ItemDetalhe
Indicação principalMonitorar diurese horária com precisão — obrigatório na rabdomiólise (meta ≥200 mL/h)
Indicação secundáriaObservar coloração da urina (mioglobinúria), guiar reposição volêmica
TécnicaPosição supina, assepsia rigorosa, sonda Foley 14–16 Fr, sistema coletor fechado
CONTRAINDICAÇÃOSangue no meato uretral + hematoma perineal extenso = suspeita de ruptura uretral → NÃO sondar. Uretrocistografia retrógrada ou urologia.
🚰 Metas de Diurese
DiureseInterpretação
<30 mL/hOligúria — ressuscitação insuficiente ou LRA instalada
30–50 mL/hAceitável para adulto geral, mas insuficiente na rabdomiólise
≥200–300 mL/hMETA na rabdomiólise — necessária para lavar a mioglobina
Urina clara ≥200 mL/hMeta atingida. Manter hidratação e monitorar eletrólitos.
🖥️

Diagnóstico por ImagemTC e Transporte — Quando e Como

"Paciente instável não passeia no hospital. O corredor entre a emergência e o TC é o lugar mais perigoso para um politraumatizado." — Princípio do ATLS
📋 Critérios para TC vs. FAST
SituaçãoConduta
PA instável (<90 mmHg sem resposta)NÃO vai para TC → FAST à beira do leito
PA estabilizada e responsivaPode ir para TC com monitorização completa
Hipoxemia não controladaNÃO vai para TC
SatO₂ ≥94% estávelPode ir com O₂ portátil
Sem equipe médica disponívelNÃO vai
Médico + monitor + drogas de emergênciaPode ir
✅ Checklist Pré-Transporte
"O conhecimento é a única riqueza que ninguém pode te tirar. Cada hora de estudo é um depósito no banco da competência — e a vida dos seus pacientes é o juros." — Dr. André Rossanno
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Treino Ativo · Técnica de MemorizaçãoFlashcards — Flip para Resposta

Como usar: Tente responder mentalmente ANTES de virar o cartão. A geração ativa da resposta fixa 3× mais do que leitura passiva. Isso é o Método André Rossanno em ação.
CATEGORIA
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RESPOSTA
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Questionário InterativoQuiz — 20 Questões com Gabarito

Testing Effect: Responder questões ativa a memória muito mais do que reler o material. Cada erro é um acelerador de aprendizado — leia o feedback com atenção.
0
pontos de 20
✓ Corretas
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✗ Erradas
0
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Interleaving · Diagnóstico DiferencialPegadinhas — As 8 que Reprovam

Método André Rossanno: A pegadinha não existe para te enganar — existe para revelar o raciocínio superficial. Clique para expandir cada uma.
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Síntese FinalResposta Ideal do Aluno no OSCE

🎯 Fala Esperada — Palavra por Palavra

"Paciente masculino, 41 anos, lenhador, com politrauma por esmagamento de 2 horas de evolução mais 1 hora de transporte — totalizando 3 horas do evento. Inicio com MOV: monitorizacão contínua, troca do cateter nasal (FiO₂ 41% insuficiente — SatO₂ 89%) para Máscara de Venturi 50%, e dois acessos venosos 14G com coleta de exames.

No ABCDE: via aérea pérvia com colar cervical mantido, sem sinais de pneumotórax. Reconheço Choque Hemorrágico Classe III pelo FC 128 + hipotensão + sangramento oculto muscular. Administro TXA 1g EV IMEDIATAMENTE — estamos no limite exato de 3 horas. Inicio transfusão de hemácias + plasma + plaquetas 1:1:1. Cristaloide apenas 500 mL como ponte.

Instalo SVD para monitorar diurese com meta ≥200 mL/h pela rabdomiólise. Trato hipercalemia: gluconato de cálcio 10 mL EV (protege coração, NÃO baixa K) + insulina + glicose + salbutamol. Inicio SF vigoroso 300 mL/h + bicarbonato para alcalinizar urina.

MID com compartimentos tensos, dor desproporcional e parestesia → aciono cirurgia para fasciotomia urgente. Somente após estabilização hemodinâmica, com equipe e monitorização completa, realizo TC de crânio, tórax, abdome e pelve."

Dr. André Rossanno
Intensivista · Educação Médica