Hipopotassemia
(Hipocalemia)
Diagnóstico, causas, ECG, reposição e pegadinhas de prova — da fisiopatologia à beira do leito.
O que é hipocalemia?
Hipopotassemia ou hipocalemia é a redução do potássio sérico abaixo de 3,5 mEq/L. É um dos distúrbios hidroeletrolíticos mais relevantes da prática clínica.
Graus de gravidade
A gravidade orienta a urgência da reposição e a via preferencial.
Via oral preferencial
Frequentemente assintomático
Sintomas neuromusculares
Avaliar reposição EV
Risco de arritmia e paralisia
EV com monitoração obrigatória
Quatro mecanismos centrais
Todo caso de hipocalemia pode ser explicado por um ou mais desses mecanismos.
Etiologia organizada
| Grupo | Exemplos | Mecanismo | K⁺ urinário |
|---|---|---|---|
| 🥦 Baixo aporte | Desnutrição, jejum, pós-operatório | Ingesta insuficiente | < 20 mEq/L |
| 🤢 Perdas GI | Diarreia, fístulas, ileostomia | Perda direta de K⁺ | < 20 mEq/L |
| 🤮 Vômitos | Vômitos persistentes, bulimia | Alcalose → perda renal | > 20 mEq/L |
| 🔄 Redistribuição | Insulina, beta-2 agonistas, alcalose | Desvio intracelular | < 20 mEq/L |
| 💊 Diuréticos | Furosemida, hidroclorotiazida, clortalidona | Entrega distal de Na⁺ → secreção K⁺ | > 20 mEq/L |
| 🏥 Drogas | Anfotericina B, aminoglicosídeos, corticoides | Lesão tubular / efeito mineralocorticoide | > 20 mEq/L |
| 🧬 Tubulopatias | Bartter, Gitelman, Liddle | Mutações em transportadores renais | > 20 mEq/L |
| 🩺 Endócrino | Hiperaldosteronismo primário, Cushing, Graves | Excesso de mineralocorticoide | > 20 mEq/L |
🧬 Tubulopatias hereditárias — diferencial
| Síndrome | Mutação | Simula | PA | Marcador |
|---|---|---|---|---|
| Bartter | NKCC2 (alça de Henle) | Furosemida contínua | Normal/baixa | Alcalose + hipocalemia + calciúria elevada |
| Gitelman | NCC (TCD) | Tiazídico contínuo | Normal/baixa | Hipocalemia + hipomagnesemia + hipocalciúria |
| Liddle | Ganho de função ENaC | Aldosterona "falsa" | Hipertensão grave | Renina e aldosterona baixas. Tratar com amilorida. |
Manifestações por sistema
- Arritmias (taquicardia, extrassístoles)
- Maior risco com digitálicos
- Predisposição a fibrilação ventricular
- Alterações no ECG (ver seção seguinte)
- Fraqueza muscular, astenia
- Câimbras, parestesias
- Redução da excitabilidade
- Paralisia flácida (graves)
- Comprometimento respiratório (muito grave)
- Náuseas, constipação
- Distensão abdominal
- Íleo paralítico
- Piora pós-operatória
- Diabetes insípidus nefrogênico
- Lesão tubular crônica
- Fibrose intersticial
- Relação com DRC em casos crônicos
- Redução da liberação de aldosterona
- Resistência à insulina (associada a diuréticos)
- Alcalose metabólica associada
Alterações eletrocardiográficas
O ECG é o exame à beira do leito mais importante para estimar a urgência da reposição.
⚡ Comparação rápida: hipo × hipercalemia
| Achado no ECG | Hipocalemia (K⁺ baixo) | Hipercalemia (K⁺ alto) |
|---|---|---|
| Onda T | Achatada / invertida | Apiculada ("em tenda") |
| Segmento ST | Deprimido | Pode estar alterado |
| Onda U | Proeminente ✓ | Ausente |
| Intervalo PR | Normal | Prolongado |
| QRS | Normal (alarga em graves) | Alargado (sino-ventricular) |
| Risco | FV, torsades | Assistolia, FV |
Algoritmo diagnóstico
A chave diagnóstica é o potássio urinário — ele distingue perda renal de extrarrenal.
Perda EXTRARRENAL
- Diarreia
- Fístulas digestivas
- Ileostomia de alto débito
- Baixo aporte / jejum
- Redistribuição celular
Perda RENAL
- Diuréticos (furosemida, tiazídicos)
- Hiperaldosteronismo
- Vômitos (via rim)
- Bartter / Gitelman / Liddle
- Anfotericina B, aminoglicosídeos
- Acidose tubular renal
Reposição por gravidade
15 mL = 12 mEq
Fazer 10–20 mL após as refeições, 3–4x/dia
1 comprimido = 6 mEq
Fazer 2 comprimidos após refeições, 3–4x/dia
A apresentação mais comum no Brasil
Não confundir as concentrações!
Monitoração cardíaca contínua
Corrigir magnésio antes!
"Potássio não mata só pela dose. Mata pela concentração e pela velocidade."
⚡ Velocidade de infusão EV
Seguro, padrão
Monitoração obrigatória
Risco de FV
Como diluir com segurança
A concentração da solução é tão importante quanto a dose. Concentrações altas em acesso periférico causam flebite e vasoespasmo.
| Volume do diluente | Ampolas KCl 10% | mEq adicionados | Concentração final | Via recomendada |
|---|---|---|---|---|
| 1000 mL SF ou SG | 3 ampolas | ~39 mEq | ~40 mEq/L | ✅ Periférico — seguro |
| 500 mL SF ou SG | 3 ampolas | ~39 mEq | ~78 mEq/L | ⚠️ Preferencialmente central |
| 470 mL (ex: SF 500–30mL) | 3 ampolas | ~39 mEq | ~83 mEq/L | 🚨 Central / UTI monitorada |
Estilo prova
Conduta: Suspender ou reduzir furosemida se possível. Iniciar reposição EV com KCl diluído (máx. 40 mEq/L em acesso periférico, 10–20 mEq/h). Dosar Mg²⁺ — hipomagnesemia concomitante é comum com diuréticos de alça e causará hipocalemia refratária se não corrigida. Monitoração cardíaca contínua. Investigar causa base.
Conduta: Reposição EV de KCl; corrigir Mg²⁺; evitar soro glicosado sem K⁺; considerar solução polieletrolítica.
Conduta: Corrigir hipomagnesemia PRIMEIRO (sulfato de magnésio EV). Considerar troca para anfotericina B lipossomal (menor nefrotoxicidade). Monitorar K⁺ e Mg²⁺ diariamente.
A doença de Addison cursa com HIPERPOTASSEMIA (e hiponatremia), não com hipocalemia. A deficiência de aldosterona reduz a secreção renal de K⁺ → K⁺ acumula no plasma. O contrário ocorre no hiperaldosteronismo (Conn) → excesso de aldosterona → hipocalemia + hipertensão + alcalose.
Conduta: Monitorar K⁺ a cada 4–6h em nebulização contínua. Repor via oral se < 3,0 mEq/L e paciente estiver sem alteração grave. Evitar uso concomitante de diuréticos.
A digoxina inibe a Na⁺/K⁺-ATPase. Com hipocalemia, há menos K⁺ competindo pelo sítio da bomba → a inibição pela digoxina fica potencializada mesmo em doses terapêuticas. O resultado é arritmia grave com risco de taquicardia ventricular ou fibrilação.
Conduta: Suspender digoxina temporariamente. Repor K⁺ com urgência (EV monitorado). Manter K⁺ sérico > 4,0 mEq/L em pacientes em uso de digitálicos.
Não caia nessas armadilhas
Memorize de vez
Macetes criados para fixar os mecanismos mais cobrados em provas. Não decore — entenda a lógica e nunca mais esqueça.
💡 "Aldosterona capta sódio e joga potássio fora"
Toda vez que você pensar em K⁺ baixo (hipocalemia), pense:
Aldosterona alta → Na⁺ entra na célula → K⁺ sai para a urina.
A aldosterona é a dona do sódio: onde ela manda, o sódio entra, e o potássio paga o preço.
Funciona como furosemida contínua — sem tomar remédio.
Mutação no NKCC2 (alça de Henle).
PA: normal/baixa
Calciúria: elevada ↑
Mg²⁺: normal
Funciona como tiazídico contínuo — sem tomar remédio.
Mutação no NCC (TCD).
PA: normal/baixa
Mg²⁺: BAIXO ↓↓ (o diferencial!)
Calciúria: baixa ↓
1️⃣ ENaC Descontrolado
2️⃣ Aldosterona Derrubada (baixa)
PA: HIPERTENSÃO
Renina e aldosterona: baixas ↓
Tratar com amilorida
| Síndrome | Macete | PA | Mg²⁺ | Ca²⁺ urina | Aldosterona |
|---|---|---|---|---|---|
| Bartter | Furosemida | Normal/baixa | Normal | Alta ↑ | Alta (2ária) |
| Gitelman | Tiazídico + Magnésio | Normal/baixa | Baixo ↓↓ | Baixa ↓ | Alta (2ária) |
| Liddle | 2 D's: ENaC + Aldost. | HIPERTENSÃO | Normal | Normal | BAIXA ↓↓ |
💡 "Sem a chave (Mg²⁺), a porta (ROMK) fica aberta — e o K⁺ escapa sem parar."
O Mg²⁺ bloqueia fisicamente o canal ROMK por dentro. É a fechadura.
Sem magnésio → ROMK destrancado → K⁺ escoa para a urina → reposição é inútil.
Resultado: hipocalemia refratária.
O suco gástrico tem só 5–10 mEq/L de K⁺. A perda real de K⁺ nos vômitos é indireta — mediada pelo rim via alcalose + aldosterona.
Perde HCl
(não K⁺)
Alcalose
+ Hipovolemia
SRAA ativado
Aldosterona ↑
Rim perde K⁺
K⁺ urinário >20
Ativa Na⁺/K⁺-ATPase → K⁺ entra nas células → K⁺ sérico cai → hipocalemia
Bloqueia receptor beta-2 → K⁺ não entra nas células → K⁺ sérico sobe → hipercalemia leve
"Aldosterona capta Na⁺ e descarta K⁺ —
K⁺ baixo = Na⁺ alto.
Bartter é furosemida. Gitelman é tiazídico mais magnésio baixo.
Liddle tem 2 D's: ENaC Descontrolado, Aldosterona Derrubada.
Sem Mg²⁺, a porta do K⁺ fica aberta — corrija o magnésio primeiro."
Teste seus conhecimentos
Hipocalemia em 10 segundos
🗺️ Mapa mental relâmpago
K⁺ urinário < 20
K⁺ urinário > 20
> 40 mEq/L → central
ROMK fica aberto sem Mg²⁺
Vômito → perda renal
Liddle → amilorida