Síndrome do Esmagamento · Choque Hemorrágico · Rabdomiólise · Hipercalemia · Tríade da Morte
ATLS 10ª Ed.Choque Classe IIIFiO₂ CalculadaTXA – Janela 3hL.A.V.E.Sínd. Compartimental
Dr. André Rossanno
Intensivista · Educação Médica
"Não existe nenhum vento favorável para quem não sabe para onde vai — na medicina de emergência, a sequência é o mapa. Quem perde a sequência, perde o paciente."
— Adaptado de Sêneca · Princípio do ATLS
📖
Cenário ClínicoO Caso do Lenhador
👤 Identificação e Mecanismo
Paciente masculino, 41 anos, lenhador rural, sem comorbidades conhecidas. Durante trabalho de derrubada de árvore em área de difícil acesso, sofreu esmagamento do tronco inferior e membros inferiores por tronco de grande porte. Trazido por colega de trabalho que presenciou o acidente.
⏱️ Linha do Tempo — Dados do Acompanhante
O colega de trabalho que acompanhou o paciente informou os seguintes dados. O acompanhante é fonte de história clínica crítica — sempre interrogar!
🌲
09h00 — Hora 0
Árvore cai. Esmagamento imediato de MMII. Paciente preso sob o tronco.
🔍
+1h — 10h00
Colegas encontram o paciente. 1 hora preso até ser localizado.
🪚
+2h — 11h00
Árvore cortada. Paciente resgatado. 2 horas totais com membros esmagados.
🏥
+3h — 12h00
Chegada à emergência. 1 hora de transporte. Exatamente 3h do evento.
⚠️ Dado crítico: Do acidente (09h00) até a chegada (12h00) = 3 horas exatas. A janela terapêutica do TXA é de até 3 horas. O paciente está no limite absoluto. O TXA deve ser administrado IMEDIATAMENTE — sem atrasos.
📊 Sinais Vitais na Chegada
PA
86/52
mmHg — Hipotensão grave → Choque confirmado
FC
128
bpm — Taquicardia significativa → Classe III
FR
28
irpm — Taquipneia → dor + acidose + ansiedade
SatO₂
89%
Cateter nasal 5 L/min → Insatisfatória. Trocar!
Temperatura
35,2°C
Hipotermia leve → Risco tríade da morte
Glasgow
15/15
Consciente e orientado → IOT não indicada agora
🩺 Exame Físico Dirigido
Região
Achados
Pescoço
Colar cervical mantido. Jugulares planas — compatível com hipovolemia. (Distensão jugular sugeriria pneumotórax hipertensivo ou tamponamento).
Tórax
Expansão simétrica. MV presente bilateralmente. Sem crepitações costais. Sem enfisema subcutâneo. Sem sinais de pneumotórax ou hemotórax.
Abdome
Flácido, dor difusa à palpação. Sem rigidez. FAST à beira leito: avaliar líquido livre em janelas periesplenética, perihepática e pélvica.
Pelve
Sem instabilidade ao comprimido lateral (sem fratura em livro aberto). Hematoma volumoso em região glúteo-trocantérica direita — pode sequestrar 1–2 litros de sangue.
MID CRÍTICO
Edema intenso. Compartimentos TENSOS à palpação. Dor desproporcional. Parestesia em pé direito. Pulso palpável (sinal precoce — não espere sumir).
Este paciente possui 5 problemas simultâneos que se retroalimentam:
Choque Hemorrágico Classe III — por sangramento muscular oculto e hematoma de quadril.
Síndrome do Esmagamento — 2 horas de compressão → destruição muscular maciça.
Rabdomiólise Grave — liberação de mioglobina, K⁺, CK e ácido úrico.
Hipercalemia Potencialmente Fatal — K liberado da célula muscular destruída.
Risco de Tríade da Morte — hipotermia (35,2°C) + coagulopatia nascente + acidose metabólica.
"O médico que só age quando tem certeza chega tarde demais. A medicina de emergência exige agir com a informação disponível — e isso se aprende com estudo, repetição e amor ao paciente."
— Dr. André Rossanno
🏥
Pré-ABCDE · Primeiros 60 segundosMOV — Monitor, Oxigênio, Veia
CONCEITO FUNDAMENTAL: MOV não é parte do ABCDE — é o pré-ABCDE. Realizado simultaneamente à chegada do paciente, nos primeiros 60 segundos, em paralelo pela equipe.
📋 M · O · V — Detalhamento
Letra
Medida
Detalhe no Lenhador
M
Monitor
ECG contínuo (detectar hipercalemia), oximetria com curva de pulso, PA não-invasiva a cada 5 min, capnografia se IOT
O
Oxigênio
SatO₂ 89% em cateter 5 L/min → trocar para Máscara de Venturi 50% imediatamente (ver Seção FiO₂)
V
Veia
2 acessos periféricos 14G ou 16G em fossas antecubitais. Coleta simultânea: hemograma, lactato, CK, K⁺, gasometria, coagulograma, urina tipo I, tipagem sanguínea.
🩸 Acesso Venoso no Trauma — Detalhes
Item
Conduta
Quantidade
2 acessos venosos periféricos simultâneos
Calibre ideal
14G ou 16G — quanto maior o número, menor o calibre. O sangue passa melhor pelo menor número.
Localização
Fossas antecubitais. Evitar MMII em trauma abdominal/pélvico.
Alternativa se falhar
Acesso intraósseo (IO) em <2 tentativas frustradas — mesmo fluxo que EV periférico calibroso
Coleta simultânea
Hemograma, lactato, CK, K⁺, gasometria arterial, coagulograma, creatinina, ureia, urina tipo I, tipagem + prova cruzada
Início imediato
Cristaloide 500 mL como ponte + solicitar sangue O negativo se tipo desconhecido
🫁
OxigenioterapiaCálculo de FiO₂ e Decisão de Dispositivo
Situação do paciente: SatO₂ = 89% em cateter nasal a 5 L/min. Este é o fluxo MÁXIMO do cateter nasal. A FiO₂ calculada é 41% — e ainda assim satura apenas 89%. É obrigatório trocar o dispositivo.
FiO₂ (%) = 21% + (fluxo L/min × 4%)
21% = ar ambiente | 4% = incremento por litro de O₂ no cateter nasal
Decisão para o lenhador: Máscara de Venturi com conector azul (FiO₂ 50%, 12 L/min). Reavaliar em 5 minutos. Se SatO₂ ainda <94%: máscara não-reinalante 15 L/min. Se refratário: IOT com ISR (etomidato + succinilcolina).
🅰️
ATLS — AirwayVia Aérea e Proteção Cervical
🔎 Semiologia da Via Aérea no Trauma
Pergunte: "Qual é o seu nome?"
Responde com frases completas → via aérea provavelmente pérvia.
Rouquidão → trauma laríngeo ou edema.
Gorgolejo → sangue ou secreção → aspirar.
Estridor → obstrução parcial → risco de oclusão total.
Ausência de sons → obstrução total → IOT ou cricotireotomia de emergência.
Colar cervical: Todo politraumatizado tem lesão cervical até prova contrária. Manter colar. Evitar hiperextensão. Estabilização bimanual se necessário mobilizar.
⚡ Critérios de IOT no Trauma
Critério
Justificativa
Glasgow ≤ 8
Perda do reflexo de proteção da via aérea
Queda progressiva do Glasgow (≥ 2 pontos)
Risco iminente de perda da via aérea
Hipoxemia refratária (SatO₂ <90% com máscara NR)
Insuficiência respiratória grave
FR >35 ou <8 irpm
Fadiga ou apneia
Trauma de face com sangramento ativo
Risco de obstrução progressiva
Edema de vias aéreas progressivo (inalação)
Pode ocluir rapidamente
Lenhador agora: Glasgow 15, fala frases completas, via aérea pérvia. IOT NÃO indicada neste momento. Escalonar O₂ com Venturi. Monitorar continuamente.
🅱️
ATLS — BreathingAvaliação Respiratória
🔎 Semiologia Respiratória Completa no Trauma
Etapa
O que observar
Significado
Inspeção
Expansão simétrica? Tiragem intercostal? Desvio de traqueia? Cianose?
→ pneumotórax ou hemotórax. Bilateral abolido → obstrução ou intubação seletiva.
🚨 Pneumotórax Hipertensivo — Diagnóstico e Conduta
Tríade clínica: hipotensão + hipoxemia + MV abolido unilateral. Pode ter desvio de traqueia (sinal tardio) e jugulares ingurgitadas.
⚠️ Regra absoluta: Não espere RX. Se pneumotórax hipertensivo → descompressão imediata no 2° espaço intercostal, linha hemiclavicular, com agulha 14G. Depois drenagem.
Lenhador: MV presente bilateralmente, sem sinais de pneumotórax ou hemotórax. Esta ameaça está afastada neste momento.
🅲
ATLS — CirculationChoque Hemorrágico e Reposição
🔎 Semiologia do Choque
Sistema
Sinal
Interpretação
Pele
Fria, pegajosa, sudorética
Vasoconstricção periférica compensatória
Perfusão
TEC > 3 segundos
Hipoperfusão periférica
Mental
Agitação → confusão → sonolência
Hipoperfusão cerebral progressiva
Cardiovascular
Taquicardia + hipotensão
Compensação simpática seguida de descompensação
Jugulares
Planas (hipovolemia)
Distingue de pneumotórax hipertensivo (jugular cheias)
🩸 Classes de Hemorragia — ATLS 10ª Ed.
🧠 Macete: "15 – 30 – 40 – MORREU" = porcentagens de perda por classe (I, II, III, IV)
Classe
Perda (mL)
%
FC
PA
Conduta
I
<750
<15%
Normal
Normal
Cristaloide
II
750–1.500
15–30%
>100
Normal
Cristaloide ± sangue
III ← nosso paciente
1.500–2.000
30–40%
>120
↓
SANGUE OBRIGATÓRIO
IV
>2.000
>40%
>140
↓↓
Protocolo maciço
Por que Classe III? FC 128 + PA 86/52 + hematoma glúteo (pode sequestrar 1–2 L) + esmagamento bilateral de MMII (sangramento intramuscular oculto). Total estimado: 30–40% da volemia.
💉 Protocolo de Reposição Volêmica
2 acessos 14G em fossas antecubitais. Coleta de exames simultânea.
Cristaloide 500 mL (Ringer Lactato ou SF 0,9%) — apenas como ponte para o sangue.
Concentrado de hemácias + plasma + plaquetas na proporção 1:1:1 (damage control resuscitation). Sangue O negativo se tipagem desconhecida.
TXA 1g EV em 10 min — administrar IMEDIATAMENTE (3h exatas do trauma).
Meta pressórica: PAS 80–90 mmHg até controle cirúrgico ("hipotensão permissiva").
Fluidos aquecidos + cobertor térmico — temperatura 35,2°C, risco de hipotermia.
⚠️ Cristaloide em excesso é prejudicial: Dilui fatores de coagulação (coagulopatia dilucional) + resfria o paciente (hipotermia) + não carrega oxigênio. Resultado: piora a tríade da morte.
🧪
LaboratórioPor que o Hemograma pode estar Normal?
ARMADILHA CLÁSSICA: O hemograma precoce pode mostrar Hb 14 g/dL e Ht 42% com hemorragia Classe III. O diagnóstico de choque é CLÍNICO. Confiar no hemograma precoce e descartar hemorragia é erro letal.
🧠 Fisiopatologia — Por que o Hemograma Mente?
Na hemorragia aguda, há perda proporcional de hemácias E plasma — a concentração de Hb não cai imediatamente. A hemodiluição fisiológica (redistribuição de fluido intersticial para o intravascular) demora 2 a 6 horas para ocorrer. O hemograma só vai refletir a perda real horas depois.
O melhor marcador em tempo real: Lactato sérico. >2 mmol/L = hipoperfusão. >4 mmol/L = choque grave. Clearance de lactato (queda ≥10% em 2h) = boa resposta à ressuscitação.
📋 Painel de Exames — Resultados Esperados
Exame
Resultado Esperado
Interpretação
Hemograma (precoce)
Hb pode ser NORMAL
Enganoso! Diagnóstico é clínico.
Lactato
>4–6 mmol/L
Hipoperfusão grave. Alvo pós-ressuscitação: <2.
Gasometria arterial
pH 7,20–7,25 / HCO₃ <18 / BE negativo
Acidose metabólica por hipoperfusão.
K⁺
>5,5–6,5 mEq/L
Hipercalemia por rabdomiólise.
CK
>5.000–40.000 UI/L
Rabdomiólise grave. Normal <200 UI/L.
Creatinina
Elevada ou ascendente
Lesão renal aguda em instalação.
Coagulograma
TP/INR/TTPa aumentados
Coagulopatia do trauma.
Urina tipo I (EAS)
"Sangue" positivo SEM hemácias
Mioglobinúria! Não é hematúria.
Tipagem + prova cruzada
—
Urgência absoluta antes da transfusão.
💊
Ácido TranexâmicoTXA — Salva o Coágulo
🔬 Mecanismo de Ação
No trauma grave, o organismo ativa fibrinólise precoce — dissolve coágulos recém-formados como resposta ao estresse. O TXA bloqueia a conversão de plasminogênio → plasmina, que é a enzima que destrói o coágulo.
Resultado: coágulo mais estável → menos fibrinólise → menos sangramento → menos morte. Estudo CRASH-2 (2010): redução de mortalidade por sangramento com NNT de ~67.
💉 Prescrição e Protocolo
Item
Detalhe
Ataque
Ácido tranexâmico 1 g diluído em 100 mL SF 0,9% → EV em 10 minutos
Manutenção
Ácido tranexâmico 1 g em 500 mL SF 0,9% → EV em 8 horas (infusão contínua)
Janela terapêutica
ATÉ 3 HORAS do trauma — após esse tempo, pode aumentar eventos tromboembólicos
Nosso paciente
LIMITE EXATO — 3h! Administrar AGORA sem demora
Contraindicações
Histórico de trombose, CID estabelecida, >3h do trauma
Atenção ao horário: O acidente foi às 09h00. Chegada às 12h00. São exatamente 3 horas. O TXA deve ser administrado nos primeiros minutos da chegada — qualquer atraso coloca o paciente fora da janela.
🅳
ATLS — DisabilityAvaliação Neurológica
📊 Escala de Coma de Glasgow
Componente
Resposta
Pontos
Abertura Ocular
Espontânea (sistema reticular preservado)
4
À voz (rebaixamento leve)
3
À dor (disfunção cortical importante)
2
Ausente (coma profundo)
1
Resposta Verbal
Orientado
5
Confuso
4
Palavras inapropriadas
3
Sons incompreensíveis
2
Ausente
1
Resposta Motora
Obedece comandos
6
Localiza dor
5
Retirada
4
Decorticação (flexão) → lesão acima do tronco
3
Descerebração (extensão) → lesão de tronco
2
Ausente
1
Lenhador: Glasgow 15 = AO4 + V5 + M6. Sem indicação neurológica de IOT. Mas Glasgow 15 não significa paciente seguro — ele pode morrer de choque com Glasgow 15.
👁️ Semiologia Pupilar
Achado
Interpretação
Isocóricas e fotorreativas (normal)
Sem lesão de tronco ou nervo oculomotor
Midríase fixa unilateral
Compressão III par → herniação uncal — emergência neurocirúrgica
Midríase fixa bilateral
PCR, hipóxia grave ou morte encefálica
Miose bilateral (puntiforme)
Opioide ou lesão de ponte
Anisocoria (>1 mm de diferença)
Lesão intracraniana até prova contrária
🅴
ATLS — ExposureExposição e Tríade da Morte
🔎 Por que Despir Totalmente?
O trauma mata escondido. Lesões em dorso, períneo, axilas e couro cabeludo são perdidas sem exposição total. Técnica: cortar roupa com tesoura, realizar log-roll com equipe de 4 (um controla coluna cervical), inspecionar dorso e períneo. Imediatamente após: cobrir com cobertor térmico.
🔥 Tríade da Morte — Fisiopatologia do Ciclo Vicioso
❄️
Hipotermia
Exposição prolongada + fluidos frios + vasodilatação do choque. Abaixo de 35°C: enzimas de coagulação perdem atividade. Abaixo de 32°C: coagulopatia grave, arritmias.
🩸
Coagulopatia
Consumo de fatores pelo sangramento + diluição por cristaloide + inativação pelo frio + fibrinólise precoce. O coágulo não se forma — o sangramento não cessa.
Regra de ouro: Cada elemento da tríade potencializa os outros dois. Hipotermia piora a coagulopatia. Coagulopatia perpetua a hipoperfusão. Acidose agrava tudo. Só se sai desse ciclo quebrando os três ao mesmo tempo.
🛡️ Prevenção da Tríade — Medidas Ativas Desde a Chegada
A prevenção começa no segundo 1 do atendimento — não após a instalação. Muito mais fácil prevenir do que reverter.
Elemento
Medida Preventiva
Quando Iniciar
❄️ Hipotermia
Manta aluminizada (metalizada) — reflete o calor corporal, impede irradiação
Imediatamente após exposição/exame
Cobertor de ar quente (warm air blanket / Bair Hugger®) — sopra ar aquecido sobre o corpo
Assim que disponível
Fluidos IV aquecidos a 39–40°C — usar aquecedor de fluidos (Level 1®, enFlow®)
Antes da infusão de qualquer cristaloide ou hemocomponente
Hemocomponentes aquecidos — sangue frio causa hipotermia e hemólise
Antes de transfundir
Ambiente aquecido — aumentar temperatura da sala de emergência se possível
Desde a chegada
🩸 Coagulopatia
Minimizar cristaloide — usar apenas 500 mL como ponte, evitar diluição de fatores
TXA (Transamin) — bloqueia fibrinólise precoce, salva o coágulo
Até 3 horas do trauma
Fibrinogênio (Crioprecipitado) — se fibrinogênio <1,5 g/L
Se coagulograma alterado
💀 Acidose
Controle do sangramento — a acidose só cede quando a perfusão for restaurada
Prioridade absoluta
Ressuscitação volêmica eficaz — sangue carrega oxigênio, cristaloide não
Imediato
Bicarbonato de sódio — se pH <7,1 ou HCO₃ <10 mEq/L (use com critério — não corrige a causa)
Quando pH crítico
Vasopressores se hipotensão refratária — noradrenalina para manter perfusão mínima
Se choque refratário à volemia
❄️ Tratamento da Hipotermia — Passo a Passo
Meta: Temperatura ≥ 36°C. Abaixo de 35°C = hipotermia clínica. Abaixo de 32°C = hipotermia grave com risco de FV.
Remover roupas úmidas e molhadas imediatamente — roupa molhada conduz calor 25× mais que o ar seco.
Manta aluminizada (space blanket / manta de resgate) — camada prateada reflete até 90% do calor irradiado pelo corpo. Barata, leve, eficaz. Deve cobrir cabeça também (30% da perda de calor é pelo escalpo).
Cobertor de ar aquecido (Bair Hugger®) — sopra ar a 43°C sobre a superfície corporal. Reaquecimento externo ativo mais eficaz disponível na emergência.
Fluidos IV aquecidos (39–40°C) — cada litro de SF a temperatura ambiente resfria o core em ~0,25°C. Usar aquecedor de linha (Level 1®, enFlow®) ou banho-maria improvisado.
Hemocomponentes aquecidos — banco de sangue aquece a 37°C antes de transfundir. Nunca transfundir sangue gelado em volume.
Monitorar temperatura central — temperatura retal ou esofágica é mais precisa que axilar.
Casos graves (<32°C com instabilidade): considerar lavagem peritoneal com SF aquecido, ECMO ou bypass cardiopulmonar em centros de referência.
Macete da manta: "Expõe para examinar → cobre para salvar." A sequência é E (Exposure) justamente para lembrar: expor COM responsabilidade — e cobrir imediatamente após.
🩸 Tratamento da Coagulopatia — Damage Control Resuscitation
Medida
Racional / Dose
Transfusão balanceada 1:1:1
Hemácias (O₂) + Plasma (fatores) + Plaquetas (tampão primário). Repor o que foi perdido na mesma proporção do sangue total.
TXA (Ácido Tranexâmico)
Bloqueia plasminogênio → plasmina → salva o coágulo. 1g EV em 10 min + 1g EV em 8h. Até 3h do trauma.
Plasma Fresco Congelado (PFC)
Repõe todos os fatores de coagulação. 10–15 mL/kg. Descongela em ~30 min — pedir precocemente ao banco de sangue.
Crioprecipitado
Rico em fibrinogênio, fator VIII e XIII. Indicado se fibrinogênio <1,5 g/L. 10 unidades EV.
Concentrado de plaquetas
Se plaquetas <50.000 com sangramento ativo. Uma unidade aumenta ~5.000–10.000/µL.
Gluconato de cálcio
Transfusões maciças consomem cálcio (citrato do preservante quelata Ca²⁺). 1 g EV a cada 4 unidades de CH.
Evitar hipotermia e acidose
Enzimas de coagulação perdem 50% da atividade abaixo de 33°C. Tratar as três juntas.
💀 Tratamento da Acidose Metabólica no Trauma
Princípio fundamental: A acidose do trauma é consequência da hipoperfusão — não tem solução química enquanto o sangramento não for controlado. Tratar a causa é mais eficaz do que tamponar o pH.
Medida
Racional
Limitação
Controle do sangramentoPRINCIPAL
Restaura perfusão → células voltam ao metabolismo aeróbico → lactato cai → pH sobe.
Requer cirurgia ou intervenção definitiva.
Sangue (não cristaloide)
Restaura capacidade de transporte de O₂. Cristaloide não carrega oxigênio e dilui tampões.
Depende de estoque disponível.
Vasopressores (noradrenalina)
Se hipotensão refratária após volemia: manter PAM ≥65 mmHg para perfusão mínima de órgãos.
Não trata a causa — ganha tempo.
Bicarbonato de sódio
Indicado apenas se pH <7,1 ou HCO₃ <10 mEq/L. Dose: 1–2 mEq/kg EV lento.
Gera CO₂ → piora acidose intracelular se ventilação inadequada. Uso criterioso.
Otimizar ventilação
Se intubado: ajustar FR para manter pCO₂ 35–40 mmHg. Hipercapnia piora pH.
—
Monitorar lactato seriado
Queda ≥10% em 2h = boa resposta. Lactato persistente = hipoperfusão não controlada.
—
⚔️ Damage Control Surgery — Quando a Cirurgia Entra na Tríade
Quando o paciente está na tríade da morte, a cirurgia definitiva (longa, complexa) mata. O conceito de damage control preconiza:
Cirurgia abreviada (1ª fase) — controlar hemorragia (clampar, tamponar, comprimir) e contaminação (ligar alça intestinal). Fechar temporariamente o abdome com bolsa de Bogotá ou wound VAC. Duração: <90 minutos.
UTI (2ª fase) — ressuscitar: corrigir hipotermia, acidose e coagulopatia. Estabilizar por 24–48h.
Cirurgia definitiva (3ª fase) — apenas quando temperatura >36°C, pH >7,3, coagulograma normalizado.
Macete: "Não conserta o carro com o motor pegando fogo. Apaga o fogo primeiro." — Damage control = apagar a tríade antes de operar definitivamente.
📋 Resumo — Prevenir vs. Tratar: 3 Inimigos, 3 Estratégias
Controle cirúrgico do sangramento · Vasopressores · Bicarbonato se pH <7,1 · Lactato seriado
Frase de ouro: "A manta salva vidas tão concretamente quanto o bisturi — mas custa centavos e está disponível em qualquer emergência. Usá-la é obrigação, não opção."
"Salvar uma vida é o ato mais grandioso que um ser humano pode praticar. Mas só salva quem estudou quando ninguém estava olhando."
— Dr. André Rossanno · Intensivista
💪
Complicação CentralRabdomiólise
🔬 Fisiopatologia Simplificada
Esmagamento muscular→Destruição de fibras→Liberação: mioglobina + K⁺ + CK + fósforo + ácido úrico
Urina Coca-Cola: A mioglobina na urina causa coloração marrom-escura macroscopicamente. No EAS (urina tipo I): "sangue positivo" SEM hemácias ao microscópio. Não confundir com hematúria!
🧪 Diagnóstico
CK >5× o limite superior (normal <200 UI/L; rabdomiólise grave pode chegar a 40.000+)
Urina marrom-escura com EAS+ para sangue mas SEM hemácias ao microscópio
Hipercalemia (K >5,5 mEq/L)
Creatinina elevada ou em ascensão
Contexto clínico: esmagamento por 2 horas
🚰 Protocolo L.A.V.E. — Proteção Renal
Letra
Medida
Como
L
Líquido vigoroso
SF 0,9% em 200–400 mL/h. Diluir e lavar a mioglobina dos túbulos renais.
A
Alcalinizar a urina
Bicarbonato 150 mEq (3 amp.) em 1L SG5% a 100–150 mL/h. Meta: pH urina >6,5. Mioglobina precipita em pH ácido.
V
Vigiar diurese
Meta: ≥200–300 mL/h. SVD obrigatória para medir com precisão. Ajustar hidratação pela diurese.
E
Evitar nefrotóxicos
AINE, contraste iodado, aminoglicosídeos, vancomicina sem monitoramento.
Indicação de diálise: K⁺ refratário + acidose grave + oligúria persistente + sobrecarga volêmica. Acionar precocemente se sem resposta à hidratação.
⚡
Complicação LetalHipercalemia
PONTO MAIS COBRADO: Gluconato de cálcio NÃO baixa o potássio. Apenas protege o coração. Para baixar o K são necessárias outras medidas.
📊 ECG na Hipercalemia — Progressão
Nível de K⁺
Achado no ECG
5,5–6,0 mEq/L
Ondas T altas, simétricas, apiculadas ("em tenda")
6,0–6,5 mEq/L
Alargamento do QRS, PR prolongado
6,5–7,0 mEq/L
Onda P achatada ou ausente
>7,0 mEq/L
QRS muito alargado, padrão sinusoidal
>8,0 mEq/L
Fibrilação ventricular, assistolia
💉 Sequência de Tratamento da Hipercalemia
Gluconato de cálcio 10% — 10 mL EV lento (5 min): Estabiliza membrana miocárdica. NÃO baixa K. Ação em 1–3 min. Duração 30–60 min.
Insulina Regular 10 UI + Glicose 50% 50 mL EV: Internaliza K via Na/K ATPase. Ação em 15–30 min.
Salbutamol inalatório 10–20 mg: Ativa receptor β₂ → K para dentro da célula. Ação em 30–60 min.
Bicarbonato de sódio EV (se pH <7,2): Corrige acidose → K retorna para célula. 50–100 mEq EV.
Furosemida 40 mg EV: Elimina K pela urina se função renal preservada.
Hemodiálise: Remove K definitivamente se refratário ou LRA grave.
🦵
Emergência CirúrgicaSíndrome Compartimental
🩺 4 P's da Síndrome Compartimental
Sinal
Detalhe
Pain (Dor)
Desproporcional ao trauma. Piora ao alongamento passivo do músculo (patognomônico).
Pressure (Pressão)
Compartimento tenso à palpação. Pressão >30 mmHg ou dentro de 30 mmHg da PA diastólica = fasciotomia.
Paresthesia
Hipoestesia ou parestesia distal — compressão nervosa.
Paralysis
Fraqueza ou paralisia — compressão neuromuscular avançada.
⚠️ Ausência de pulso é sinal TARDIO. Não espere o pulso sumir para indicar fasciotomia. A dor desproporcional + compartimento tenso já indicam a cirurgia. Quando o pulso some, a necrose já está em curso.
⚔️ Fasciotomia
Incisão longitudinal de toda a extensão do compartimento. Deixar aberto. Fechamento após 48–72h quando o edema regredir. Indicar cirurgia AGORA — o lenhador tem dor desproporcional + compartimento tenso + parestesia em pé direito.
🩺
MonitoramentoSVD — Sondagem Vesical de Demora
📋 Indicação, Técnica e Contraindicações
Item
Detalhe
Indicação principal
Monitorar diurese horária com precisão — obrigatório na rabdomiólise (meta ≥200 mL/h)
Indicação secundária
Observar coloração da urina (mioglobinúria), guiar reposição volêmica
Técnica
Posição supina, assepsia rigorosa, sonda Foley 14–16 Fr, sistema coletor fechado
CONTRAINDICAÇÃO
Sangue no meato uretral + hematoma perineal extenso = suspeita de ruptura uretral → NÃO sondar. Uretrocistografia retrógrada ou urologia.
🚰 Metas de Diurese
Diurese
Interpretação
<30 mL/h
Oligúria — ressuscitação insuficiente ou LRA instalada
30–50 mL/h
Aceitável para adulto geral, mas insuficiente na rabdomiólise
≥200–300 mL/h
META na rabdomiólise — necessária para lavar a mioglobina
Urina clara ≥200 mL/h
Meta atingida. Manter hidratação e monitorar eletrólitos.
🖥️
Diagnóstico por ImagemTC e Transporte — Quando e Como
"Paciente instável não passeia no hospital. O corredor entre a emergência e o TC é o lugar mais perigoso para um politraumatizado."
— Princípio do ATLS
📋 Critérios para TC vs. FAST
Situação
Conduta
PA instável (<90 mmHg sem resposta)
NÃO vai para TC → FAST à beira do leito
PA estabilizada e responsiva
Pode ir para TC com monitorização completa
Hipoxemia não controlada
NÃO vai para TC
SatO₂ ≥94% estável
Pode ir com O₂ portátil
Sem equipe médica disponível
NÃO vai
Médico + monitor + drogas de emergência
Pode ir
✅ Checklist Pré-Transporte
Monitor cardíaco ligado com alarmes ativos
Oxímetro posicionado e funcionando
O₂ portátil com carga suficiente para ida + volta
Acessos venosos pérvios e fixos com curativo
Adrenalina, atropina e ambu disponíveis no carrinho
Médico ou intensivista acompanhando pessoalmente
TC avisada e leito disponível (sem espera no corredor)
"O conhecimento é a única riqueza que ninguém pode te tirar. Cada hora de estudo é um depósito no banco da competência — e a vida dos seus pacientes é o juros."
— Dr. André Rossanno
🃏
Treino Ativo · Técnica de MemorizaçãoFlashcards — Flip para Resposta
Como usar: Tente responder mentalmente ANTES de virar o cartão. A geração ativa da resposta fixa 3× mais do que leitura passiva. Isso é o Método André Rossanno em ação.
CATEGORIA
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RESPOSTA
⚠️ Pegadinha:
1 / 20
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Questionário InterativoQuiz — 20 Questões com Gabarito
Testing Effect: Responder questões ativa a memória muito mais do que reler o material. Cada erro é um acelerador de aprendizado — leia o feedback com atenção.
0
pontos de 20
✓ Corretas
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✗ Erradas
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Interleaving · Diagnóstico DiferencialPegadinhas — As 8 que Reprovam
Método André Rossanno: A pegadinha não existe para te enganar — existe para revelar o raciocínio superficial. Clique para expandir cada uma.
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Síntese FinalResposta Ideal do Aluno no OSCE
🎯 Fala Esperada — Palavra por Palavra
"Paciente masculino, 41 anos, lenhador, com politrauma por esmagamento de 2 horas de evolução mais 1 hora de transporte — totalizando 3 horas do evento. Inicio com MOV: monitorizacão contínua, troca do cateter nasal (FiO₂ 41% insuficiente — SatO₂ 89%) para Máscara de Venturi 50%, e dois acessos venosos 14G com coleta de exames.
No ABCDE: via aérea pérvia com colar cervical mantido, sem sinais de pneumotórax. Reconheço Choque Hemorrágico Classe III pelo FC 128 + hipotensão + sangramento oculto muscular. Administro TXA 1g EV IMEDIATAMENTE — estamos no limite exato de 3 horas. Inicio transfusão de hemácias + plasma + plaquetas 1:1:1. Cristaloide apenas 500 mL como ponte.
Instalo SVD para monitorar diurese com meta ≥200 mL/h pela rabdomiólise. Trato hipercalemia: gluconato de cálcio 10 mL EV (protege coração, NÃO baixa K) + insulina + glicose + salbutamol. Inicio SF vigoroso 300 mL/h + bicarbonato para alcalinizar urina.
MID com compartimentos tensos, dor desproporcional e parestesia → aciono cirurgia para fasciotomia urgente. Somente após estabilização hemodinâmica, com equipe e monitorização completa, realizo TC de crânio, tórax, abdome e pelve."