Sala 1 · endócrina
Sala da Lua Cheia
Síndrome de Cushing · hipercortisolismo
Cena
Um lorde de rosto redondo atravessa o salão. Ele ganhou volume — e perdeu força. O cálice na sua mão transborda há anos.
Um paciente chega hipertenso, cansado, com ganho de peso e fraqueza para levantar da cadeira. Antes de abrir a sala: você pensa primeiro em excesso, deficiência ou obstrução?
O que o corpo mostra
- Redistribuição de gordura: face em lua cheia, giba dorsal, obesidade central com membros relativamente finos.
- Catabolismo: estrias violáceas largas, pele fina, equimoses fáceis, má cicatrização, fraqueza muscular proximal.
- Metabólico: intolerância à glicose ou diabetes, dislipidemia, hipertensão.
- Gonadal e outros: redução da libido, amenorreia, hirsutismo, acne, fadiga, alterações do humor, osteoporose.
- Laboratório que chama atenção: hipocalemia com alcalose metabólica, sobretudo nas formas de ACTH ectópico.
Obesidade comum também dá estrias. A diferença está no conjunto: as estrias do Cushing são largas, violáceas, e vêm acompanhadas de perda de força proximal. Obesidade simples não tira a força de subir escada.
Como o cortisol eleva a pressão
- Saturação da 11β-HSD2: em excesso, o cortisol escapa da enzima que o inativaria no rim e passa a ocupar o receptor mineralocorticoide — retenção de sódio e água, perda de potássio.
- Substrato do SRAA: aumento da síntese hepática de angiotensinogênio.
- Vaso mais reativo: maior sensibilidade a catecolaminas e angiotensina II, com redução da vasodilatação dependente do óxido nítrico.
- Companhia ruim: resistência insulínica, apneia do sono e obesidade central somam efeito pressórico.
Resultado: hipertensão frequentemente com padrão de não descenso noturno ao MAPA e resposta pobre a monoterapia.
Qual exame pedir primeiro
Rastreamento do hipercortisolismo — escolher um dos três, conforme disponibilidade e contexto:
- Cortisol salivar noturno (idealmente em duas noites).
- Cortisol livre urinário de 24 horas (idealmente duas coletas).
- Teste de supressão com 1 mg de dexametasona na noite anterior, com dosagem do cortisol sérico pela manhã.
Cortisol matinal isolado NÃO é exame de rastreamento. É o exame mais fácil de pedir e o mais inútil aqui: ele varia demais e um valor normal não afasta nada. Pedir o exame errado com convicção atrasa mais o diagnóstico do que não pedir exame algum.
Antes de rastrear, afastar hipercortisolismo exógeno: corticoide oral, injetável, inalatório, tópico, infiltração, "fórmula para inflamação". Essa é, de longe, a causa mais comum de síndrome de Cushing.
Depois do rastreamento positivo
- Confirmar o hipercortisolismo com um segundo teste de mecanismo diferente do primeiro.
- Só então investigar a etiologia: dosar ACTH.
- ACTH suprimido → causa adrenal (adenoma, carcinoma, hiperplasia) → imagem das adrenais.
- ACTH normal ou elevado → causa ACTH-dependente → doença de Cushing hipofisária ou secreção ectópica; ressonância de sela e, quando necessário, testes de diferenciação e cateterismo dos seios petrosos.
Sequência que não se inverte: existe excesso? → de onde vem? → onde está? Pedir ressonância de hipófise antes de provar hipercortisolismo é como abrir a porta antes de saber se há alguém em casa — e incidentalomas hipofisários são comuns.
Conduta
- Tratamento etiológico: retirada ou redução gradual do corticoide exógeno quando essa é a causa; cirurgia da lesão hipofisária, adrenal ou do tumor ectópico nas formas endógenas.
- Controle da pressão enquanto se trata a causa: como há componente mineralocorticoide, antagonistas do receptor mineralocorticoide costumam ser úteis; bloqueadores do SRAA e bloqueadores de canal de cálcio são opções frequentes.
- Corrigir o potássio e vigiar glicemia, osso e risco trombótico.
- Terapia medicamentosa dirigida ao cortisol existe para casos selecionados e é conduzida pelo endocrinologista.
A hipertensão pode não desaparecer inteiramente após a cura: quanto mais longa a exposição, maior a chance de dano vascular residual.
Pegadinha TEC
- Trocar rastreamento por cortisol sérico matinal isolado.
- Pedir imagem antes da bioquímica.
- Esquecer o corticoide exógeno — inclusive infiltração e uso tópico prolongado.
- Assumir que hipocalemia é obrigatória: ela é sugestiva, sobretudo no ACTH ectópico, mas a ausência não exclui.
- Tratar o paciente só com tiazídico: pode agravar a hipocalemia já existente. Isso não é uma contraindicação absoluta universal — é um alerta para vigiar o potássio e preferir outra estratégia quando ele já está baixo.
Teste interativo
O cortisol obedeceu à dexametasona?
Administre 1 mg de dexametasona às 23h em dois pacientes e observe o cortisol das 8h da manhã seguinte.
Paciente 1 — eixo íntegro
Aguardando a dose.
Paciente 2 — lua cheia, giba, estrias
Aguardando a dose.
Ela tratava a pressão havia quatro anos e já usava três medicamentos. Emagreceu das pernas e engordou do tronco. Achou que o rosto estava "inchado por causa do sal". Um dia não conseguiu se levantar do vaso sanitário sem apoiar as mãos — e contou isso ao médico como quem conta um detalhe sem importância. Foi o único sintoma que ninguém havia perguntado.
Qual pista estava visível antes da hipertensão resistente?
Mulher de 42 anos, HAS em uso de três fármacos, K⁺ 3,0 mEq/L, glicemia 148 mg/dL, estrias violáceas. Qual sua próxima conduta?
Flashcard instantâneo
Qual achado clínico separa Cushing de obesidade comum com estrias?
Resposta
A fraqueza muscular proximal — dificuldade de levantar da cadeira e subir escada — junto de estrias largas e violáceas. Corpo cheio e fraco ao mesmo tempo.
"A paciente já tem diagnóstico de hipertensão essencial há quatro anos." Pergunta corretiva: qual dado poderia provar que esse diagnóstico antigo está errado?
O excesso costuma se esconder atrás da abundância: mais peso, mais pressão, menos força.
Ponto de discussão: peça ao residente para desenhar o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e apontar onde cada teste de rastreamento age. Erro frequente na enfermaria: solicitar ressonância de sela em paciente obeso hipertenso sem nenhuma prova bioquímica. Caso para debate: paciente em uso crônico de corticoide inalatório em dose alta com fácies cushingoide — como conduzir a retirada?