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Atlas Mental · Bloco 3 · Cap. 3
Atlas Mental da Hipertensão · Bloco 3 · Capítulo 3

Feocromocitoma
e Paraganglioma

O Reino da Tempestade. Um capítulo sobre um organismo que nunca conseguiu desligar o modo sobrevivência — e sobre o médico que precisa reconhecer isso antes que a próxima descarga chegue.

"Existe uma diferença entre estar preparado para uma batalha e acreditar que a batalha nunca terminou."

3 atos 7 salas de memória 52 questões 66 flashcards Funciona offline
Onde você quer começar

O mapa do reino

Três atos e quatro salas de treino. Você pode percorrer na ordem — é como o capítulo foi desenhado — ou pular direto para o que precisa hoje.

Como este capítulo funciona

Cada mecanismo virou uma cena; cada pegadinha virou um julgamento. Seu progresso fica salvo neste navegador — quiz, flashcards, salas dominadas e checklists. Nada sai do seu aparelho. Se quiser levar para outro celular, use Exportar progresso no menu.

Filosofia do capítulo

A adrenalina foi feita para segundos

A descarga adrenérgica é uma das invenções mais elegantes da fisiologia. Ela existe para durar poucos segundos: o tempo de perceber o perigo, decidir e agir. Depois disso, o corpo desliga o alarme e volta a viver.

O feocromocitoma é o que acontece quando esse desligamento nunca vem. O paciente não está com medo. Ele não está ansioso. Ele está sendo submetido, todos os dias, à mesma bioquímica que deveria durar o intervalo de uma fuga.

Por isso ele emagrece, sua, treme e sente o coração bater na garganta enquanto o médico lhe diz que é estresse. Por isso ele tem hipotensão postural apesar da hipertensão — o leito vascular está cronicamente contraído, o volume plasmático encolheu, os receptores se cansaram.

Quando você entender que o problema não é a pressão alta, e sim um alarme que nunca foi desligado, o capítulo inteiro passa a fazer sentido sozinho.

E há uma consequência prática nisso, que é a razão de existir do Ato III: se o organismo passou anos com o leito vascular apertado e o volume reduzido, você não pode simplesmente tirar o tumor. Antes é preciso devolver o espaço e a água que ele confiscou. Todo o preparo pré-operatório é isso — desfazer, com calma, uma guerra de anos.

— Dr. André Rossanno

Ato I

A Tempestade

Antes de caçar o tumor, é preciso entender a guerra que ele declarou. Este ato tem sete cenas: onde ele nasce, o que ele dispara, o que ele finge ser.

Abertura: o alarme que nunca foi desligado Sequência de seis quadros que mostra a descarga adrenérgica normal, o surgimento do tumor na medula adrenal e a instalação da guerra permanente. SISTEMA EM REPOUSO 3 SEGUNDOS e o alarme desliga DESCARGA NORMAL GLOMERULOSA FASCICULADA RETICULAR uma célula do subsolo começa a se multiplicar O ARSENAL DISPARA SOZINHO LEITO VASCULAR APERTADO VOLUME PLASMÁTICO ENCOLHIDO o corpo se adaptou à guerra Não é a pressão. É o alarme.

Quadro 1 — O sistema em repouso

Em condições normais, o eixo simpático fica quieto. A medula adrenal é um arsenal fechado, esperando uma ordem que raramente vem.

Cena 1 · O Castelo Cromafim

A adrenal é um castelo de quatro andares. Três deles são governos civis, que fabricam hormônios esteroides a partir do colesterol. O quarto, no subsolo, não é um governo: é um quartel — e ele não pertence à mesma linhagem dos outros.

Toque em um andar do castelo
ZONA GLOMERULOSA Rainha do Sal · Aldosterona ZONA FASCICULADA Reino do Cortisol ZONA RETICULAR Andrógenos MEDULA — ARSENAL Adrenalina · Noradrenalina células cromafins · crista neural CÓRTEX ACIMA · MEDULA ABAIXO
Ficha do andar

Escolha um andar

Os três primeiros andares são córtex: mesoderma, esteroides, colesterol como matéria-prima. O subsolo é medula: crista neural, catecolaminas, células cromafins. Duas origens embriológicas diferentes dentro do mesmo órgão — e é por isso que o feocromocitoma não se parece em nada com um adenoma produtor de aldosterona.

Mecanismo · por que "cromafim"

As células da medula ficam castanhas quando expostas a sais de crômio — a reação cromafim. Esse é o nome da linhagem que produz catecolaminas. Feocromocitoma vem justamente daí: pheos (escuro) + chroma (cor) + cytoma (tumor). O tumor da célula que escurece.

Nasce no arsenal

Feocromocitoma

Tumor de células cromafins da medula adrenal. É o quartel-general em pessoa: quase sempre secretor, quase sempre com metanefrinas alteradas, e o mais comum dos dois.

Nasce nos postos avançados

Paraganglioma

Tumor de células cromafins fora da adrenal, nos paragânglios — pequenos postos militares espalhados pelo corpo desde a vida embrionária.

Pegadinha central dos paragangliomas

Nem todo paraganglioma faz tempestade. Existem dois tipos, e a prova adora essa divisão:

Simpáticos — tórax, abdome e pelve (o clássico é o órgão de Zuckerkandl, perto da origem da mesentérica inferior). Costumam ser secretores, tipicamente de noradrenalina. Fazem tempestade.

Parassimpáticos — cabeça e pescoço (corpo carotídeo, glomus jugular e vagal). São, em geral, não secretores: aparecem como massa cervical pulsátil, zumbido ou paralisia de nervo craniano, e não como crise hipertensiva.

Detalhe bioquímico que explica um exame inteiro

A enzima que transforma noradrenalina em adrenalina — a PNMT — depende de altas concentrações de cortisol vindas do córtex acima. Fora da adrenal não existe essa cachoeira de cortisol. Por isso paraganglioma quase não produz adrenalina: ele é predominantemente noradrenérgico. Guarde essa frase; ela reaparece no Ato II, quando a assinatura química revelar onde o tumor está.

Andar de cima faz esteroide. Subsolo faz tempestade. Fora do castelo, quase só noradrenalina.

Cena 2 · O General Tempestade

Armadura preta, olhos acesos, um raio em cada mão. Ele não ataca uma vez: ele ataca sempre. Toque em cada raio para ver o que aquela descarga faz no corpo — e por qual receptor.

Escolha um raio

Cada efeito clínico do feocromocitoma é uma consequência previsível de qual receptor a catecolamina encontrou primeiro.

A gramática dos receptores

α₁ — vasoconstrição arterial e venosa. É o receptor da pressão alta, da palidez e da diminuição do volume circulante efetivo.

α₂ — pré-sináptico faz retroalimentação negativa; no pâncreas, inibe a secreção de insulina. É a chave da hiperglicemia.

β₁ — cronotropismo e inotropismo. Taquicardia, palpitação, arritmia, aumento do consumo miocárdico de oxigênio.

β₂ — vasodilatação em músculo esquelético e broncodilatação. É a razão de alguns tumores predominantemente adrenérgicos cursarem com pressão oscilante em vez de hipertensão constante.

O que a tempestade pode destruir

Cardiomiopatia induzida por catecolaminas (inclusive padrão semelhante ao takotsubo), edema agudo de pulmão, arritmias ventriculares, isquemia miocárdica com coronárias normais, dissecção de aorta, acidente vascular encefálico e a crise adrenérgica com falência de múltiplos órgãos. Feocromocitoma é uma causa de choque em paciente jovem — e um dos poucos diagnósticos em que hipertensão e hipotensão se alternam no mesmo dia.

α₁ aperta. α₂ tira a insulina. β₁ acelera. β₂ é o que confunde a pressão.

Cena 3 · O Cassino dos 10%

Cinco máquinas caça-níqueis num salão escuro. Todas pagam exatamente o mesmo prêmio. Puxe a alavanca e veja: dez por cento, dez por cento, dez por cento, dez por cento, dez por cento.

A regra que a prova cobra — e a correção que a ciência já fez

A regra dos 10% é o mnemônico clássico: 10% extra-adrenal, 10% bilateral, 10% maligno, 10% em crianças, 10% familiar. Ela continua sendo cobrada e você precisa saber recitá-la. Mas duas dessas máquinas estão pagando errado hoje:

"10% familiar" está desatualizado. Consenso internacional Com o sequenciamento sistemático, hoje se reconhece que cerca de um terço a 40% dos feocromocitomas e paragangliomas têm mutação germinativa. Por isso a recomendação atual é oferecer investigação genética a todos os pacientes, e não apenas aos jovens ou aos que têm história familiar.

"10% maligno" mudou de nome. Classificação da OMS A OMS deixou de classificar esses tumores como benignos ou malignos: todo feocromocitoma e todo paraganglioma têm potencial metastático. O termo correto passou a ser metastático, e o diagnóstico só se faz por um critério: presença de tecido cromafim em sítio onde ele normalmente não existe (osso, fígado, pulmão, linfonodo). Não há histologia que decrete malignidade sozinha.

Como guardar isso sem se perder

Guarde a regra dos 10% como o mapa antigo do cassino — ainda pendurado na parede, ainda cobrado em prova. E guarde ao lado a placa nova: "a casa mudou dois prêmios: o familiar subiu, e o maligno virou metastático". Se a questão citar a regra clássica, responda pela regra clássica. Se a questão perguntar sobre conduta atual — investigar genética, classificar o tumor —, responda pela ciência de hoje.

Cinco máquinas, um prêmio só. Mas duas placas foram trocadas.

Cena 4 · O bombeiro que fugiu do incêndio

Imagine um bombeiro saindo de um prédio em chamas. A cabeça latejando, o uniforme encharcado, o coração martelando no peito. Ele não tem doença nenhuma — ele acabou de descarregar adrenalina. O feocromocitoma é esse bombeiro, todo dia, sem incêndio nenhum.

Cabeça explodindo

Cefaleia

Costuma ser súbita, latejante, occipital ou holocraniana, acompanhando o pico pressórico. É o sintoma isolado mais frequente da crise.

Uniforme encharcado

Sudorese

Profusa, generalizada, muitas vezes com a pele fria e pálida — não quente e vermelha. Guarde esse detalhe: ele vale uma questão inteira.

Coração martelando

Palpitação

Taquicardia sinusal na maioria, mas pode haver arritmia. O paciente frequentemente descreve uma sensação de morte iminente junto.

Painel luminoso do salão

≈ 50%

Apenas cerca de metade dos pacientes apresenta a tríade completa. Cada sintoma isolado é mais comum que a tríade inteira.

As duas faces da tríade

Sensibilidade baixa — não ter a tríade completa não afasta nada. Metade dos pacientes seria perdida se você exigisse os três sintomas juntos.

Especificidade alta — quando a tríade completa aparece em um paciente hipertenso, a probabilidade de feocromocitoma sobe muito. É por isso que a tríade não serve para excluir, mas serve muito bem para levantar a suspeita.

Nota de aula

Vale a pena perguntar em voz alta para a turma: "quantos de vocês já viram um paciente com cefaleia, sudorese e palpitação?" Todos levantam a mão. Aí você pergunta: "e quantos pediram metanefrinas?" É nesse silêncio que o capítulo começa a funcionar. A conclusão não é pedir metanefrina em todo mundo — é reconhecer o contexto: sintomas paroxísticos, estereotipados (sempre iguais), com hipertensão associada.

Cefaleia, sudorese, palpitação. Em metade dos pacientes. Mas quando vêm juntas com hipertensão, acenda o alerta.

Cena 5 · As duas estradas

Saindo do castelo há duas estradas. A prova sempre desenha a pequena e finge que é a única — mas quem viaja mais é a avenida.

A avenida principal

50–60%

Hipertensão sustentada

A apresentação mais comum. O paciente é simplesmente hipertenso — muitas vezes hipertenso resistente, difícil de controlar, com picos sobrepostos. É por essa estrada que a maioria chega ao consultório.

A estrada de terra

≈ 30%

Hipertensão paroxística

A imagem de livro: crises com pressão normal entre elas. Espetacular, memorável — e minoria. As crises duram de minutos a algumas horas e costumam ser estereotipadas.

A trilha invisível

≈ 10%

Normotenso

Existe. Costuma ser o achado incidental de imagem ou o rastreio em síndrome genética. Pressão normal não afasta feocromocitoma.

A pegadinha exata

A alternativa errada clássica diz: "a apresentação mais comum é a hipertensão paroxística". Não é. A forma sustentada é a mais frequente — o paroxismo é o que é mais lembrado, não o que é mais comum. Quem confunde "mais típico" com "mais frequente" perde a questão.

Por que a pressão oscila tanto

Tumores predominantemente noradrenérgicos tendem a dar hipertensão mais estável — noradrenalina age sobretudo em α₁. Tumores adrenérgicos (que produzem adrenalina) recrutam também β₂, que vasodilata em músculo esquelético: por isso podem alternar picos com quedas, e até se apresentar com hipotensão. Um paciente que oscila entre 220/120 e 80/50 no mesmo dia não está com o monitor quebrado.

A hipotensão ortostática que não deveria estar ali

Um hipertenso com hipotensão postural sem uso de anti-hipertensivo é uma das pistas mais elegantes do capítulo. A explicação é a do Ato I: vasoconstrição crônica reduz o volume plasmático e dessensibiliza os receptores adrenérgicos. Quando o paciente levanta, não sobra reserva para compensar. Hipertenso deitado, hipotenso de pé — pense em tempestade.

Sustentada é a mais comum. Paroxística é a mais lembrada. Normotensa existe.

Cena 6 · O Botão Vermelho

No meio do salão há um botão vermelho enorme. Vários personagens passam e apertam. Cada aperto é uma descarga elétrica no corpo do paciente. Toque nos gatilhos e veja a tempestade subir.

CalmaCrise adrenérgica
Quem aperta o botão

Selecione um gatilho para ver por que ele libera catecolaminas.

Os gatilhos iatrogênicos — os que dependem de você

Boa parte das crises graves de feocromocitoma acontece dentro do hospital: indução anestésica sem preparo, manipulação cirúrgica do tumor, betabloqueador isolado, metoclopramida, antidepressivos tricíclicos, glucagon, droperidol. Se o diagnóstico não foi feito antes, o primeiro a apertar o botão vermelho costuma ser a equipe.

Nota de aula

Vale explicitar que os mecanismos são diferentes entre si — não é uma lista solta. Há gatilhos que comprimem o tumor (palpação, exercício, parto, cirurgia), gatilhos que estimulam a liberação (glucagon, histamina, metoclopramida, ACTH), gatilhos que bloqueiam a recaptação ou o metabolismo (tricíclicos, cocaína, anfetaminas, inibidores da monoaminoxidase com tiramina) e o gatilho que desmascara a vasoconstrição (betabloqueador isolado). Agrupar assim reduz a lista de dez itens para quatro ideias.

Comprimir, estimular, impedir a remoção, ou desmascarar o alfa. São só quatro mecanismos.

Cena 7 · Os sinais que mentem

O General se disfarça. Alguns dos seus sinais mais característicos são justamente os que o médico interpreta como outra coisa.

Sinais do feocromocitoma e os diagnósticos com que costumam ser confundidos
O que o paciente trazO que costuma ser rotuladoO que denuncia a tempestade
Crises de palpitação, tremor e sensação de morteTranstorno de pânicoCrises estereotipadas, com pico pressórico documentado e palidez — não rubor
Emagrecimento com apetite preservado, calor, tremorHipertireoidismoTSH normal e crises paroxísticas com hipertensão
Hiperglicemia de início recente em magroDiabetes tipo 2α₂ inibindo insulina; a glicemia melhora após a adrenalectomia
Hipertensão resistente a três fármacosMá adesãoSintomas adrenérgicos associados e resposta atípica a betabloqueador
Cefaleia intensa recorrenteEnxaquecaCefaleia com pico pressórico, sudorese e palpitação simultâneos
Choque ou edema agudo de pulmão em jovemMiocarditeCardiomiopatia por catecolaminas; coronárias limpas
Palidez, não rubor

A vasoconstrição α₁ deixa o paciente pálido durante a crise. Rubor (flushing) é incomum no feocromocitoma e deve puxar sua atenção para outro diagnóstico — síndrome carcinoide, mastocitose, menopausa. Se a questão descreve rubor intenso como sinal central, desconfie da alternativa que diz "feocromocitoma".

O erro que pode matar: biópsia de massa adrenal

Diante de um incidentaloma adrenal, a exclusão de feocromocitoma vem antes de qualquer punção. Puncionar um feocromocitoma pode desencadear crise adrenérgica catastrófica. A regra é simples e não tem exceção didática: dosar metanefrinas antes de encostar uma agulha na adrenal.

Pânico, tireoide, diabetes, enxaqueca. Todos os disfarces cabem no mesmo General.

Ato II

A Caçada

O criminoso não é pego em flagrante. Ele aparece por segundos e desaparece. A caçada inteira se apoia numa ideia: parar de procurar o criminoso e passar a procurar a pegada.

Cena 1 · O Detetive das Pegadas

Um investigador vigia a rua há meses. Nunca viu o criminoso. Mas todas as manhãs encontra pegadas frescas na calçada — e as pegadas estão lá mesmo nos dias em que ele não passou.

O criminoso

Catecolaminas

Adrenalina e noradrenalina são liberadas em surtos e têm meia-vida de poucos minutos. Se você dosar catecolaminas entre duas crises, pode encontrar valores normais em um paciente com tumor. É o criminoso que só sai à noite.

A pegada

Metanefrinas

A metanefrina e a normetanefrina são produzidas dentro do próprio tumor, continuamente, pela COMT — independentemente de o tumor estar ou não secretando naquele instante. A produção é constante mesmo quando a liberação é intermitente. É a pegada que fica na calçada o dia inteiro.

A frase que resolve o Ato II

A catecolamina é episódica. O metabólito é contínuo. Por isso o exame de escolha nunca é dosar o hormônio: é dosar o rastro que ele deixa. Essa única ideia explica por que metanefrinas ganham de catecolaminas, e por que o ácido vanilmandélico ficou para trás.

A lâmpada acendendo

Qual exame pedir primeiro

Metanefrinas plasmáticas livres

Alta sensibilidade — em torno de 97–99% em séries de referência. Amostra única, resultado rápido. Exige preparo do paciente (adiante). É o exame com maior poder de excluir a doença quando vem normal.

Metanefrinas urinárias fracionadas (24 h)

Alternativa igualmente aceita como teste inicial, com sensibilidade um pouco menor e especificidade um pouco maior em algumas séries. Depende de coleta correta e de creatinina urinária para validar o volume.

O investigador aposentado — ácido vanilmandélico (VMA)

Sensibilidade baixa. Sobrevive apenas onde não há acesso a metanefrinas. Se aparecer numa alternativa como "exame de escolha para rastreamento", está errada. Catecolaminas urinárias e plasmáticas ficam no mesmo balcão: aceitáveis, inferiores.

Uma pegadinha de leitura

"Metanefrinas" no plural, em português médico, cobre metanefrina (metabólito da adrenalina) e normetanefrina (metabólito da noradrenalina). Quando a questão fala em "metanefrina plasmática livre" está falando do painel. Existe ainda a 3-metoxitiramina, metabólito da dopamina, que não faz parte do painel básico mas é a assinatura dos tumores dopaminérgicos — voltamos a ela na Cena 4.

Não cace o criminoso. Cace a pegada. A pegada é a metanefrina.

Cena 2 · A cena do crime contaminada

Metade dos resultados falsamente positivos deste capítulo não nasce no laboratório. Nasce antes da coleta — na posição do paciente, na lista de medicamentos, no café da manhã.

Posição importa

Deitado, não sentado

A coleta ideal de metanefrinas plasmáticas é feita com o paciente em decúbito por cerca de 20 a 30 minutos antes, com acesso venoso já puncionado. Coleta sentado eleva a normetanefrina e é uma fonte reconhecida de falso-positivo. Se o resultado veio limítrofe e a coleta foi sentada, repetir deitado costuma resolver a dúvida antes de qualquer teste adicional.

Fármacos que sujam a cena

Os falsificadores de pegada

Antidepressivos tricíclicos são os campeões de falso-positivo. Também interferem: inibidores da recaptação de noradrenalina, labetalol e sotalol (por interferência de método em alguns ensaios), simpaticomiméticos e descongestionantes, levodopa, buspirona, paracetamol em determinados ensaios, cocaína e anfetaminas, e a retirada abrupta de clonidina.

Condições clínicas que também elevam

Estresse fisiológico intenso eleva catecolaminas por si só: doença aguda grave, pós-operatório, dor, insuficiência cardíaca descompensada, apneia obstrutiva do sono. Rastrear feocromocitoma em um paciente na unidade de terapia intensiva com choque é quase garantia de resultado alterado sem doença. Se o quadro permitir, o rastreio é feito em situação clínica estável.

A regra prática do resultado alterado

Antes de escalar para teste de supressão ou imagem, faça as duas perguntas baratas: a coleta foi feita corretamente? e o paciente usa alguma medicação interferente que possa ser suspensa com segurança? Muitos "feocromocitomas de laboratório" desaparecem só com isso.

Deitado, sem tricíclico, longe da doença aguda. Depois disso é que o número vale.

Cena 3 · O Tribunal Diagnóstico

O resultado chega ao tribunal. O juiz tem três martelos, e o martelo depende de quanto a pegada está acima do limite. Toque em cada veredito.

Escolha um veredito para ver a sentença e a conduta.

O personagem da zona cinzenta

Inspetor Clonidina

A clonidina é um agonista α₂ central: ela desliga a descarga simpática que vem do sistema nervoso. O que ela não consegue desligar é um tumor, porque o tumor não obedece a nenhuma ordem central — ele produz por conta própria.

A normetanefrina cai

A elevação vinha do sistema nervoso simpático — estresse, medicação, doença. Teste suprimido: não é tumor.

A normetanefrina não cai

A produção é autônoma, indiferente ao comando central. Teste não suprimido: feocromocitoma.

Como se faz: dose oral única de clonidina, com dosagem de normetanefrina plasmática antes e cerca de três horas depois. O paciente precisa de acesso venoso, decúbito e monitorização — a queda de pressão pode ser importante. Por isso o teste não é feito em quem já tem elevação franca: nesse caso não há dúvida a resolver, e você só expõe o paciente a risco sem ganhar informação.

Testes que ficaram no passado

O teste de estímulo com glucagon e os antigos testes provocativos foram abandonados: provocam crise adrenérgica em quem já está doente e não acrescentam nada aos ensaios bioquímicos atuais. Se aparecerem numa alternativa como conduta, é resposta errada.

A ordem que não se inverte

Bioquímica primeiro, imagem depois. Encontrar um nódulo adrenal não confirma feocromocitoma — incidentalomas adrenais são comuns. E pedir imagem antes da bioquímica produz o pior dos cenários: uma massa sem função conhecida, um paciente ansioso e a tentação de puncionar. A exceção prática é o incidentaloma que já apareceu por outro motivo: aí a imagem veio primeiro por acaso, e a bioquímica entra em seguida, obrigatoriamente, antes de qualquer procedimento.

O algoritmo, elo por elo

Normal exclui. Muito alto confirma. Pouco alto chama o Inspetor.

Cena 4 · A assinatura química

A pegada não diz só que existe um criminoso. Ela diz que tipo de bota ele calça — e, com alguma frequência, onde ele mora.

Assinatura adrenérgica

Metanefrina elevada

Indica produção de adrenalina, que exige PNMT, que exige cortisol do córtex. Logo: quase sempre tumor adrenal. Sintomas mais episódicos, com palpitação, ansiedade e pressão oscilante.

Assinatura noradrenérgica

Normetanefrina isolada

Compatível com tumor adrenal, mas obrigatoriamente considerada quando se pensa em paraganglioma e em doença ligada a VHL e SDHx. Hipertensão tende a ser mais sustentada.

Assinatura dopaminérgica

3-metoxitiramina elevada

Metabólito da dopamina. Associa-se a doença metastática e a mutações de SDHB. Quando disponível, é o marcador que mais preocupa. O paciente pode ser normotenso — dopamina não faz a mesma vasoconstrição.

Reencontro com o Ato I

Lembra da frase sobre a PNMT? Ela volta aqui inteira: adrenalina só é fabricada em quantidade onde há cortisol em cascata. Por isso metanefrina elevada aponta para o castelo, e normetanefrina isolada abre a possibilidade dos postos avançados. Uma frase do Ato I sustenta uma decisão de imagem no Ato II.

Metanefrina fala de adrenal. Normetanefrina abre o mapa. Metoxitiramina acende o alerta.

Cena 5 · A Liga dos Caçadores

Confirmada a bioquímica, entra a equipe de busca. Cada caçador tem um talento e uma limitação — e a prova cobra exatamente quem chamar em cada situação.

O Arquiteto

Tomografia computadorizada

Primeira imagem na maioria dos casos. Reconstrói o castelo com precisão anatômica, define tamanho, relação com estruturas vizinhas e planeja a cirurgia. Cobre abdome e pelve, onde está a maioria dos tumores.

  • Excelente resolução anatômica e ampla disponibilidade
  • Feocromocitoma costuma ser denso ao pré-contraste, acima de 10 unidades Hounsfield — diferente do adenoma rico em lipídio
  • Limitação: expõe à radiação e ao contraste iodado
O Caçador Fantasma

Ressonância magnética

Enxerga o que a tomografia perde. É o exame preferido para paragangliomas, sobretudo de cabeça e pescoço, e para situações em que radiação e contraste iodado precisam ser evitados.

  • Preferida em paraganglioma, crianças, gestantes, doença hereditária conhecida e necessidade de seguimento repetido
  • Hipersinal em T2 — o clássico brilho sobrenatural, às vezes chamado de sinal da lâmpada. Sugestivo, mas não universal: uma parcela relevante dos tumores não exibe esse padrão, e o achado isolado não confirma nem exclui
  • Limitação: mais cara, mais demorada, mais sensível a movimento
O Falcão Rastreador

Cintilografia com MIBG

A metaiodobenzilguanidina é análoga da noradrenalina: entra na célula cromafim pelo mesmo transportador. O Falcão não procura massa — procura função. E varre o corpo inteiro.

  • Indicações típicas: doença extra-adrenal, bilateral, recidiva, suspeita de metástase e tumores grandes
  • Seleciona candidatos ao tratamento com MIBG marcada com iodo-131
  • Cuidado: vários fármacos bloqueiam a captação — labetalol, tricíclicos, simpaticomiméticos e alguns bloqueadores de canal de cálcio — e produzem falso-negativo
Os Satélites

PET e receptores de somatostatina

Quando o MIBG falha ou quando se suspeita de doença metastática, entram os rastreadores orbitais.

  • PET com ⁶⁸Ga-DOTA-peptídeos (análogos de somatostatina): tornou-se a imagem funcional de maior desempenho em paraganglioma de cabeça e pescoço e em doença associada a SDHB, superando o MIBG nesses cenários
  • PET com FDG: útil na doença metastática, especialmente ligada a SDHB
  • Cintilografia com octreotídeo: o caçador especializado da geração anterior, ainda citado, hoje amplamente substituído pelo PET com DOTA-peptídeos onde ele existe
Três armadilhas de imagem

1. "Ressonância é sempre superior à tomografia" — falso. Para a adrenal, ambas têm desempenho alto; a ressonância vence em paraganglioma, cabeça e pescoço, criança e gestante.

2. "Hipersinal em T2 confirma feocromocitoma" — falso. É sugestivo, não patognomônico, e falta em parte dos casos.

3. "MIBG é o exame inicial de imagem" — falso. A imagem funcional entra depois da anatômica, para responder perguntas que a anatômica não responde: há outro foco? é extra-adrenal? há metástase?

Anatomia primeiro. Função depois. E função varre o corpo inteiro.

Cena 6 · Os sobrenomes do General

Ele raramente é um soldado solitário. Em boa parte dos casos, o General carrega um sobrenome de família — e o sobrenome muda o rastreio, o seguimento e o destino dos parentes.

Principais síndromes hereditárias associadas a feocromocitoma e paraganglioma
SobrenomeO que vem juntoMarca do tumor
RET — neoplasia endócrina múltipla tipo 2Carcinoma medular de tireoide; hiperparatireoidismo (no tipo 2A); neuromas mucosos e hábito marfanoide (no tipo 2B)Adrenal, frequentemente bilateral; fenótipo adrenérgico (metanefrina elevada)
VHL — von Hippel-LindauHemangioblastomas de retina e sistema nervoso central, carcinoma renal de células claras, cistos pancreáticosAdrenal, com frequência bilateral; fenótipo noradrenérgico
NF1 — neurofibromatose tipo 1Manchas café com leite, neurofibromas, nódulos de Lisch, efélides axilaresAdrenal, geralmente unilateral; fenótipo adrenérgico
SDHBParagangliomas simpáticos, sobretudo abdominaisMaior risco de doença metastática; associa-se a metoxitiramina elevada
SDHDParagangliomas múltiplos, tipicamente de cabeça e pescoçoMultifocalidade; herança com imprinting de origem paterna
A sequência que salva vida na neoplasia endócrina múltipla tipo 2

Se o paciente tem carcinoma medular de tireoide e feocromocitoma, opera-se primeiro o feocromocitoma — depois de preparo alfa-adrenérgico completo. Levar esse paciente à tireoidectomia sem tratar a adrenal é induzir uma crise adrenérgica na mesa cirúrgica. A regra vale como princípio geral: diante de duas cirurgias, o feocromocitoma vem primeiro.

Investigação genética hoje

Consenso internacional A recomendação atual é oferecer aconselhamento e teste genético a todos os pacientes com feocromocitoma ou paraganglioma, não apenas aos jovens ou com história familiar. Um resultado positivo muda três coisas: a intensidade do seguimento do próprio paciente, a busca por outros focos, e o rastreio de familiares assintomáticos.

Um em cada três carrega sobrenome. E o sobrenome muda a caçada inteira.

Ato III

O Cerco ao Castelo

A cirurgia é o tratamento definitivo. Mas o exército não avança no primeiro dia — porque o castelo tem uma armadilha, e ela mata mais gente do que o próprio tumor.

Cena 1 · Primeiro os escudos

Antes de qualquer arqueiro, os soldados passam duas semanas construindo escudos. Os escudos são o bloqueio alfa-adrenérgico — e a razão deles é puramente fisiológica.

Por que o preparo existe

O paciente viveu anos com o leito vascular contraído por α₁. Isso reduziu o volume plasmático circulante e dessensibilizou os receptores. No momento em que o cirurgião liga a veia adrenal e o tumor sai, a torneira de catecolaminas fecha de uma vez: os vasos relaxam num leito que estava contraído e num paciente que estava seco. O resultado é hipotensão profunda. O bloqueio alfa iniciado semanas antes serve para relaxar o leito com antecedência e permitir que o organismo reencha o compartimento vascular antes da cirurgia.

Dia 1 · o primeiro escudo

Bloqueio alfa-adrenérgico

Inicia-se o alfabloqueio, tipicamente 10 a 14 dias antes da cirurgia. Duas famílias de escudo:
Fenoxibenzamina — bloqueio alfa não seletivo e irreversível. Escudo pesado: proteção intensa e duradoura, ao custo de mais taquicardia reflexa, congestão nasal e hipotensão prolongada no pós-operatório.
Alfa-1 seletivosdoxazosina, prazosina, terazosina. Escudos leves: melhor tolerados, menos hipotensão residual, mais disponíveis. São os mais usados na prática de muitos serviços.

Dias seguintes · encher o poço

Sal e volume, deliberadamente

Junto com o alfabloqueio, orienta-se dieta liberal em sódio e aumento da ingestão hídrica, porque o objetivo é expandir o volume plasmático contraído. É um dos raros contextos em cardiologia em que se pede ao hipertenso que coma mais sal — e a questão de prova adora isso. A conduta pressupõe função cardíaca e renal que tolerem a expansão.

Só depois · os arqueiros

Betabloqueio, se necessário

O betabloqueador entra somente depois do alfa estar estabelecido — em geral nos últimos dias antes da cirurgia — e apenas se houver taquicardia ou arritmia. Ele não é obrigatório para todo paciente.

Reforços

Quando o escudo não basta

Bloqueadores de canal de cálcio podem ser associados quando o controle pressórico é insuficiente ou quando o alfabloqueio não é bem tolerado. A metirosina (alfa-metil-paratirosina), que inibe a tirosina hidroxilase e reduz a síntese de catecolaminas na origem, é reservada a casos selecionados e tem disponibilidade limitada.

Como saber que o escudo está pronto

O preparo é considerado adequado quando se atinge, de forma sustentada nos dias que antecedem a cirurgia: pressão controlada, com alvos frequentemente citados em torno de 130/80 mmHg sentado; hipotensão postural leve e tolerada, sinal de que o alfa está de fato bloqueado, sem sintomas incapacitantes; frequência cardíaca em faixa aceitável; e ausência de arritmia significativa e de alterações isquêmicas ao eletrocardiograma. A presença de alguma hipotensão ortostática é esperada — ela indica que o bloqueio funcionou.

Duas semanas de escudo. Sal e água por dentro. Arqueiro só depois.

Cena 2 · A explosão do residente

É de madrugada. O paciente está taquicárdico e hipertenso. O residente prescreve propranolol. Você está na sala. Escolha a ordem — e veja o que acontece.

Simulador de preparo · toque na ordem que você faria

Sala de espera

Escolha a primeira conduta.

A fisiopatologia da explosão — em uma frase

A noradrenalina age em α₁ (vasoconstrição) e em β₂ (vasodilatação em músculo esquelético), simultaneamente. Enquanto os dois estão abertos, existe uma válvula de escape. Ao bloquear beta primeiro, você fecha a válvula de escape e deixa α₁ totalmente livre, sem oposição. A vasoconstrição fica sem contrapeso, a resistência vascular sistêmica dispara e o resultado é crise hipertensiva — com risco de edema agudo de pulmão, isquemia miocárdica e acidente vascular encefálico. O nome disso é vasoconstrição alfa sem oposição.

O caso do labetalol

"Mas o labetalol bloqueia alfa e beta — não resolve?" É a pergunta esperta da turma. O problema é a proporção: o labetalol tem bloqueio beta muito mais potente que o alfa, na ordem de várias vezes. Na prática, ele se comporta como um betabloqueador dominante e não substitui o preparo alfa adequado. Some-se a isso que o labetalol interfere em alguns ensaios de metanefrinas e na captação do MIBG. Ele é um mau personagem neste capítulo por três motivos diferentes.

Alfa primeiro. Sempre. Beta isolado é a explosão.

Cena 3 · O assalto ao castelo

Com os escudos prontos, o exército entra. A cirurgia é curativa na maioria dos casos — e a técnica mudou nas últimas décadas.

A técnica

Adrenalectomia laparoscópica

É a abordagem preferida para a maioria dos feocromocitomas adrenais, com menor morbidade e recuperação mais rápida. A via aberta permanece indicada em tumores muito volumosos, invasivos ou em doença metastática. Em tumores bilaterais ou hereditários, discute-se a adrenalectomia poupadora de córtex, para tentar preservar função esteroidogênica e evitar insuficiência adrenal permanente.

O momento mais perigoso

A manipulação do tumor

Enquanto o cirurgião manipula a massa, ela despeja catecolaminas na circulação. É quando ocorrem os picos hipertensivos intraoperatórios. A ligadura precoce da veia adrenal reduz esse despejo — e marca a virada: da hipertensão para a hipotensão, em minutos.

O arsenal do anestesista

Para os picos intraoperatórios usam-se fármacos de ação rápida e meia-vida curta, porque a situação muda a cada minuto: nitroprussiato de sódio, fentolamina (alfabloqueador de ação imediata), nicardipina e sulfato de magnésio. Para taquiarritmia, betabloqueador de curta duração — sempre com o alfa já bloqueado. Não se usa aqui nada de meia-vida longa: o inimigo desaparece de repente, e o remédio precisa desaparecer junto.

Cena 4 · O Caminhão de Água

O tumor sai. E vem o silêncio. As artérias, que estavam apertadas há anos, relaxam todas ao mesmo tempo. A pressão despenca. É aí que, na cena, surge um caminhão-pipa.

Simulador · antes e depois da retirada

O que acontece com cada medidor

Fase 1 — tumor no lugar, tempestade ativa.

Por que hidratar, exatamente

A hipotensão pós-operatória tem três causas somadas: o leito vascular vazio (volume plasmático cronicamente reduzido), a vasodilatação súbita (o estímulo α₁ acabou) e o efeito residual do alfabloqueio — especialmente longo com fenoxibenzamina, que é irreversível. Não é sangramento por definição: é um continente que ficou maior que o conteúdo. Por isso a primeira resposta é expansão volêmica vigorosa, e vasopressor apenas se a volemia não resolver. E, claro, sangramento deve ser sempre descartado antes de se assumir que a causa é apenas vasoplegia.

A segunda armadilha do pós-operatório

Hipoglicemia. Durante meses, α₂ vinha freando a secreção de insulina. Retirado o freio, ocorre hiperinsulinismo relativo — e o paciente pode fazer hipoglicemia grave nas primeiras horas, muitas vezes mascarada pela anestesia e pela sedação. Monitorização de glicemia no pós-operatório imediato é obrigatória. Se o paciente era diabético por causa do tumor, a necessidade de insulina despenca.

O seguimento não termina na alta

Metanefrinas devem ser reavaliadas algumas semanas após a cirurgia para documentar a cura bioquímica. Depois disso, o seguimento é anual e por tempo indeterminado — em muitos protocolos, por toda a vida. A justificativa é dupla: recidiva local e aparecimento de novos focos, especialmente em doença hereditária, tumor extra-adrenal ou multifocal. Feocromocitoma operado não é feocromocitoma esquecido.

O tumor sai, a pressão cai, o volume falta. Água primeiro, vasopressor depois, glicemia sempre.

Cena 5 · Os soldados que sobraram

O castelo foi destruído. Mas alguns soldados cromafins já haviam saído pelos túneis — e agora estão espalhados pelo osso, pelo fígado, pelo pulmão. A guerra muda de natureza: deixa de ser um cerco e passa a ser uma caçada de longo prazo.

O que define

Doença metastática

Classificação da OMS Definida exclusivamente pela presença de tecido cromafim em sítio onde ele não existe normalmente — osso, fígado, pulmão, linfonodo. Invasão local e atipia histológica não bastam. Fatores associados a maior risco: mutação de SDHB, tumor extra-adrenal, tamanho maior e elevação de metoxitiramina.

O que sempre continua

Controle da tempestade

Independentemente da terapia antitumoral escolhida, o bloqueio alfa-adrenérgico permanece, porque as metástases continuam produzindo catecolaminas. O paciente metastático segue sendo um paciente sob risco de crise adrenérgica — inclusive durante procedimentos.

O míssil inteligente

Terapia radiometabólica

MIBG marcada com iodo-131 — o mesmo transportador que o Falcão usou para ver agora é usado para atacar: o análogo da noradrenalina entra na célula cromafim carregando radiação. Só faz sentido se a cintilografia mostrou captação. Na mesma lógica, a terapia com radioligante de receptor de somatostatina (⁷⁷Lu-DOTA-peptídeos) atinge tumores que captam nos exames com DOTA-peptídeos.

A artilharia clássica

Quimioterapia e terapia-alvo

O esquema citotóxico historicamente mais citado combina ciclofosfamida, vincristina e dacarbazina, usado em doença progressiva e sintomática. Inibidores de tirosina quinase, como o sunitinibe, aparecem em doença progressiva. A escolha entre as opções depende de captação nos exames funcionais, carga tumoral, ritmo de progressão e sintomas — é decisão de centro especializado.

Tratamento local

Metástases isoladas podem ser abordadas localmente: ressecção cirúrgica de lesões acessíveis, embolização e ablação de lesões hepáticas, e radioterapia externa para metástases ósseas dolorosas ou com risco de fratura. Atenção: procedimentos que manipulam tecido cromafim — inclusive embolização e ablação — podem desencadear crise. Bloqueio alfa antes, também aqui.

O bloqueio alfa não sai de cena. Ele acompanha o paciente enquanto houver tecido cromafim vivo.

Fim do Ato III

"O feocromocitoma não é apenas um tumor da adrenal. É um relógio biológico preso no segundo da fuga, fazendo o organismo acreditar todos os dias que a batalha acabou de começar."

— Dr. André Rossanno

Memória

O Palácio da Tempestade

Sete salas, na ordem exata do capítulo. A ideia não é decorar sete listas — é conseguir caminhar por elas de olhos fechados e deixar que cada cena devolva o conteúdo.

Julgamento

O Tribunal das Pegadinhas

Cada armadilha é julgada em três linhas: o que a prova afirma, o que é verdade e por quê. Toque para abrir o processo.

Treino

Casos clínicos em etapas

Pare em cada etapa e decida antes de revelar. O ganho está na decisão errada que você comete aqui, e não na prova.

Treino

Arena TEC

Cinco alternativas, justificativa de todas elas e a pegadinha explicitada. Filtre por tema quando quiser treinar um ponto fraco.

Treino

Mini-decisões

Vinte decisões de dez segundos. Sem enunciado longo, sem pista — só o reflexo que a prova cobra.

Treino

Flashcards

Toque no cartão para virar. Depois diga o quanto foi difícil para você — é essa autoavaliação que alimenta a fila do Hipocampo.

Fixação

Hipocampo

Onde o capítulo vira rotina de estudo. Tudo aqui vem do que você respondeu — nada é estimativa.

Sua fila de revisão

Montada a partir dos temas em que você errou mais e dos cartões que marcou como difíceis.

Checklist espaçado

Hoje
Amanhã
Em 7 dias
Modo professor · roteiros de aula

20 minutos: Castelo Cromafim → detetive das pegadas (catecolamina × metanefrina) → alfa antes de beta. Três ideias, uma por bloco de sete minutos.

40 minutos: o roteiro de 20 mais o Cassino dos 10% com a correção moderna, as duas estradas, o Tribunal Diagnóstico com o Inspetor Clonidina e o Caminhão de Água.

60 minutos: capítulo completo, encerrando com dois casos projetados sem resposta e a prova de evocação livre.

Fixação

Revisão de 60 segundos

Se você só tiver um minuto antes da prova, leia isto.

Prova de evocação livre

Escreva de memória, sem consultar. A correção procura palavras-chave e mostra o que faltou.

Método

Do N1 ao N7

Sete camadas de profundidade. Marque honestamente em qual você já está — a marcação alimenta a fila do Hipocampo.

Apoio

Glossário

Fontes e camadas de evidência

Este capítulo separa deliberadamente o que é diretriz brasileira do que é consenso internacional ou classificação patológica. Onde o selo aparece, ele indica a origem da afirmação.

  • Diretriz brasileira Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025 (SBC/SBH/SBN), no capítulo de hipertensão secundária: o feocromocitoma figura entre as causas endócrinas, com rastreio bioquímico por metanefrinas e investigação por imagem em seguida.
  • Consenso internacional Diretrizes e consensos internacionais dedicados a feocromocitoma e paraganglioma, dos quais vêm o preparo pré-operatório com bloqueio alfa, o teste de supressão com clonidina e a recomendação de investigação genética ampliada.
  • Classificação da OMS Classificação dos tumores endócrinos: abandono da divisão benigno/maligno e adoção do termo metastático, com potencial metastático reconhecido em todos os tumores desta linhagem.

Nota de honestidade intelectual: faixas percentuais como as da regra dos 10%, a frequência da tríade e a proporção entre formas sustentada e paroxística variam entre séries e entre fontes. Elas estão aqui na forma em que são classicamente cobradas, com as ressalvas explicitadas no texto. Diante de conduta real em paciente concreto, consulte a diretriz vigente e o serviço de referência.