Atlas Mental da Hipertensão Arterial

Tratamento não medicamentoso

BLOCO 2 · TEMA 4A · Tema 4 permanece Tema 4

Quanto cada mudança reduz a pressão, como prescrever com precisão e quando ter cautela. Não é o prefácio fraco antes do remédio — é tratamento.

Dr. André Rossanno
00

Como usar este módulo

Este não é uma apostila digital nem um resumo. É uma plataforma de raciocínio. Você vai decidir, calcular, errar em ambiente seguro e reter.

Leia ativoAntes de cada explicação, tente responder. A resposta só ganha valor depois do esforço.
SimuleUse os simuladores (sódio, Karvonen, dose de álcool, prescrição). São ferramentas educacionais, não promessas individuais.
Cace a pegadinhaCada bloco tem uma armadilha de prova. Elas aparecem de novo na Arena TEC.

Ative o Modo professor no topo para abrir fisiopatologia, controvérsias e notas de docência. Seu progresso fica salvo neste dispositivo.

01

Objetivos de aprendizagem

Ao final você será capaz de

▸ Estimar quanto cada intervenção reduz a PAS/PAD e por que não somá-las cegamente.

▸ Prescrever exercício aeróbico por FITT-VP e definir intensidade moderada por múltiplos métodos.

▸ Distinguir sódio × sal, atividade × exercício, força da recomendação × certeza da evidência.

▸ Aplicar os limites de segurança pressórica do exercício (160/105 e 180/105).

▸ Reconhecer quando sal light, potássio e substituto de sal exigem cautela.

▸ Interpretar criticamente o estudo SSaSS e transferir para casos e questões.

02

O caso que atravessa o módulo

N6 · narrativa clínica

Roberto, 52 anos. Sedentário, IMC 31 kg/m². PA média de consultório 148/94 mmHg. Come ultraprocessados quase todos os dias, bebe bastante nos fins de semana e quase não come frutas e verduras.

Sua missãoAo longo do módulo você vai decidir o plano de Roberto: quais intervenções prescrever, quais têm maior impacto, como quantificar, o que exige cautela, como prescrever exercício e o que esperar. No fim, seu plano será comparado a um plano ideal comentado.

Guarde estes números. Vamos voltar a eles.

03

Mapa-mestre — as 8 alavancas

N1 · compressão

Todo o tratamento não medicamentoso comprime em oito alavancas. Não force um acrônimo: é a constelação da pressão segura.

SAL<2 g Na / 5 g sal
PESO1 kg ≈ −1 mmHg
DASHpadrão alimentar
POTÁSSIO≥3,5 g/dia
ÁLCOOLmoderar / sem binge
MOVIMENTO150 min/sem
TABACOcessar, não reduzir
ESTRESSEmeditação / mente
04

Filosofia clínica

Existe uma frase que atrapalha muito médico: "primeiro a gente tenta mudar o estilo de vida, depois entra o remédio." Ela sugere que a medida não medicamentosa é um começo fraco, uma formalidade antes do tratamento de verdade.

Não é. A medida não medicamentosa reduz a pressão, reduz risco cardiovascular, trata fatores de risco concomitantes, melhora a resposta aos anti-hipertensivos e pode diminuir o número ou a dose de medicamentos. Ela não substitui o remédio quando ele é necessário — mas anda junto com ele, e às vezes o antecipa.

O que ela cobra em troca é o mais difícil de prescrever: adesão e manutenção. Um comprimido é tomado em segundos. Uma dieta, um treino e um copo a menos são decisões repetidas mil vezes. É por isso que a maior parte deste módulo é sobre como prescrever, não apenas o que recomendar.

O alerta que define o móduloNão some cegamente todas as reduções médias de PAS/PAD. Os efeitos se sobrepõem, são parcialmente aditivos e variam conforme PA basal, adesão, fenótipo e duração. Somar os números como numa fatura dá uma queda impossível.

— Dr. André Rossanno

05

Painel de magnitude do efeito

N7 · o peso de cada gesto

Reduções médias aproximadas de estudos e metanálises (Diretriz Brasileira de HAS 2025). São médias populacionais, não resposta individual garantida. Ordene para ver quem move mais a agulha.

IntervençãoΔ PASΔ PADRecomendação
Pegadinha de provaSomar linearmente todas as linhas dá uma queda irreal (>30 mmHg). A prova adora testar isso. Os efeitos se sobrepõem.
Nota de docênciaA cessação do tabagismo aparece com efeito direto sobre a PA controverso — mas o benefício sobre eventos, câncer e mortalidade é inequívoco. Não confunda "efeito pequeno/incerto na PA" com "intervenção fraca": aqui força de recomendação e magnitude de PA divergem.
06

Sódio & sal

N3 · causalidade

Menos sódio → menor retenção de água → menor volume circulante e carga vascular → menor PA. Até cerca de 30% dos casos de hipertensão podem ser atribuídos ao excesso de sódio (material da aula).

De onde vem o sódio

Três fontes: sal na mesa, sal no preparo e sódio de industrializados/ultraprocessados. Em países desenvolvidos predomina o industrial; no Brasil o preparo domiciliar ainda pesa muito, embora os ultraprocessados venham crescendo.

Quem responde mais à restrição

Hipertensos, idosos, pessoas negras, indivíduos sal-sensíveis e fenótipos de retenção volêmica (incluindo DRC) — sempre com individualização.

Meta principal< 2 g de sódio/dia ≈ 5 g de sal/dia ≈ uma colher de chá rasa distribuída no dia inteiro.

Conversor sódio ↔ sal ↔ mmol

Não confunda sódio com sal

Relações: 1 mmol Na ≈ 23 mg · 100 mmol Na ≈ 2,3 g Na · 2 g Na ≈ 5 g sal (aprox.).
"2 g de sal" NÃO equivale a "2 g de sódio". 2 g de sódio ≈ 5 g de sal.
Contraste N2Sódio é o elemento (Na). Sal de cozinha é NaCl — só cerca de 40% dele é sódio. Rótulo, prova e prescrição usam sódio; a colher de chá é sal.
07

Tipos de sal & sal light

Sal refinado, marinho, grosso, rosa do Himalaia, flor de sal, integral, negro, com ervas… A aparência, a origem exótica ou os minerais-traço não transformam um sal rico em NaCl em tratamento anti-hipertensivo. Na prática, a maioria continua entregando bastante sódio.

Mito perigoso"Sal rosa é natural, então é sem sódio." Falso. Continua sendo majoritariamente NaCl.

Sal light — o único diferente de verdade

Menor proporção de NaCl, com substituição parcial por KCl. Pode reduzir sódio e aumentar potássio. Mas a composição varia por marca — não use porcentagem fixa universal, leia o rótulo.

Cautela / contraindicação relativaDRC, hipercalemia ou risco dela, e uso de IECA, BRA, antagonista de mineralocorticoide ou outros fármacos que elevam K⁺. Exige avaliação individual e monitorização. Sal light não é recomendação universal.
08

O saleiro que mudou desfechos: SSaSS

Um substituto de sal (75% NaCl + 25% KCl) trocando o sal comum em vilas rurais — e os desfechos duros caíram. NEJM, 2021.

DesenhoEnsaio por conglomerados · ~20.995 participantes · ~600 vilas rurais na China · com história de AVC ou ≥60 anos com hipertensão · seguimento ~5 anos.
Achados (reduções relativas aprox.)AVC ↓ ~14% · eventos cardiovasculares maiores ↓ ~13% · mortalidade ↓ ~12%. Sem aumento estatisticamente significativo de eventos graves por hipercalemia no estudo.

Taxas por 1.000 pessoas-ano (substituto vs. comum)

DesfechoSal substitutoSal comum
AVC29,1433,65
Eventos CV maiores49,0956,29
Mortalidade39,2844,61
Aplicação práticaSubstituto de sal é uma alavanca populacional real, sobretudo em quem come sal do preparo doméstico.
Limitação & pegadinhaPopulação de alto risco, contexto rural chinês. Não significa que todo paciente pode usar KCl sem avaliação. Efetividade populacional não elimina a individualização — quem tem risco de hipercalemia precisa de cautela.
09

Avaliar o consumo de sódio

Recordatório alimentar ajuda, mas é impreciso — rótulos, temperos escondidos e preparo caseiro atrapalham qualquer estimativa feita de memória. Quando é preciso ir além da impressão clínica, existe um exame que se destaca de todos os outros:

SÓDIO URINÁRIO DE 24 HORAS

Ele é considerado o melhor método disponível para estimar a ingestão habitual de sódio — muito superior ao recordatório alimentar, que depende da memória e da sinceridade do paciente sobre o que realmente comeu.

É, reconhecidamente, um exame desconfortável: o paciente precisa coletar toda a urina produzida em 24 horas, sem perder nenhuma micção, guardando o frasco refrigerado. Mesmo assim, em determinadas situações, essa informação vale o incômodo:

Hipertensão resistenteAjuda a diferenciar resistência verdadeira de consumo excessivo de sal mascarando o controle.
Suspeita de baixa adesãoConfronta o que o paciente relata com o que o corpo efetivamente excreta.
Ingestão elevada suspeitadaDocumenta objetivamente um consumo de sódio que a anamnese não consegue captar.
Orientar o tratamentoFornece um número concreto para negociar metas realistas com o paciente.

Ainda assim, o resultado nunca deve ser lido isoladamente: uma única coleta tem variação diária considerável (o consumo de sal muda de um dia para o outro), a qualidade da coleta interfere muito no resultado (perder uma micção subestima tudo), e o número final só ganha sentido quando interpretado junto ao contexto clínico do paciente.

RessalvaUma coleta isolada varia dia a dia. Avalie a qualidade da coleta (creatinina urinária, volume) conforme o contexto.

Estimador de sódio urinário 24h

Referência: <100 mmol/24h ≈ 2,3 g de sódio ≈ 5–6 g de sal.
Educacional. <100 mmol NÃO corresponde exatamente a 2 g de sódio, e uma coleta isolada sofre variação diária.
10

Reduzir sódio na vida real

A escada de intervenção

1 · conscientizar paciente e família · 2 · identificar as principais fontes · 3 · ler rótulos · 4 · reduzir ultraprocessados · 5 · priorizar in natura/minimamente processados · 6 · diminuir sal do preparo · 7 · tirar o saleiro da mesa · 8 · usar ervas, alho, cebola, limão, especiarias e pimentas · 9 · considerar substituto de sal quando apropriado · 10 · reavaliar adesão e, em casos selecionados, sódio urinário 24h.

Detetive do sódio

Toque em cada alimento: fonte oculta de sódio ou seguro?

11

Potássio

N3 · causalidade
Meta dietética≥ 3,5 g/dia, preferencialmente por alimentos — exceto em DRC ou hiperpotassemia.

Fontes: frutas, verduras, legumes, leguminosas, batata, abacate, folhas verdes, banana, tomate, cítricos, melão, feijões e peixes (dentro da dieta global).

Mecanismos: natriurese, modulação vascular, melhora da relação sódio/potássio e efeitos sobre o tônus vascular.

CautelaDRC, hipercalemia, hipoaldosteronismo e fármacos que elevam K⁺. Não prescrever suplementação indiscriminada.
Contraste N2Dieta rica em potássio (recomendada amplamente) ≠ suplemento farmacológico de potássio (não é a estratégia de rotina). A prova troca os dois.
12

Dieta DASH

DASH = Dietary Approaches to Stop Hypertension. Reduz a PAS em ≈ 8,7 mmHg e a PAD em ≈ 4,5 mmHg (valores do estudo clássico, em contexto específico — o efeito individual varia).

PriorizarFrutas, verduras, legumes, cereais integrais, leguminosas, oleaginosas e sementes, laticínios desnatados, peixes, carnes brancas e óleos/gorduras de melhor perfil.
ReduzirSal, ultraprocessados, bebidas açucaradas, açúcares, gorduras saturadas, carnes processadas e excesso de carne vermelha.
O que DASH NÃO éNão é dieta de fome, não é só salada, não é obrigatoriamente vegetariana e não é uma lista rígida idêntica para todos. É um padrão alimentar.
Por que funcionaO padrão DASH combina três alavancas em uma: mais potássio/cálcio/magnésio, menos sódio e melhor perfil de gorduras. Parte do efeito se sobrepõe ao do potássio e ao da restrição de sódio — mais um motivo para não somar tudo linearmente.
13

Álcool

Excesso de álcool eleva a PA, e o binge drinking é particularmente nocivo. Reduzir ~50% (ou retirar ≥6 doses) em grandes consumidores reduz a PAS ≈ 5,5 mmHg e a PAD ≈ 4,0 mmHg.

NuncaNão recomende iniciar consumo de álcool com finalidade cardiovascular. Para quem já bebe, oriente redução e limites.
Limites — Diretriz Brasileira de HAS 2025Homens: até 2 doses padrão/dia · Mulheres: até 1 dose padrão/dia · evitar consumo episódico abusivo.

Uma dose padrão no material ≈ 10 a 12 g de álcool puro, correspondendo aproximadamente a 200 mL de cerveja (5%), 100 mL de vinho (12%) ou 25 mL de destilado (40%).

Calculadora de dose alcoólica

gramas de álcool = volume × (%/100) × 0,789 (densidade do etanol).
O tamanho do copo ≠ uma dose. Uma lata de cerveja de 350 mL costuma ser mais de uma dose padrão.
Nota científicaOrganizações usam definições diferentes de dose padrão (frequentemente 10–14 g) e volumes diferentes conforme o teor. Não misture padrões sem citar a fonte.
14

Mito ou verdade: café causa hipertensão?

A cafeína pode elevar transitoriamente a PA em alguns indivíduos, mas consumidores habituais desenvolvem tolerância parcial. O consumo habitual moderado — em geral ~3 a 4 xícaras/dia no material — não se associa de forma consistente a aumento crônico da PA ou incidência de HAS.

Considere caso a casoSensibilidade individual, palpitações, ansiedade, sono, forma de preparo e o açúcar/acompanhamentos. E energético não é café.
Não exagere na conclusão"Café não piora a PA cronicamente na maioria" não vira "café protege o coração de todo mundo". Não afirme benefício cardiovascular universal.
15

Redução de peso & obesidade

N3 · causalidade

Em sobrepeso/obesidade, perder peso é uma das intervenções de maior efeito — depende da magnitude e da manutenção. Melhora PA, resistência insulínica, apneia do sono e perfil metabólico.

Perda de peso → ↓ ativação simpática, ↓ resistência insulínica, ↓ retenção de sódio, ↓ AOS → ↓ PA.

Metas de IMC (material da aula)Em geral IMC < 25 kg/m² até 65 anos. Após os 65, considerar faixa ≈ 22–27 kg/m², individualizando e evitando sarcopenia.

Efeito médio: cada 1 kg perdido ≈ PAS −1,05 mmHg e PAD −0,92 mmHg.

Calculadora de efeito da perda de peso

Estimativa média — não é promessa individual.
Ferramenta educacional. A resposta real varia com PA basal, fenótipo, adesão e duração.

Medicações para obesidade (repercussão na PA)

Abordadas apenas como tratamento da obesidade que pode repercutir na PA — este não é um módulo de farmacoterapia da obesidade.

SemaglutidaAgonista do receptor GLP-1. Uso conforme indicação, dose, titulação e regulamentação. 2,4 mg não é dose inicial — há titulação. Prefira o nome genérico.
TirzepatidaAgonista duplo GIP/GLP-1. Uso conforme indicação, dose, titulação e regulamentação. 15 mg não é dose inicial. Maior perda média de peso não vira superioridade universal.

Considere indicação, contraindicações, efeitos adversos, custo/acesso, acompanhamento, preservação de massa muscular (dieta, proteína, exercício resistido) e risco de reganho após interrupção. Evite propaganda de marcas.

16

Atividade física × exercício físico

N2 · contraste
Atividade físicaQualquer movimento corporal que eleve o gasto energético acima do repouso: caminhar, deslocar-se, tarefas domésticas, trabalho, lazer, subir escadas.
Exercício físicoAtividade física planejada, estruturada e repetitiva, com objetivo de melhorar saúde ou aptidão física.

Todo exercício é atividade física; nem toda atividade física é exercício. A prova gosta desse detalhe.

Não fique sentado o tempo todo

Interrompa períodos prolongados sentado: ≈ 5 minutos de movimento a cada 30 minutos de sedentarismo prolongado.

Cuidado conceitualIsso não substitui o volume semanal recomendado. "Sedentário" e "fisicamente ativo" não são excludentes — dá para cumprir o treino e ainda passar muitas horas sentado.
17

Prescrever exercício — FITT-VP

Prescrição de exercício não é "faça caminhada". É uma receita com seis variáveis.

LetraVariávelPara Roberto
FFrequência3 a 5 dias/semana
IIntensidadeModerada (veja próxima seção)
TTempo30 a 60 min/sessão
TTipoCaminhar, correr, pedalar, nadar, dançar…
VVolume≥ 150 min/semana moderado (ou 75 vigoroso)
PProgressãoAquecimento, desaquecimento e evolução gradual
Recomendação geral150 min/semana moderado OU 75 min/semana vigoroso, mais fortalecimento muscular ≥ 2×/semana.

Montador de prescrição FITT

Volume semanal = frequência × tempo. Meta: ≥150 min moderado ou ≥75 vigoroso + força 2×/sem.
18

O que é "intensidade moderada"

Vários métodos apontam para o mesmo alvo. Não misture as escalas.

Teste da falaRespiração mais intensa, ainda consegue conversar uma frase — mas não canta confortavelmente.
Borg12–13 na escala 6–20, ou ≈ 2–4 na escala 0–10. São escalas diferentes.
% da FC de pico70–85% da FC de pico em referências de reabilitação (Diretriz de Reabilitação CV 2020). FC-alvo = FC pico × %.
FC de reserva (Karvonen)Faixa prática apresentada na aula: 40–60% da FC de reserva. Outras referências usam faixas mais amplas (ex.: 50–80%).

Com teste cardiopulmonar disponível, prescreve-se entre os limiares ventilatórios (prescrição especializada).

Pegadinha"12–13" é escala de Borg 6–20. Se a questão citar Borg 0–10, o alvo moderado é ~2–4. Trocar a escala é erro clássico.

Entendendo a escala de Borg

Borg não mede a frequência cardíaca — ele mede a percepção subjetiva de esforço, ou seja, o quanto o próprio paciente sente que está se esforçando. Por não depender de FC, é especialmente útil quando a frequência cardíaca não é confiável: uso de betabloqueador, arritmias, incompetência cronotrópica ou marca-passo — situações em que a fórmula de Karvonen perde precisão, mas a percepção do paciente continua valendo.

Existem duas escalas de Borg, e confundi-las é o erro mais comum:

Escala original (6–20)Criada por Gunnar Borg. Vai de 6 a 20 porque a ideia era aproximar cada valor de uma FC de referência (6 ≈ repouso, em torno de 60 bpm) — um número que, multiplicado por 10, lembra a FC esperada naquele esforço.
Escala CR10 (0–10)Versão simplificada, mais intuitiva (0 = nenhum esforço, 10 = esforço máximo). É a mais usada na prática atual de reabilitação cardiovascular, embora a 6–20 ainda apareça bastante na literatura e em provas.

Como o paciente sente cada intensidade, na escala 6–20:

Borg 12–13 (moderado)"Estou respirando mais rápido, mas ainda consigo conversar."
Borg 17 (intenso)"Falar ficou muito difícil."
Borg 20 (máximo)"Esforço máximo." — o topo da escala, não o alvo de um treino de intensidade moderada.
Por que faixas divergemO método e a faixa dependem da diretriz, do teste e da população. A Reabilitação CV 2020 traz 70–85% da FC pico e 50–80% da FC de reserva; o material de HAS 2025 usa a faixa prática 40–60% da FC de reserva. Deixe explícito qual método está usando.
19

Fórmula de Karvonen

FórmulaFC-alvo = [(FC máx − FC repouso) × intensidade] + FC repouso

Calculadora de Karvonen

Sem FC máxima medida, usa-se 220 − idade (estimativa imprecisa).
Quando Karvonen falhaBetabloqueador, incompetência cronotrópica, arritmias, marca-passo, cardiopatias, BCC não di-hidropiridínicos, disautonomia. Nesses casos valorize teste da fala, Borg, teste ergométrico/cardiopulmonar e orientação especializada.
Pegadinha"220 − idade" é fórmula tradicional simples e imprecisa — não é verdade exata. Prefira FC máxima medida em teste quando disponível.
20

Efeito por tipo de treino

Reduções médias aproximadas (mmHg). A ausência de valor de 24h/MAPA não prova ausência absoluta de efeito — pode ser só falta de dado suficiente no material.

TipoConsultório (PAS/PAD)24 h (PAS/PAD)
Aeróbico−7,6 / −4,7−5,5 / −3,8
Resistido dinâmico−2,6 / −2,1
Resistido isométrico−4,3 / −5,0
Combinado−5,3 / −5,6
Leitura finaO aeróbico lidera na PAS de consultório. Curiosamente o isométrico e o combinado puxam bem a PAD. O tipo ideal considera idade, fragilidade, comorbidades e preferência.
21

Segurança pressórica no exercício

N7 · o portão vermelho

Dois números da Diretriz Brasileira de HAS 2025 que valem ouro na prova e no plantão:

160/105
Não iniciar a sessão

PA de repouso acima disso: não comece o exercício.

180/105
Reduzir intensidade

Durante o aeróbico, se a PA passar disso: reduza e reavalie.

Não universalizeEsses são limites específicos do material da Diretriz de HAS 2025. Não os converta automaticamente em regra para todo cenário de reabilitação, teste ergométrico ou competição.
Interromper e avaliar jáDor torácica, dispneia desproporcional, déficit neurológico, síncope/pré-síncope, arritmia importante, queda inadequada da PAS, resposta pressórica extrema ou sinais de instabilidade. Antes de tudo: repita a medida corretamente e avalie sintomas, adesão e necessidade de ajuste.
22

Cessação do tabagismo

O efeito direto e sustentado do abandono sobre a PA isolada é controverso. Mas a cessação reduz eventos cardiovasculares, câncer e mortalidade — recomendação forte, alta certeza para esses desfechos.

Reduzir ≠ cessarDiminuir o número de cigarros não equivale a parar. E "tabaco" inclui cigarro convencional, narguilé, cigarro eletrônico e tabaco aquecido.
Abordagem breve — os 5 "A"Perguntar · Aconselhar · Avaliar prontidão · Auxiliar · Acompanhar. A farmacoterapia do tabagismo foge do escopo deste módulo.
PegadinhaComo o efeito na PA é incerto, alguém pode achar a intervenção "fraca". Erro: a força da recomendação vem dos desfechos duros, não do delta de PA.
23

Estresse, meditação, respiração & espiritualidade

N2 · contraste rigoroso

Aqui a prova adora nivelar tudo como "coisa alternativa". Separe com precisão:

MeditaçãoRecomendação forte, certeza moderada para redução da PA (adjuvante).
Respiração lentaRecomendação neutra, certeza baixa. Não venda como terapia isolada comprovada.
Espiritualidade/religiosidadeRecomendação neutra, certeza baixa para PA. Pode ser abordada no cuidado centrado no paciente.
Limite éticoNão afirme que espiritualidade reduz diretamente a PA. Respeite preferências, valores e autonomia — e nunca imponha prática religiosa.
A distinção que cai"Pode ser abordado" ≠ "tem eficácia anti-hipertensiva comprovada". Meditação tem a evidência mais robusta do trio.
24

Força da recomendação × certeza da evidência

Quatro conceitos que não são a mesma coisa: força da recomendação, certeza da evidência, magnitude da queda de PA e importância clínica global. Uma intervenção pode ter recomendação forte e efeito pequeno na PA (tabagismo).

Forte + alta

  • Cessação do tabagismo (eventos e mortalidade)
  • Redução de peso na obesidade
  • Redução de sódio
  • Aumento de potássio (exceto contraindicação)
  • Dieta DASH
  • Atividade física moderada regular
  • Treinamento aeróbico

Forte + moderada

  • Limitação do álcool
  • Meditação

Neutra + baixa

  • Respiração lenta
  • Espiritualidade/religiosidade como intervenção isolada para reduzir PA

Posicione a intervenção

Toque na intervenção e depois no quadrante correto.

25

Equipe multiprofissional

Nenhum médico sustenta adesão sozinho. Integração de médico, enfermagem, nutrição, educação física/fisioterapia, psicologia, farmácia e outros profissionais.

O trabalho é sobre metas compartilhadas, entrevista motivacional, barreiras sociais, acesso, letramento em saúde, preferências, monitorização, adesão e manutenção de longo prazo.

26

Palácio da memória — Academia da Pressão Segura

N4 · palácio

Percorra a academia. Cada ambiente ancora um número que cai na prova.

Catraca do tabaco

Nenhuma fumaça entra — cessar, não reduzir. Convencional, narguilé, eletrônico, aquecido.

Balança

1 kg perdido acende: −1,05 PAS / −0,92 PAD. IMC <25 até 65 anos.

Refeitório DASH

Frutas, verduras, cereais integrais, leguminosas, laticínios desnatados e peixes.

Saleiro trancado

<2 g de sódio ≈ 5 g de sal ≈ uma colher de chá.

Estação do potássio

≥3,5 g/dia — com alerta renal aceso.

Bar das doses

1 dose mulher, até 2 homem, sem binge drinking.

Pista aeróbica

150 min moderado ou 75 min vigoroso por semana.

Estação de força

Fortalecimento muscular 2× por semana.

Painel da fala

"Consegue conversar?" = intensidade moderada.

Portão de segurança

160/105 → não inicia.

Painel interno

180/105 durante o treino → reduz intensidade.

Sala silenciosa

Meditação com evidência moderada; respiração lenta e espiritualidade com evidência limitada para PA.

27

Priorizador de intervenções

Monte o plano de Roberto. Selecione intervenções e veja a estimativa educacional de queda — com ressalva de sobreposição.

Selecione ao menos uma intervenção.
Ferramenta educacional. Não prevê resposta individual. As reduções se sobrepõem — por isso a estimativa combinada é apresentada como faixa amortecida, não como soma.
28

Casos clínicos

N7 · transferência

Oito pacientes reais de consultório. Decida antes de abrir a resposta comentada.

29

Arena TEC

N5 · evocação ativa
30

Flashcards

31

Mini-decisões

Pode ou não? Prescrever ou evitar? Toque para revelar a justificativa.

32

Erros clássicos & pegadinhas

N7 · o que derruba na prova
33

Revisão de 60 segundos

Alta osmolaridade. Se você lembrar só destes, já ganhou muita questão:

<2 g sódio ≈ 5 g sal ≈ 1 colher de chá.

▸ Sódio ≠ sal (só ~40% do NaCl é sódio).

SSaSS: 75% NaCl + 25% KCl → AVC ↓~14%, mortalidade ↓~12%.

▸ Potássio dieta ≥3,5 g/dia (exceto DRC/hipercalemia).

▸ DASH: PAS −8,7 / PAD −4,5.

▸ Álcool: ♂ até 2, ♀ até 1 dose/dia; sem binge.

▸ Peso: 1 kg → −1,05/−0,92 mmHg.

▸ Exercício: 150 min moderado ou 75 vigoroso + força 2×/sem.

▸ Aeróbico consultório: −7,6 / −4,7.

▸ Karvonen falha em BB, arritmia, cardiopatia.

160/105 não inicia · 180/105 reduz intensidade.

▸ Cessar (não reduzir) tabaco; meditação > respiração/espiritualidade em evidência.

34

Hipocampo — seu desempenho

0
Questões
Acertos
0
Flashcards
0
Casos abertos

Revisão espaçada

    Roberto agora tem um plano

    Sódio <2 g, padrão DASH, ≥3,5 g de potássio, álcool moderado sem binge, meta de peso realista, 150 min de aeróbico moderado por semana com força 2×, cessação do tabaco e atenção aos portões 160/105 e 180/105. Nada disso somado como fatura — tudo prescrito, quantificado e acompanhado.

    Dr. André Rossanno

    35

    Glossário

    36

    Referências & notas científicas

    ▸ Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial — 2025 (medidas nutricionais, limites de álcool, metas de sódio/potássio, segurança do exercício).

    ▸ SSaSS — Salt Substitute and Stroke Study. N Engl J Med, 2021.

    ▸ Diretriz Brasileira de Reabilitação Cardiovascular — 2020 (métodos de prescrição de intensidade: Borg, teste da fala, % FC pico, FC de reserva, limiares ventilatórios).

    ▸ Posicionamento sobre hipertensão arterial e espiritualidade — 2021.

    ▸ Metanálises citadas no material da aula para as reduções médias de PA por intervenção.

    Valores apresentados como médias aproximadas de estudos/metanálises. Não representam resposta individual garantida. Material educacional; não substitui julgamento clínico individualizado.