1 / 38 BLS · Profa. Márcia · Universidade Ceuma
Emergências · Medicina · Universidade Ceuma

Suporte
Básico de Vida

Profa. Márcia
Universidade Ceuma · Curso de Medicina
Quem chega primeiro decide o desfecho.
Como esta aula funciona

Você responde antes de eu revelar

BLS não se aprende assistindo. Cada bloco termina com uma decisão sua.

1 · Reconhecer

Segurança, resposta, respiração e pulso — o relógio já está correndo.

2 · Comprimir

Profundidade, frequência, retorno, fração. É aqui que se ganha ou se perde.

3 · Ventilar

Abrir a via aérea, 30:2, e a regra de nunca hiperventilar.

4 · Desfibrilar

DEA em três passos — o único tratamento que reverte a FV.

5 · Especiais

Criança, lactente, engasgo, gestante, afogamento, opioide.

Combinado da sala

Em todo slide com caixa hachurada, escreva sua conduta antes. Eu só revelo depois que alguém falar em voz alta.

Ponto de partida

O que mudou nas diretrizes de 2025

Primeira revisão completa desde 2020. O essencial do BLS não mudou — mudaram quatro coisas que caem em prova.

Uma única Cadeia de Sobrevivência novo

As cadeias separadas (adulto/pediátrica, intra/extra-hospitalar) viraram uma cadeia universal de 6 elos. Recém-nascido tem cadeia própria.

Engasgo: tapas nas costas primeiro novo

Adulto e criança: 5 tapas dorsais + 5 compressões abdominais, alternando, começando pelas costas.

Naloxona entrou no algoritmo novo

Suspeita de overdose por opioide agora aparece explicitamente no fluxo do BLS, com algoritmo próprio.

Lactente: some a técnica dos 2 dedos novo

Comprimir com 2 polegares ou com a região tenar de uma mão. Dois dedos não atingem profundidade.

O que NÃO mudou mantido

Comprimir primeiro (C-A-B) · 100–120/min · pelo menos 5 cm (sem passar de 6) · 30:2 · retorno total do tórax · pausas < 10 s · choque o mais cedo possível.

Bloco 1 de 5

Reconhecer

Segurança · resposta · respiração · pulso — em menos tempo do que leva para pensar.

Por que a pressa

O relógio da parada

Sem RCP, a chance de sobreviver cai algo entre 7% e 10% a cada minuto. A RCP não reverte a parada — ela segura o relógio até o choque chegar.

Minutos até a primeira desfibrilação 0 min

Traduzindo para o plantão

O cérebro tolera cerca de 4 a 6 minutos sem fluxo antes da lesão irreversível. Compressão de qualidade gera só ~20–30% do débito normal — por isso ela não pode parar.

Vocabulário que a prova cobra

O que é, afinal, uma PCR

Parada cardiorrespiratória

Cessação súbita da atividade mecânica do coração, confirmada por irresponsividade + ausência de respiração normal + ausência de pulso.

Morte súbita cardíaca

Morte natural inesperada por causa cardíaca, em geral até 1 hora do início dos sintomas. A PCR é o evento; a morte súbita é o desfecho.

RCE

Retorno da circulação espontânea: pulso e pressão de volta. É o objetivo do BLS — não o fim do atendimento.

Os 4 ritmos de PCR

Chocáveis: fibrilação ventricular (FV) e taquicardia ventricular sem pulso (TVSP).
Não chocáveis: assistolia e AESP (atividade elétrica sem pulso).

Pegadinha clássica atenção

No BLS você não precisa nomear o ritmo. O DEA decide se choca. Nomear ritmo é tarefa do ACLS, com monitor.

Sistema de atendimento

Uma cadeia só, seis elos

Em 2025 a AHA unificou as cadeias que antes eram separadas. Os três primeiros elos são exatamente o que você aprende hoje.

ELO 1
Reconhecer e acionar

Identificar a PCR e chamar ajuda / SAMU 192 ou o código azul.

ELO 2
RCP de alta qualidade

Comprimir forte, rápido e quase sem pausas.

ELO 3
Desfibrilação

DEA ou desfibrilador manual, o mais cedo possível.

ELO 4
Ressuscitação avançada

Via aérea, drogas, causas reversíveis — ACLS.

ELO 5
Cuidados pós-PCR

Alvos de PA, ventilação, temperatura, coronariografia.

ELO 6
Recuperação

Reabilitação, suporte psicológico ao paciente e à família.

Extra-hospitalar

O elo mais frágil é o primeiro: alguém precisa reconhecer e começar. Só cerca de 1 em cada 10 vítimas sobrevive.

Intra-hospitalar

Aqui o elo frágil é a vigilância: a maioria das PCRs de enfermaria é precedida por horas de deterioração ignorada.

Passo 1

Segurança da cena — antes de qualquer coisa

Olhe para você primeiro

  • Trânsito, fiação exposta, água, fogo, gás
  • Agressor ainda no local
  • Estrutura instável, animais
  • Risco biológico — calce luvas, use barreira para ventilação

Depois olhe para o cenário

  • Quantas vítimas existem?
  • Há alguém que possa ajudar?
  • O piso é firme? (colchão prejudica a compressão)
  • Onde está o DEA mais próximo?

No hospital, "segurança" tem outro rosto atenção

Cama alta demais, grades levantadas, bomba de infusão no caminho, cabeceira encostada na parede. Baixe a cabeceira, abaixe a cama, tire a grade — isso é segurança da cena intra-hospitalar.

Passo 2

Não responde? Grite, acione, peça o DEA

Toque nos ombros e chame alto: "Você está bem?" Sem resposta = vítima irresponsiva.

A
Grite por ajuda

Chame quem estiver perto. Você não vai conseguir sozinho.

B
Acione o serviço

SAMU 192 · Bombeiros 193 · no hospital, o código de parada. Use o viva-voz do celular e fique com a vítima.

C
Peça o DEA

Nomeie a pessoa e mande buscar o DEA e o material de emergência.

Sozinho, com celular

Ligue em viva-voz, não saia de perto e comece a comprimir enquanto fala. O atendente do SAMU orienta RCP por telefone.

Sozinho, sem celular exceção

Adulto com colapso súbito presenciado: vá buscar ajuda/DEA primeiro (provável FV). Criança, lactente, afogamento ou asfixia: faça 2 minutos de RCP antes de sair — aqui a causa costuma ser hipóxia.

Passo 3

Respiração e pulso, ao mesmo tempo, em ≤ 10 s

Respiração — olhe o tórax

Procure elevação torácica normal. Sem elevação, ou só gasping, conta como ausente.

Pulso — carótida no adulto

Dois dedos na cartilagem tireóidea, deslize para o sulco lateral. Nunca palpe as duas carótidas juntas. Criança: carótida ou femoral. Lactente: braquial.

Por que 10 segundos e não mais regra

Profissional treinado erra a palpação em cerca de 1 de cada 3 tentativas. Na dúvida sobre o pulso, a diretriz é clara: trate como PCR e comece a comprimir. O risco de comprimir quem tem pulso é muito menor que o de não comprimir quem não tem.

Detalhe que a prova adora

Para o leigo, a checagem de pulso não é exigida: irresponsivo + respiração ausente ou anormal já é indicação de iniciar compressões. A palpação é do profissional de saúde.

A armadilha número 1

Gasping não é respiração

É respiração agônica: reflexo do tronco encefálico já em hipóxia. Aparece em cerca de 40% das PCRs presenciadas nos primeiros minutos.

Como o gasping se parece

  • Suspiros isolados, lentos e irregulares
  • Ruído de ronco, engasgo ou "puxão de ar"
  • Boca aberta, sem elevação eficaz do tórax
  • Vai diminuindo a cada minuto até sumir

O que fazer

Tratar exatamente como ausência de respiração: iniciar compressões imediatamente.

Paradoxalmente, gasping é bom sinal prognóstico — indica PCR recente e tronco ainda perfundido. Nunca é motivo para esperar.

Fechando o bloco 1

A checagem tem três saídas — e só três

SAÍDA 1
Respira normal + tem pulso

Não é PCR. Posição lateral de segurança se não houver trauma, monitorize, procure a causa e aguarde o serviço de emergência.

SAÍDA 2
Não respira + TEM pulso

Parada respiratória. Ventilação de resgate: 1 ventilação a cada 6 s (10/min). Recheque o pulso a cada 2 min. Suspeita de opioide → naloxona.

SAÍDA 3
Não respira + SEM pulso

É PCR. Comprima agora: ciclos de 30:2 e DEA assim que chegar.

Onde os alunos erram atenção

Na saída 2, muita gente começa a comprimir "por garantia". Se há pulso, comprimir pode induzir arritmia e atrapalha a ventilação que o paciente precisa. E na saída 3, muita gente vai buscar o ambu antes de comprimir — a compressão vem primeiro, sempre (C-A-B).

Bloco 2 de 5

Comprimir

A única intervenção do BLS que funciona em todos os ritmos, em todas as idades, o tempo todo.

RCP de alta qualidade

Os cinco números que você precisa decorar

≥5 cm
Profundidade

Pelo menos 5 cm no adulto, sem ultrapassar 6 cm. Raso não gera fluxo; fundo demais causa lesão.

100–120
Por minuto

Abaixo disso o fluxo cai; acima de 120 não sobra tempo para o coração encher.

Total
Retorno do tórax

Deixar o tórax voltar por inteiro é o que permite o enchimento. Não se apoie no peito.

<10 s
Pausas máximas

Checar ritmo, trocar socorrista, intubar — tudo em menos de 10 segundos.

>80%
Fração de compressão

Porcentagem do tempo de PCR realmente comprimindo. Mínimo aceitável 60%; alvo >80%.

Vamos sentir o ritmo

Metrônomo da compressão

Comprima na mesa junto com o som. Esse é o ritmo que você vai precisar sustentar por 2 minutos sem cair.

110/min

Músicas que dão o compasso

Qualquer coisa entre 100 e 120 bpm serve como âncora mental — a tradição das aulas de BLS usa Stayin' Alive (~103 bpm). No plantão, use o metrônomo do desfibrilador ou o feedback do monitor.

O erro do adrenalinado atenção

Sob estresse, a tendência é acelerar para 140–150/min e comprimir raso. Frequência alta com profundidade baixa gera quase nenhum débito. Quem lidera precisa cronometrar em voz alta.

Como o corpo se organiza

Mão, ombro, quadril e superfície

As mãos

  • Região tenar/hipotenar de uma mão na metade inferior do esterno — centro do tórax, entre os mamilos
  • Outra mão por cima, dedos entrelaçados e levantados (não pressione as costelas)
  • Nunca sobre o apêndice xifoide

O corpo

  • Ombros na vertical acima das mãos
  • Cotovelos totalmente estendidos e travados
  • Movimento sai do quadril, não dos braços — quem usa braço cansa em 40 segundos
  • Ajoelhe-se ao lado do tórax; na cama, use degrau ou suba na cama

Superfície firme

Colchão absorve parte da compressão. Use tábua rígida ou o chão. Cabeceira zerada.

Fraturas de costela atenção

São esperadas em até 1/3 dos casos, sobretudo em idosos. Ouvir o estalido não é motivo para reduzir a profundidade — reavalie a posição da mão e siga.

A metade esquecida

A descompressão vale tanto quanto a compressão

O que acontece quando o tórax sobe

A recuperação elástica gera pressão negativa intratorácica, que suga sangue de volta para o coração. É a "diástole" da RCP: sem ela, não há o que ejetar na compressão seguinte.

É também aqui que se forma a pressão de perfusão coronariana — o determinante mais forte de RCE.

Apoiar-se no peito ("leaning")

  • Reduz o retorno venoso
  • Aumenta a pressão intratorácica média
  • Derruba a perfusão coronariana e cerebral
  • É invisível sem dispositivo de feedback — por isso a troca a cada 2 min

Fração de compressão torácica

Se a PCR durou 20 minutos e você comprimiu por 16, sua fração foi de 80%. Cada pausa evitável rouba pontos dessa conta: carregue o desfibrilador durante a compressão, prepare a medicação antes da pausa, e troque de socorrista exatamente no momento da checagem de ritmo.

O que estraga uma RCP tecnicamente correta

Seis erros que matam a qualidade

1 · Comprimir raso

O mais comum de todos. Medo de quebrar costela custa fluxo cerebral.

2 · Acelerar demais

Acima de 120/min o ventrículo não enche. Rápido ≠ melhor.

3 · Apoiar no tórax

Impede o retorno completo e zera a diástole artificial.

4 · Pausas longas

Conversa, troca desorganizada, checar pulso demais, "esperar o ambu".

5 · Hiperventilar

Aumenta a pressão intratorácica, reduz retorno venoso e a sobrevida.

6 · Não trocar

Depois de ~2 min a qualidade cai sem que o socorrista perceba.

Bloco 3 de 5

Ventilar

Abrir a via aérea, entregar o volume mínimo suficiente e não roubar tempo da compressão.

Antes de soprar

Abrir a via aérea

No paciente inconsciente, a causa nº1 de obstrução é a própria língua caindo sobre a faringe.

Sem suspeita de trauma

Inclinação da cabeça + elevação do queixo (head tilt–chin lift): uma mão na testa empurra para trás, dois dedos da outra elevam o queixo pela parte óssea.

Não comprima o tecido mole abaixo do queixo — piora a obstrução.

Com suspeita de trauma cervical

Tração da mandíbula (jaw thrust) sem estender o pescoço, com estabilização manual da coluna.

Se a tração não abrir a via aérea, a diretriz autoriza usar a inclinação da cabeça: via aérea aberta tem prioridade sobre a proteção cervical.

Corpo estranho visível

Retire apenas o que estiver visível e alcançável. Varredura digital às cegas é proibida — empurra o objeto para dentro. Cânula orofaríngea (Guedel) só no paciente sem reflexo de vômito, medida do lábio ao ângulo da mandíbula.

Bolsa-válvula-máscara

Volume pequeno, tórax subindo, um segundo

Técnica C-E

  • C com polegar e indicador selando a máscara
  • E com os outros três dedos elevando a mandíbula contra a máscara
  • Máscara do dorso do nariz ao sulco mentoniano
  • Duas pessoas é melhor: uma sela com as duas mãos, outra aperta a bolsa

O que é uma boa ventilação

  • Duração de cerca de 1 segundo cada
  • Volume só o suficiente para ver o tórax elevar (~500–600 mL no adulto)
  • Oxigênio a 15 L/min com reservatório sempre que disponível
  • Aperte só metade da bolsa de adulto

Por que hiperventilar faz mal entenda, não decore

Volume ou frequência excessivos elevam a pressão intratorácica → reduzem o retorno venoso → derrubam o débito da compressão. E ainda distendem o estômago, com risco de regurgitação e broncoaspiração. Em RCP, mais ar é literalmente menos vida.

Relação compressão-ventilação

30:2, 15:2 e o que muda com o tubo

SituaçãoRelaçãoDetalhe operacional
Adulto — 1 ou 2 socorristas30:2Ciclos de 30 compressões e 2 ventilações; ~5 ciclos em 2 minutos
Criança/lactente — 1 socorrista30:2Mesma relação do adulto quando você está sozinho
Criança/lactente — 2 socorristas15:2Mais ventilação porque a causa costuma ser hipóxica
Com via aérea avançada (qualquer idade)ContínuoNão pare para ventilar: compressões ininterruptas + 1 ventilação a cada 6 s (10/min)
Leigo não treinadoSó compressãoHands-only CPR — compressões contínuas até o DEA ou o socorro chegar

Por que "só compressão" para leigo

Nos primeiros minutos de uma PCR súbita no adulto, o sangue ainda está oxigenado. Falta bomba, não falta oxigênio. E remover a barreira da ventilação boca a boca aumenta a chance de alguém começar.

Quando a ventilação é indispensável exceção

Causa hipóxica: afogamento, asfixia, overdose de opioide, obstrução de via aérea e praticamente toda PCR de criança e lactente. Aqui, ventilar faz parte do tratamento.

Saída 2 do algoritmo

Tem pulso, mas não respira

Ventilação de resgate

  • 1 ventilação a cada 6 segundos = 10/min no adulto
  • Criança e lactente: 1 a cada 2–3 segundos = 20–30/min
  • Cada ventilação em ~1 segundo, tórax subindo
  • Recheque o pulso a cada 2 minutos — sumiu o pulso, entra em RCP

Suspeita de opioide algoritmo próprio em 2025

  • Pupilas puntiformes, bradipneia, contexto de uso
  • Naloxona intranasal ou IM, podendo repetir
  • Se não há pulso: é PCR — RCP e DEA vêm primeiro; a naloxona é adjuvante, nunca substitui
  • Mantenha a vigilância: a naloxona dura menos que muitos opioides e o paciente pode voltar a parar

Posição lateral de segurança

Só para quem respira normalmente e tem pulso, sem suspeita de trauma. Protege a via aérea contra aspiração enquanto a ajuda não chega — e o paciente deve ser reavaliado continuamente.

Bloco 4 de 5

Desfibrilar

O único tratamento capaz de reverter uma fibrilação ventricular — e ele cabe numa maleta que qualquer leigo consegue usar.

O que o choque faz

Desfibrilar é silenciar, não "ligar" o coração

Na FV, o coração treme

Milhares de focos despolarizam de forma caótica: não há sístole organizada, não há débito. O choque despolariza toda a massa miocárdica de uma vez, criando um silêncio elétrico que permite ao nó sinusal reassumir.

Por isso o choque não funciona na assistolia: não há o que silenciar.

Por que a pressa

  • A FV degenera progressivamente para assistolia
  • Quanto mais tempo em FV, menor a chance de o choque converter
  • A RCP preserva a FV "grossa", mantendo-a chocável por mais tempo
  • Comprimir enquanto o DEA não chega é o que torna o choque útil

Onde estão os DEAs

Aeroportos, shoppings, academias, estádios, escolas, aeronaves. Legislação brasileira exige DEA em locais de grande circulação. Saber onde está o DEA do seu prédio, da sua faculdade e do seu hospital é conteúdo de BLS.

Desfibrilador externo automático

O DEA tem três passos. Só três.

PASSO 1
Ligue o aparelho

Aperte o botão. A partir daí o próprio DEA fala o que fazer, em português, em voz alta.

PASSO 2
Cole as pás

Tórax seco e desnudo. Siga o desenho das pás. As compressões continuam enquanto alguém cola.

PASSO 3
Afaste e choque

Na análise, ninguém toca na vítima. Se indicado, aperte o botão e retome a compressão imediatamente.

Leigo pode usar? sim

O DEA foi desenhado para leigos: analisa o ritmo, decide sozinho e só permite o choque se for chocável. Comandos por voz e por imagem. Não usar é o único erro grave possível.

Enquanto o DEA analisa atenção

A análise dura poucos segundos e exige parada das compressões — é a única pausa obrigatória. Volte a comprimir no instante seguinte ao choque, sem checar pulso.

Onde colar e o que atrapalha

As pás e as sete situações que confundem

Posição padrão (anterolateral)

Uma pá infraclavicular direita, ao lado do esterno; a outra na linha axilar média esquerda, abaixo e lateral ao mamilo. O coração precisa ficar entre as duas.

Alternativa aceita: anteroposterior (tórax anterior + dorso), útil em lactentes e tórax pequeno.

Sete situações

  • Tórax molhado: seque antes — água conduz e dispersa a corrente
  • Vítima na água/poça: retire dela; superfície molhada não impede o choque se o tórax estiver seco
  • Muitos pelos: pressione firme; se não colar, arranque com a própria pá e use o segundo par
  • Marca-passo/CDI: cole a pá a pelo menos 8 cm do gerador
  • Adesivo de medicação: remova e limpe a pele
  • Superfície metálica: afaste ou isole a vítima
  • Criança < 8 anos: pás pediátricas/atenuador; se não houver, use as de adulto

Segurança do choque

Antes de apertar, olhe e anuncie em voz alta: "Eu estou afastado, vocês estão afastados, oxigênio afastado — CHOQUE!" Ninguém pode estar tocando a vítima, a maca ou o soro.

Os 2 minutos seguintes

Chocou. E agora?

Pergunte-se antes de virar o slide

O DEA aplicou um choque. Qual é a sua próxima ação, exatamente?

Retome as compressões IMEDIATAMENTE

Sem checar pulso, sem olhar o monitor, sem comemorar. Após o choque o coração fica atordoado: mesmo quando o ritmo volta, o débito leva minutos para se recuperar. Comprimir sustenta esse intervalo.

O ciclo então é

Choque → 2 minutos de RCP → o DEA reanalisa → novo choque se indicado. Repita até o serviço avançado assumir, o paciente se mover/despertar ou você não conseguir mais continuar com segurança.

E se o DEA disser "choque não indicado"?

Também retome a RCP imediatamente por 2 minutos. "Choque não indicado" não significa que o paciente está bem — significa assistolia, AESP ou ritmo organizado, e todos exigem compressão até a reavaliação.

Bloco 5 de 5

Situações especiais

Criança, lactente, engasgo, gestante, afogamento — o algoritmo é o mesmo; os detalhes é que mudam.

Comparação direta

Adulto × criança × lactente

Adulto (pós-puberdade)Criança (1 ano → puberdade)Lactente (< 1 ano)
Técnica2 mãos1 ou 2 mãos, conforme o porte2 polegares ou região tenar de 1 mão 2025
Profundidade≥ 5 cm (máx. 6)≈ 5 cm — 1/3 do diâmetro AP≈ 4 cm — 1/3 do diâmetro AP
Frequência100–120/min em todas as idades
Relação30:230:2 sozinho · 15:2 em dupla30:2 sozinho · 15:2 em dupla
LocalMetade inferior do esternoMetade inferior do esternoLogo abaixo da linha intermamilar
PulsoCarótidaCarótida ou femoralBraquial
Ventilação de resgate1 a cada 6 s1 a cada 2–3 s (20–30/min)

A lógica por trás entenda

PCR de adulto costuma ser elétrica (FV) → prioridade é choque. PCR de criança costuma ser hipóxica (respiratória progressiva) → prioridade é ventilar e chamar ajuda depois de 2 min de RCP se estiver sozinho.

Engasgo em quem ainda está consciente

OVACE: agora começa pelas costas

Obstrução LEVE

  • Consegue tossir com força, falar, respirar
  • Não intervenha — incentive a tosse e fique ao lado
  • A tosse gera mais pressão que qualquer manobra

Obstrução GRAVE

  • Tosse fraca ou ausente, sem som, estridor
  • Sinal universal: mãos ao redor do pescoço
  • Cianose, agitação, incapacidade de falar
  • Pergunte: "Você está engasgado?" — se acenar que sim, aja

Sequência 2025 — adulto e criança mudou

5 tapas dorsais (região interescapular, base da mão, vítima inclinada para frente) → 5 compressões abdominais (Heimlich, acima da cicatriz umbilical, movimento em J) → repita até desobstruir ou a vítima ficar irresponsiva.

Motivo da mudança: séries observacionais mostraram melhor taxa de desobstrução e menos lesões quando se começa pelos tapas dorsais.

Quando o Heimlich não serve

Lactente, gestante e grande obeso

Lactente (< 1 ano)

  • 5 tapas dorsais com o bebê em decúbito ventral sobre o antebraço, cabeça mais baixa que o tronco, apoiando a mandíbula
  • Vire e aplique 5 compressões torácicas — pela diretriz de 2025, com a região tenar de uma mão (ou dois polegares) 2025
  • Alterne até desobstruir ou o bebê ficar irresponsivo
  • Jamais compressão abdominal — fígado desprotegido

Gestante e grande obeso

  • Quando não se consegue abraçar o abdome, ou há útero gravídico volumoso
  • Compressões torácicas no lugar das abdominais: mãos sobre a metade inferior do esterno, tração para trás
  • Os 5 tapas dorsais continuam sendo o primeiro passo

Depois que o objeto sai

Toda vítima que recebeu compressão abdominal ou torácica deve ser avaliada em serviço de saúde: risco de lesão de vísceras, fratura de costela e de corpo estranho residual em via aérea distal.

Três cenários que mudam a mecânica

Gestante, afogamento e hipotermia

Gestante

  • A partir de ~20 semanas (útero na cicatriz umbilical), o útero comprime a veia cava e derruba o retorno venoso
  • Deslocamento uterino lateral contínuo para a esquerda, com uma ou duas mãos, durante toda a RCP
  • Mantenha a paciente em decúbito dorsal — inclinar o corpo piora a compressão
  • Via aérea difícil é a regra: escolha o profissional mais experiente

Afogamento

  • Causa hipóxica: aqui a ventilação é prioridade
  • Retire da água e inicie ventilações de resgate assim que for seguro
  • Não tente drenar água do pulmão nem faça compressão abdominal para "esvaziar"
  • Vômito é frequente: prepare-se para lateralizar e aspirar

Hipotermia

  • Pulso e respiração podem ficar muito lentos e difíceis de detectar: estenda a checagem
  • Inicie RCP e reaqueça enquanto ressuscita
  • Máxima clássica: ninguém está morto até estar aquecido e morto
  • Manuseie com cuidado — o miocárdio frio é irritável

Além do BLS horizonte

Na PCR materna sem retorno da circulação, o time avançado considera a cesariana perimortem em torno de 5 minutos — decisão de ACLS, mas que só é possível se o BLS estiver impecável desde o primeiro minuto.

De socorrista único a equipe

Papéis definidos, comunicação em circuito fechado

Compressor

Comprime e conta em voz alta. Troca a cada 2 min.

Via aérea

Abre, ventila com BVM, prepara adjuvantes.

Desfibrilador

Cola as pás, opera o aparelho, dá o comando de afastar.

Acesso e medicações

IV/IO e drogas — já é função do suporte avançado.

Cronometrista/anotador

Marca os 2 minutos, registra horários e avisa o líder.

Comunicação em circuito fechado

Ordem nominal ("João, assuma as compressões") → confirmação de quem recebeu ("Assumindo as compressões") → aviso de conclusão ("Compressões em andamento"). Sem isso, ordens caem no vazio e tarefas ficam duplicadas.

Confusões mais comuns

Dez erros que derrubam gente boa

1. Gasping não é respiração — é PCR.

2. Na dúvida sobre o pulso em 10 s, comprima.

3. Leigo não precisa checar pulso.

4. Depois do choque, RCP imediata — não se checa pulso.

5. "Choque não indicado" também exige 2 min de RCP.

6. Com via aérea avançada, não existe 30:2: compressão contínua.

7. Criança < 8 anos sem pá pediátrica: use a de adulto.

8. Varredura digital às cegas: nunca, em nenhuma idade.

9. Gestante em PCR: decúbito dorsal + deslocamento uterino, não inclinar o corpo.

10. Hiperventilar reduz a sobrevida — ar demais é sangue de menos.

Se você só levar uma coisa

Revisão de 60 segundos

Os números

≥5 cm (máx. 6) · 100–120/min · retorno total · pausas < 10 s · fração > 80% · troca a cada 2 min · com tubo, 1 ventilação a cada 6 s.

O que mudou em 2025

Cadeia única de 6 elos · engasgo começa por 5 tapas dorsais · naloxona no algoritmo · lactente sem técnica de dois dedos.

A atitude

A pior conduta possível em uma PCR é não fazer nada por medo de errar. Compressão imperfeita salva; hesitação não.

Obrigada

Suporte Básico
de Vida

Referências
1. American Heart Association. 2025 Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation, 22 out. 2025.
2. AHA. Highlights of the 2025 AHA Guidelines for CPR and ECC — cpr.heart.org.
3. AHA. 2020 Guidelines for CPR and ECC (base dos algoritmos ainda em circulação).
4. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados de Emergência.
Profa. Márcia
Universidade Ceuma · Curso de Medicina
Notas da professora

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