BLOCO 2 · TEMA 2 · LESÕES EM ÓRGÃOS-ALVO
BLOCO 2 · TEMA 2

Lesões em Órgãos-Alvo

“A hipertensão não causa dano apenas porque aumenta um número no esfigmomanômetro. Ela causa dano porque deixa cicatrizes progressivas no coração, nos vasos, nos rins e na retina.”

CORAÇÃO GRANDES VASOS 🫘 RINS 👁 RETINA 🦵 ARTÉRIAS PERIFÉRICAS

A onda pressórica percorre o corpo e revela, estação por estação, onde a hipertensão deixa suas marcas.

01 · MAPA DO TEMA

Objetivos do Tema 2

Toque em cada cartão para marcar como estudado. Eles reaparecerão na revisão final.

02 · CONCEITO

O que é lesão de órgão-alvo

Lesão de órgão-alvo é uma alteração estrutural ou funcional provocada pela hipertensão em órgãos ou sistemas vulneráveis, podendo estar presente antes do surgimento de sintomas clínicos.

Pontos-chave

  • Todo hipertenso diagnosticado deve ser avaliado quanto à presença de lesões em órgãos-alvo.
  • A escolha dos métodos depende dos recursos disponíveis.
  • A presença de lesão de órgão-alvo aumenta o risco cardiovascular e renal.
  • Hipertensão secundária costuma trazer maior risco cardiovascular, renal e maior impacto nos órgãos-alvo.

Ritmo de reavaliação

Quando há controle inadequado da PA ou evidência de lesão de órgão-alvo, a reavaliação pode ser feita a cada 6 a 12 meses, até a meta pressórica ser atingida e a lesão estabilizar ou reverter.

Albuminúria e velocidade da onda de pulso podem responder ao controle pressórico em semanas a poucos meses — os primeiros sinais de resposta ao tratamento.

Linha do tempo do cuidado

Diagnóstico da HAS
Pesquisa de lesões
Tratamento
Reavaliação
Estabilização ou reversão
03 · PALÁCIO VISUAL

Vitral do Hipertenso

Toque em cada letra do vitral para revelar o órgão, o método, o valor de corte e a pergunta de evocação.

VITRAL DO HIPERTENSO
04 · NÚMEROS

Números de Ouro das Lesões em Órgãos-Alvo

Exame / ParâmetroValor de corte
Velocidade da onda de pulso (VOP)≥ 10 m/s
Índice tornozelo-braquial (ITB)< 0,90
TFGe< 60 mL/min/1,73 m²
Albuminúria≥ 30 mg/24h
Relação albumina/creatinina (RAC)≥ 30 mg/g
HVE — Sokolow-Lyon (S V1 + R V5/V6)> 35 mm
HVE — R em aVL≥ 11 mm
HVE — Índice de Cornell (S V3 + R aVL)> 28 mm (homens) · > 20 mm (mulheres)
HVE — ECO por superfície corporal≥ 116 g/m² (homens) · ≥ 96 g/m² (mulheres)
HVE — ECO por altura²·⁷≥ 50 g/m²·⁷ (homens) · ≥ 47 g/m²·⁷ (mulheres)
Espessura relativa da parede (ERP) — referência de corte0,42
Geometria — massa normal até115 g/m² (homens) · 95 g/m² (mulheres)
⚠ IMPORTANTE: não misturar 116/96 com 115/95.

116/96 são os cortes usados para identificar lesão de órgão-alvo. 115/95 são os limites usuais para classificar a geometria ventricular no gráfico ecocardiográfico. São perguntas diferentes, sobre a mesma massa ventricular.

CARTÃO A

Diagnóstico de lesão de órgão-alvo

116 g/m² homem

96 g/m² mulher

CARTÃO B

Geometria ventricular

115 g/m² homem

95 g/m² mulher

05 · CORAÇÃO

Lesão Cardíaca e Cardiopatia Hipertensiva

A cardiopatia hipertensiva é o conjunto de alterações estruturais e funcionais cardíacas relacionadas à exposição crônica à hipertensão.

O que compõe a cardiopatia hipertensiva

  • Remodelamento ventricular
  • Hipertrofia ventricular esquerda (HVE)
  • Fibrose miocárdica
  • Aumento da rigidez ventricular
  • Disfunção diastólica
  • Dilatação do átrio esquerdo
  • Fibrilação atrial
  • Insuficiência cardíaca
  • Possível progressão para disfunção sistólica
Ventrículo normal

HVE não é apenas músculo aumentado.
É a cicatriz anatômica de anos de sobrecarga pressórica.

Marcador independente de risco

A HVE está associada a maior risco de:

  • Insuficiência cardíaca
  • Acidente vascular cerebral
  • Fibrilação atrial
  • Morte cardiovascular

Antes × depois do controle da PA

ANTES DO CONTROLE

Parede espessa, relaxamento prejudicado, risco elevado.

APÓS CONTROLE E REGRESSÃO

Redução da massa, melhora do risco e menor incidência de eventos.

A regressão da HVE está associada à redução de eventos cardiovasculares — mas nem toda HVE regride completamente.

06 · EIXO CENTRAL

ECG mede eletricidade. ECO mede anatomia.

ECG

"O ECG mede eletricidade."

  • Sokolow-Lyon
  • R em aVL
  • Índice de Cornell
  • Alta especificidade
  • Sensibilidade limitada
  • Pode haver HVE ecocardiográfica com ECG sem critérios clássicos
ECOCARDIOGRAMA

"O ECO mede anatomia, massa e geometria."

  • Massa do ventrículo esquerdo
  • Índice de massa do VE
  • Espessura relativa da parede
  • Espessura do septo
  • Espessura da parede posterior
  • Diâmetro da cavidade
  • Volume do átrio esquerdo
  • Função sistólica e diastólica

ECG procura voltagem. ECO procura músculo, formato e função.

07 · ECG

Critérios Eletrocardiográficos de HVE

Toque nas derivações para relembrar cada critério.

Toque em uma derivação acima para ver o critério associado.

Critérios de referência

Sokolow-Lyon

S em V1 + maior R em V5 ou V6 > 35 mm

R em aVL

≥ 11 mm

Índice de Cornell

S em V3 + R em aVL: > 28 mm (homens) · > 20 mm (mulheres)

Use sempre índice ou critério de voltagem de Cornell — não "Cornell-Einstein".

Exercícios de evocação ativa

08 · ECO

Ecocardiograma e Massa Ventricular

O ecocardiograma permite estimar a massa do ventrículo esquerdo e indexá-la ao tamanho corporal.

Indexação pela superfície corporal

≥ 116 g/m² homens · ≥ 96 g/m² mulheres

Indexação pela altura²·⁷

≥ 50 g/m²·⁷ homens · ≥ 47 g/m²·⁷ mulheres

Particularmente útil em obesos: a superfície corporal elevada pela adiposidade pode reduzir artificialmente o índice e subestimar a HVE.

Caso interativo

Homem, 52 anos · Peso 122 kg · Altura 1,72 m · IMC 41,3 kg/m² · PA 150/96 mmHg · Massa do VE = 230 g

09 · TÉCNICA CENTRAL

A Fortaleza Cardíaca

A principal técnica visual para memorizar massa ventricular e espessura relativa da parede (ERP).

REI 115

Homem
Limite de referência de massa: 115 g/m²

MURALHA 0,42

Espessura relativa da parede

Toque para simular
RAINHA 95

Mulher
Limite de referência de massa: 95 g/m²

“O Rei carrega 115. A Rainha carrega 95. A Muralha decide a concentração: 0,42.”

O que a massa informa

Se existe hipertrofia — comparando o índice de massa do VE ao limite de referência do sexo.

O que a ERP informa

Se a parede está relativamente espessa em relação à cavidade.
ERP = 2 × PPVE / DDVE

10 · GEOMETRIA

Geometria do Ventrículo Esquerdo

ERP
Massa normal + ERP ≤ 0,42

Geometria normal

Massa aumentada + ERP ≤ 0,42

Hipertrofia excêntrica

Massa normal + ERP > 0,42

Remodelamento concêntrico

Massa aumentada + ERP > 0,42

Hipertrofia concêntrica

Índice de massa do VE

Simulador de geometria

11 · CASO CLÍNICO

Interpretando um Laudo de Ecocardiograma

Aorta3,1 cmDDVE4,7 cmFração de ejeção62%
Átrio esquerdo4,2 cmDSVE3,1 cmMassa do VE287 g
Septo interventricular1,2 cmVolume diastólico do VE102 mLÍndice de massa do VE150 g/m²
Parede posterior do VE1,3 cmVolume sistólico do VE37,9 mLÍndice de volume do AE36 mL/m²
ERP0,53Volume do átrio esquerdo70 mL

Interpretação passo a passo

Atenção: não é possível diagnosticar disfunção diastólica apenas com esses dados isolados — são necessários parâmetros Doppler e teciduais.

12 · PROGRESSÃO

Estágios da Cardiopatia Hipertensiva

Modelo didático de progressão baseado em Messerli — nem todo paciente passa obrigatoriamente por todos os estágios.

ESTÁGIO I

Alteração funcional inicial

Disfunção diastólica. Sem HVE evidente.

ESTÁGIO II

Alterações estruturais

Disfunção diastólica. Presença de HVE.

ESTÁGIO III

IC sintomática, FE preservada

Predomínio de rigidez, hipertrofia concêntrica e disfunção diastólica.

ESTÁGIO IV

IC avançada, disfunção sistólica

Dilatação ventricular. FE reduzida. Possível hipertrofia excêntrica.

VE normalRigidezHVE concêntricaICFEPDilatação e ICFER
13 · FENÓTIPOS

ICFEP × ICFER

ICFEP

  • Ventrículo geralmente não dilatado
  • Hipertrofia concêntrica frequente
  • Aumento da rigidez
  • Disfunção diastólica
  • Fração de ejeção preservada
  • Enchimento sob pressões elevadas

ICFER

  • Dilatação ventricular mais frequente
  • Remodelamento excêntrico
  • Disfunção sistólica
  • Fração de ejeção reduzida

A hipertensão é fator de risco para ambos os fenótipos. O tratamento da hipertensão reduz o risco de desenvolvimento de insuficiência cardíaca.

Em pacientes já com ICFER, as terapias modificadoras de doença devem ser otimizadas conforme tolerância clínica, mesmo com PA baixa — desde que não haja hipotensão sintomática ou sinais de hipoperfusão.

Nem toda ICFER hipertensiva apresenta obrigatoriamente hipertrofia excêntrica.

14 · INVESTIGAÇÃO

Como saber se a hipertensão é a principal causa da ICFER?

✓ Critérios de sustentação

  • Hipertensão de longa duração
  • Controle pressórico inadequado
  • HVE prévia ou atual
  • Remodelamento compatível
  • Lesões hipertensivas em outros órgãos (retinopatia, albuminúria, doença renal)
  • Ausência de causa alternativa mais provável

✕ Exigir exclusão de

  • Doença arterial coronariana
  • Valvopatias
  • Miocardiopatias
  • Doença de Chagas
  • Miocardite
  • Álcool e toxinas
  • Taquicardiomiopatia
  • Causas genéticas / doenças infiltrativas

A cardiopatia isquêmica é uma causa frequente de ICFER e não deve ser negligenciada.

Casos clínicos

15 · RETINA

A Retina como Janela da Microvasculatura

O exame do fundo de olho permite observar diretamente arteríolas e consequências da hipertensão sobre a microcirculação (classificação de Keith-Wagener-Barker).

NORMAL

Sem alterações vasculares

GRAU I

Estreitamento arteriolar difuso

GRAU II

+ cruzamentos arteriovenosos

GRAU III

+ hemorragias e/ou exsudatos e/ou manchas algodonosas

GRAU IV

+ papiledema

EstreitamentoCruzamentos AVHemorragias e exsudatosPapiledema

O reflexo arteriolar: fio de cobre e fio de prata

Antes de cruzamentos e hemorragias, a primeira pista à fundoscopia costuma ser a mudança no reflexo luminoso central da parede arteriolar — um achado clássico e recorrente em provas de título.

Reflexo em fio de cobre

Espessamento leve a moderado da parede arteriolar (arteriosclerose inicial) alarga e amarela o reflexo central da luz, lembrando um fio de cobre.

Costuma acompanhar alterações compatíveis com estreitamento arteriolar (grau I) e o início dos cruzamentos patológicos (grau II).

Reflexo em fio de prata

Arteriosclerose mais avançada: a parede arteriolar torna-se tão espessa que o reflexo luminoso central quase desaparece o brilho da coluna sanguínea, restando um aspecto esbranquiçado/prateado.

Marca doença arteriolar mais avançada e crônica, associada a graus mais avançados de cruzamento arteriovenoso.

Não confundir: fio de cobre/fio de prata descrevem o reflexo da parede arteriolar (arteriosclerose), enquanto o sinal de Gunn descreve a compressão da veia no cruzamento arteriovenoso. São achados relacionados, mas conceitualmente distintos.

16 · GLOSSÁRIO DA RETINA

Termos Técnicos da Retina

Nem todo edema de papila é automaticamente causado pela hipertensão.

17 · TERMINOLOGIA

Hipertensão Acelerada-Maligna

Hipertensão acelerada

Associada classicamente à retinopatia grau III, com hemorragias e exsudatos, sem papiledema.

Hipertensão maligna

Associada classicamente à retinopatia grau IV, com papiledema.

Diretriz de 2025: os termos "acelerada" e "maligna" podem ser tratados conjuntamente como hipertensão acelerada-maligna. A definição moderna não se resume a um valor pressórico — a presença de lesão aguda de órgão-alvo e o contexto clínico são centrais.

Grau III

Hemorragias e exsudatos, sem papiledema

Grau IV

Grau III + papiledema

18 · ALERTA

Papiledema e Emergência Hipertensiva

⚠ Papiledema em paciente com elevação importante da PA exige investigação imediata.
  • Exame neurológico
  • Avaliação de sintomas
  • Pesquisa de lesão aguda de órgão-alvo
  • Neuroimagem quando indicada, para excluir causas intracranianas
  • Consideração de hipertensão intracraniana
  • Exclusão de causas neurológicas e oftalmológicas alternativas

Nem todo papiledema é obrigatoriamente hipertensão maligna — o contexto clínico define a emergência.

Caso clínico

PA 223 × 126 mmHg · cefaleia · alteração visual · hemorragias · exsudatos · edema de papila

Urgência ou emergência hipertensiva?

19 · GLOSSÁRIO

Dicionário Técnico Interativo

20 · FLASHCARDS

Estação de Memorização Numérica

Toque no cartão para virar.

21 · MODO PROVA

Modo Prova — Tema 2

27 questões misturando múltipla escolha, verdadeiro/falso, associação e interpretação de exames.

Pronto para testar seu domínio do tema?

22 · REVISÃO RELÂMPAGO

A Tela que Salva a Prova

VITRAL

VOP ≥10 · ITB <0,9 · TFGe <60
Retina · Albuminúria ≥30 · Lesão cardíaca

ECG

35 (Sokolow) · 11 (aVL)
28 homem / 20 mulher (Cornell)

ECO

116 homem · 96 mulher

GEOMETRIA

Rei 115 · Rainha 95 · Muralha 0,42

RETINA

I estreitamento · II cruzamento AV
III hemorragias/exsudatos · IV papiledema

CARDIOPATIA HAS

I sem HVE · II HVE · III ICFEP · IV ICFER/dilatação

“A pressão pode ser silenciosa.
Os órgãos, porém, deixam pistas.”

Dr. André Rossanno

AUTOR E CURADOR · ATLAS MENTAL DA HIPERTENSÃO ARTERIAL