📚 MÓDULO HIDROELETROLÍTICO

Hipopotassemia
(Hipocalemia)

Diagnóstico, causas, ECG, reposição e pegadinhas de prova — da fisiopatologia à beira do leito.

👨‍⚕️
Prof. Dr. André Rossanno Mendes Almeida
Intensivista · Educação Médica · Para Acadêmicos de Medicina
Arritmias 💊 Reposição EV 🫀 ECG clássico 🧪 Diluição segura 🎯 Quiz interativo
3,5
mEq/L — limite inferior normal
98%
do K⁺ está intracelular
<2,5
mEq/L = grave, risco vital
01 — CONCEITO

O que é hipocalemia?

Hipopotassemia ou hipocalemia é a redução do potássio sérico abaixo de 3,5 mEq/L. É um dos distúrbios hidroeletrolíticos mais relevantes da prática clínica.

🔬
Potássio sérico normal
3,5 a 5,0 mEq/L no plasma. Representa apenas 2% do potássio corporal total.
💉
Por que é importante?
O potássio determina o potencial de repouso da membrana. Pequenas variações provocam grandes efeitos elétricos — especialmente no coração.
⚠️
Risco cardiovascular
Hipocalemia pode causar arritmias fatais, especialmente em cardiopatas e em pacientes em uso de digoxina.
🧪
O número sérico engana
K⁺ sérico = 3,0 mEq/L → déficit corporal de 200–400 mEq. K⁺ sérico = 2,0 mEq/L → déficit > 600 mEq. O plasma mostra pouco do todo.
02 — CLASSIFICAÇÃO

Graus de gravidade

A gravidade orienta a urgência da reposição e a via preferencial.

🟢 LEVE
3,0–3,5
mEq/L
Via oral preferencial
Frequentemente assintomático
🟡 MODERADA
2,5–2,9
mEq/L
Sintomas neuromusculares
Avaliar reposição EV
🔴 GRAVE
< 2,5
mEq/L
Risco de arritmia e paralisia
EV com monitoração obrigatória
⚠️ Atenção: Hipocalemia leve pode se tornar grave rapidamente se o paciente estiver em uso de diuréticos, corticoides, beta-agonistas ou com perdas gastrointestinais contínuas.
03 — FISIOPATOLOGIA

Quatro mecanismos centrais

Todo caso de hipocalemia pode ser explicado por um ou mais desses mecanismos.

🥦
1. Aporte insuficiente
Desnutrição, jejum prolongado, dieta pobre em potássio. Menos frequente como causa isolada — o rim consegue conservar K⁺ com eficiência.
🫁
2. Perdas gastrointestinais
Vômitos, diarreia, fístulas, aspiração nasogástrica. A hipocalemia por vômitos ocorre via rim, mediada por alcalose + aldosterona.
🔄
3. Redistribuição celular
Insulina, beta-agonistas, alcalose — empurram K⁺ para dentro das células. Não há perda corporal total. Reversível.
🫘
4. Perda renal
Diuréticos, aldosterona elevada, tubulopatias. O rim secreta K⁺ ativamente pelo canal ROMK no néfron distal.
💡 Mecanismo molecular: A aldosterona ativa o ENaC (canal epitelial de sódio) → Na⁺ entra → lúmen fica eletronegativo → ROMK secreta K⁺ passivamente. Entra sódio, sai potássio.
🎯 Ponto-chave do magnésio: O Mg²⁺ intracelular funciona como bloqueador físico do canal ROMK. Sem magnésio → ROMK aberto permanentemente → hipocalemia refratária. Corrija o magnésio antes do potássio!
04 — CAUSAS

Etiologia organizada

Grupo Exemplos Mecanismo K⁺ urinário
🥦 Baixo aporte Desnutrição, jejum, pós-operatório Ingesta insuficiente < 20 mEq/L
🤢 Perdas GI Diarreia, fístulas, ileostomia Perda direta de K⁺ < 20 mEq/L
🤮 Vômitos Vômitos persistentes, bulimia Alcalose → perda renal > 20 mEq/L
🔄 Redistribuição Insulina, beta-2 agonistas, alcalose Desvio intracelular < 20 mEq/L
💊 Diuréticos Furosemida, hidroclorotiazida, clortalidona Entrega distal de Na⁺ → secreção K⁺ > 20 mEq/L
🏥 Drogas Anfotericina B, aminoglicosídeos, corticoides Lesão tubular / efeito mineralocorticoide > 20 mEq/L
🧬 Tubulopatias Bartter, Gitelman, Liddle Mutações em transportadores renais > 20 mEq/L
🩺 Endócrino Hiperaldosteronismo primário, Cushing, Graves Excesso de mineralocorticoide > 20 mEq/L

🧬 Tubulopatias hereditárias — diferencial

SíndromeMutaçãoSimulaPAMarcador
Bartter NKCC2 (alça de Henle) Furosemida contínua Normal/baixa Alcalose + hipocalemia + calciúria elevada
Gitelman NCC (TCD) Tiazídico contínuo Normal/baixa Hipocalemia + hipomagnesemia + hipocalciúria
Liddle Ganho de função ENaC Aldosterona "falsa" Hipertensão grave Renina e aldosterona baixas. Tratar com amilorida.
05 — QUADRO CLÍNICO

Manifestações por sistema

🫀 Cardiovascular
  • Arritmias (taquicardia, extrassístoles)
  • Maior risco com digitálicos
  • Predisposição a fibrilação ventricular
  • Alterações no ECG (ver seção seguinte)
🦾 Neuromuscular
  • Fraqueza muscular, astenia
  • Câimbras, parestesias
  • Redução da excitabilidade
  • Paralisia flácida (graves)
  • Comprometimento respiratório (muito grave)
🫁 Digestivo
  • Náuseas, constipação
  • Distensão abdominal
  • Íleo paralítico
  • Piora pós-operatória
🫘 Renal
  • Diabetes insípidus nefrogênico
  • Lesão tubular crônica
  • Fibrose intersticial
  • Relação com DRC em casos crônicos
⚗️ Metabólico
  • Redução da liberação de aldosterona
  • Resistência à insulina (associada a diuréticos)
  • Alcalose metabólica associada
06 — ECG

Alterações eletrocardiográficas

O ECG é o exame à beira do leito mais importante para estimar a urgência da reposição.

🩺 ECG clássico da hipocalemia
ST↓ onda U QRS T ↓
Depressão do segmento ST Achatamento/inversão da onda T Onda U proeminente Aumento do QT aparente Extrassístoles ventriculares Alargamento do QRS (graves)

⚡ Comparação rápida: hipo × hipercalemia

Achado no ECG Hipocalemia (K⁺ baixo) Hipercalemia (K⁺ alto)
Onda TAchatada / invertidaApiculada ("em tenda")
Segmento STDeprimidoPode estar alterado
Onda UProeminente ✓Ausente
Intervalo PRNormalProlongado
QRSNormal (alarga em graves)Alargado (sino-ventricular)
RiscoFV, torsadesAssistolia, FV
🚨 Pegadinha clássica: Onda U proeminente → pensar em HIPOCALEMIA. Onda T apiculada → pensar em HIPERCALEMIA. Não confunda!
07 — DIAGNÓSTICO

Algoritmo diagnóstico

A chave diagnóstica é o potássio urinário — ele distingue perda renal de extrarrenal.

1
Confirmar hipocalemia
K⁺ sérico < 3,5 mEq/L. Descartar pseudohipocalemia (hemólise, leucocitose extrema). Solicitar gasometria e Mg²⁺.
2
Avaliar redistribuição celular
Uso de insulina, beta-2 agonistas, alcalose metabólica, paralisia periódica hipocalêmica. Se sim → tratar causa.
3
Dosar K⁺ urinário
Exame fundamental para distinguir a via da perda. Coletar amostra isolada de urina.
✅ K⁺ urinário < 20 mEq/L
Perda EXTRARRENAL
  • Diarreia
  • Fístulas digestivas
  • Ileostomia de alto débito
  • Baixo aporte / jejum
  • Redistribuição celular
🚨 K⁺ urinário > 20 mEq/L
Perda RENAL
  • Diuréticos (furosemida, tiazídicos)
  • Hiperaldosteronismo
  • Vômitos (via rim)
  • Bartter / Gitelman / Liddle
  • Anfotericina B, aminoglicosídeos
  • Acidose tubular renal
🎯 Lembrete diagnóstico: Vômitos → K⁺ urinário > 20 mEq/L (perda é renal, via alcalose + aldosterona). Diarreia → K⁺ urinário < 20 mEq/L (perda é intestinal direta).
08 — TRATAMENTO

Reposição por gravidade

🟢 Hipocalemia leve
3,0 – 3,5 mEq/L · Via oral preferencial
Xarope de KCl 6%
15 mL = 12 mEq
Fazer 10–20 mL após as refeições, 3–4x/dia
KCl comprimido
1 comprimido = 6 mEq
Fazer 2 comprimidos após refeições, 3–4x/dia
✅ Via oral é preferencial quando paciente está estável e sem alteração eletrocardiográfica significativa
🔴 Hipocalemia grave
< 2,5 mEq/L · Reposição endovenosa
Ampola KCl 10% (10 mL) = 13 mEq de K⁺
A apresentação mais comum no Brasil
Ampola KCl 19,1% (10 mL) = 25 mEq de K⁺
Não confundir as concentrações!
⚠️ Sempre em bomba de infusão
Monitoração cardíaca contínua
Corrigir magnésio antes!

"Potássio não mata só pela dose. Mata pela concentração e pela velocidade."

⚡ Velocidade de infusão EV

10–20
mEq/h · Periférico
Seguro, padrão
até 40
mEq/h · Central / UTI
Monitoração obrigatória
> 40
mEq/h · CONTRAINDICADO
Risco de FV
09 — DILUIÇÃO E CONCENTRAÇÃO

Como diluir com segurança

A concentração da solução é tão importante quanto a dose. Concentrações altas em acesso periférico causam flebite e vasoespasmo.

📌 Referência: KCl 10% (padrão hospitalar)
1 ampola de 10 mL = 13 mEq de potássio
3 ampolas de KCl 10% = 39 mEq de potássio
Volume do diluente Ampolas KCl 10% mEq adicionados Concentração final Via recomendada
1000 mL SF ou SG 3 ampolas ~39 mEq ~40 mEq/L ✅ Periférico — seguro
500 mL SF ou SG 3 ampolas ~39 mEq ~78 mEq/L ⚠️ Preferencialmente central
470 mL (ex: SF 500–30mL) 3 ampolas ~39 mEq ~83 mEq/L 🚨 Central / UTI monitorada
✅ Periférico
Concentração até 40 mEq/L. Velocidade 10–20 mEq/h. Mais seguro para a maioria dos pacientes.
⚠️ Concentrado (central)
Concentrações > 40 mEq/L exigem acesso venoso central e monitoração cardíaca contínua.
🚨 Nunca em bolus
Potássio concentrado em bolus causa fibrilação ventricular imediata. Sempre em bomba de infusão.
💡 KCl 19,1% ≠ KCl 10%
KCl 19,1% (10 mL) = 25 mEq. KCl 10% (10 mL) = 13 mEq. Não confunda as apresentações!
10 — CASOS CLÍNICOS

Estilo prova

CASO 01 · ECG
Paciente em uso de furosemida há 3 meses apresenta fraqueza, câimbras e ECG com segmento ST deprimido, onda T achatada e onda U proeminente em V4-V5. K⁺ sérico = 2,8 mEq/L. Qual o diagnóstico e conduta?
Diagnóstico: Hipocalemia moderada por perda renal induzida por diurético de alça, com alterações eletrocardiográficas típicas.

Conduta: Suspender ou reduzir furosemida se possível. Iniciar reposição EV com KCl diluído (máx. 40 mEq/L em acesso periférico, 10–20 mEq/h). Dosar Mg²⁺ — hipomagnesemia concomitante é comum com diuréticos de alça e causará hipocalemia refratária se não corrigida. Monitoração cardíaca contínua. Investigar causa base.
CASO 02 · PÓS-OPERATÓRIO
Paciente no 2º dia pós-operatório de cirurgia abdominal. Está em jejum, em uso de soro glicosado 5% 2000 mL/dia e com SNG aberta com débito de 800 mL/24h. K⁺ = 2,6 mEq/L, pH = 7,52. Qual o mecanismo principal da hipocalemia?
Mecanismo: Múltiplo e simultâneo — (1) Jejum: aporte zero de potássio; (2) Soro glicosado: libera insulina endógena → desvio intracelular de K⁺; (3) Aspiração nasogástrica: perda de HCl → alcalose metabólica (pH 7,52) → ativa SRAA → perda renal de K⁺; (4) Alcalose: H⁺ sai das células em troca de K⁺ que entra → K⁺ sérico cai.

Conduta: Reposição EV de KCl; corrigir Mg²⁺; evitar soro glicosado sem K⁺; considerar solução polieletrolítica.
CASO 03 · ANFOTERICINA B
Paciente com candidemia em uso de anfotericina B convencional há 10 dias. K⁺ = 2,4 mEq/L, Mg²⁺ = 1,2 mg/dL. A reposição de potássio não está surtindo efeito. Por quê?
Mecanismo: A anfotericina B forma poros não seletivos nas células tubulares → K⁺ e Mg²⁺ escapam continuamente para o lúmen. Com hipomagnesemia (Mg²⁺ baixo), o canal ROMK perde seu bloqueio fisiológico pelo Mg²⁺ intracelular → fica permanentemente aberto → todo K⁺ reposto é imediatamente perdido pela urina.

Conduta: Corrigir hipomagnesemia PRIMEIRO (sulfato de magnésio EV). Considerar troca para anfotericina B lipossomal (menor nefrotoxicidade). Monitorar K⁺ e Mg²⁺ diariamente.
CASO 04 · ADDISON — PEGADINHA
Questão de prova: "Paciente com insuficiência adrenal primária (Doença de Addison) em crise adrenal apresenta hipocalemia?" Verdadeiro ou falso?
FALSO — pegadinha clássica!

A doença de Addison cursa com HIPERPOTASSEMIA (e hiponatremia), não com hipocalemia. A deficiência de aldosterona reduz a secreção renal de K⁺ → K⁺ acumula no plasma. O contrário ocorre no hiperaldosteronismo (Conn) → excesso de aldosterona → hipocalemia + hipertensão + alcalose.
CASO 05 · BETA-AGONISTA
Criança de 8 anos em crise asmática grave recebe salbutamol em nebulização contínua por 4 horas. No 5° controle, K⁺ = 2,9 mEq/L. Houve erros de conduta?
Não necessariamente erro, mas risco esperado: Beta-2 agonistas estimulam a Na⁺/K⁺-ATPase via AMPc/PKA → K⁺ entra nas células → hipocalemia de redistribuição. Em nebulização contínua, a queda pode ser de 0,5–1,5 mEq/L. É uma complicação conhecida, não uma perda corporal real.

Conduta: Monitorar K⁺ a cada 4–6h em nebulização contínua. Repor via oral se < 3,0 mEq/L e paciente estiver sem alteração grave. Evitar uso concomitante de diuréticos.
CASO 06 · DIGITÁLICO
Paciente com FA crônica em uso de digoxina e furosemida há 2 meses. Vem com K⁺ = 2,7 mEq/L e ECG com extrassístoles ventriculares. Qual o maior risco e por quê?
Risco: Toxicidade digitálica grave.

A digoxina inibe a Na⁺/K⁺-ATPase. Com hipocalemia, há menos K⁺ competindo pelo sítio da bomba → a inibição pela digoxina fica potencializada mesmo em doses terapêuticas. O resultado é arritmia grave com risco de taquicardia ventricular ou fibrilação.

Conduta: Suspender digoxina temporariamente. Repor K⁺ com urgência (EV monitorado). Manter K⁺ sérico > 4,0 mEq/L em pacientes em uso de digitálicos.
11 — PEGADINHAS DE PROVA

Não caia nessas armadilhas

Onda U → hipocalemia
Onda U proeminente no ECG é o sinal clássico de hipocalemia. Não confundir com onda T bífida.
📈
T apiculada → hipercalemia
Onda T "em tenda" ou apiculada indica hipercalemia — o oposto da hipocalemia.
🚫
Addison → HIPERcalemia
Insuficiência adrenal primária cursa com hiperpotassemia + hiponatremia. NÃO causa hipocalemia.
🔵
Betabloqueador → não piora hipocalemia
Beta-bloqueadores bloqueiam receptores beta-2 → tendem a elevar K⁺ (hipercalemia leve). O oposto do beta-agonista.
💉
Vômitos → perda RENAL de K⁺
O suco gástrico tem apenas 5–10 mEq/L. A hipocalemia dos vômitos é indireta: alcalose → SRAA → perda renal. K⁺ urinário > 20 mEq/L.
🧲
Hipomagnesemia → hipocalemia refratária
Sem magnésio, o ROMK fica aberto. Todo K⁺ reposto será perdido pela urina. Corrija o Mg²⁺ primeiro!
⚖️
KCl 10% ≠ KCl 19,1%
KCl 10% (10 mL) = 13 mEq. KCl 19,1% (10 mL) = 25 mEq. Erro de dose pode ser fatal.
📏
mEq ≠ mg
Reposição de potássio é sempre expressa em mEq, não em mg. Não converta incorretamente nas prescrições.
🩺
Liddle → espironolactona NÃO funciona
Na síndrome de Liddle, o ENaC funciona sem aldosterona. Espironolactona é ineficaz. Tratamento: amilorida (bloqueia ENaC diretamente).
🧬
Gitelman = hipocalciúria
Diferencial de Bartter vs Gitelman: Gitelman tem hipocalciúria (NCC inativo aumenta reabsorção de Ca²⁺). Bartter tem calciúria normal/elevada.
💊
Acetazolamida e acidose tubular
Acetazolamida inibe anidrase carbônica → acidose tubular tipo 2 → bicarbonatúria → arrasta K⁺ → hipocalemia.
Potássio EV nunca em bolus
Potássio endovenoso em bolus provoca fibrilação ventricular imediata. Sempre diluído e em bomba de infusão.
🧠 MACETES DO PROF. ANDRÉ

Memorize de vez

Macetes criados para fixar os mecanismos mais cobrados em provas. Não decore — entenda a lógica e nunca mais esqueça.

01
Aldosterona = "Dona do Sódio"

💡 "Aldosterona capta sódio e joga potássio fora"

Toda vez que você pensar em K⁺ baixo (hipocalemia), pense:
Aldosterona alta → Na⁺ entra na célula → K⁺ sai para a urina.
A aldosterona é a dona do sódio: onde ela manda, o sódio entra, e o potássio paga o preço.

🔼
Aldosterona ALTA
ENaC ativo → Na⁺ entra
🔽
K⁺ BAIXO
ROMK secreta K⁺ → urina
📈
Na⁺ ALTO
Sódio retido, volume sobe
🎯 Regra de ouro: K⁺ baixo + Na⁺ alto + hipertensão → excesso de aldosterona (Conn, Cushing, renovascular). K⁺ alto + Na⁺ baixo + hipotensão → falta de aldosterona (Addison).
02
Bartter, Gitelman e Liddle — o trio das tubulopatias
🔴 Bartter = "Irmão da Furosemida"
BArtter → BA de BAte-fura
Funciona como furosemida contínua — sem tomar remédio.
Mutação no NKCC2 (alça de Henle).

PA: normal/baixa
Calciúria: elevada ↑
Mg²⁺: normal
🟡 Gitelman = "Irmão do Tiazídico"
GITelman → GIT de tiazídico
Funciona como tiazídico contínuo — sem tomar remédio.
Mutação no NCC (TCD).

PA: normal/baixa
Mg²⁺: BAIXO ↓↓ (o diferencial!)
Calciúria: baixa ↓
🔵 Liddle = "Aldosterona Falsa"
LiDDle → 2 D's:
1️⃣ ENaC Descontrolado
2️⃣ Aldosterona Derrubada (baixa)

PA: HIPERTENSÃO
Renina e aldosterona: baixas ↓
Tratar com amilorida
⚡ Tabela comparativa — memorize assim:
SíndromeMacetePAMg²⁺Ca²⁺ urinaAldosterona
Bartter Furosemida Normal/baixa Normal Alta ↑ Alta (2ária)
Gitelman Tiazídico + Magnésio Normal/baixa Baixo ↓↓ Baixa ↓ Alta (2ária)
Liddle 2 D's: ENaC + Aldost. HIPERTENSÃO Normal Normal BAIXA ↓↓
03
Magnésio = "A Fechadura do ROMK"

💡 "Sem a chave (Mg²⁺), a porta (ROMK) fica aberta — e o K⁺ escapa sem parar."

O Mg²⁺ bloqueia fisicamente o canal ROMK por dentro. É a fechadura.
Sem magnésio → ROMK destrancado → K⁺ escoa para a urina → reposição é inútil.
Resultado: hipocalemia refratária.

🔑 Regra dos 3 passos:  1️⃣ Dosar Mg²⁺  →  2️⃣ Corrigir Mg²⁺ PRIMEIRO  →  3️⃣ Repor K⁺ (agora ele fica!)
04
Vômito — "Perde pelo Rim, não pelo Estômago"

O suco gástrico tem só 5–10 mEq/L de K⁺. A perda real de K⁺ nos vômitos é indireta — mediada pelo rim via alcalose + aldosterona.

🤮
Perde HCl
(não K⁺)
⚗️
Alcalose
+ Hipovolemia
🧪
SRAA ativado
Aldosterona ↑
🫘
Rim perde K⁺
K⁺ urinário >20
⚠️ Na prova: Vômitos → K⁺ urinário > 20 mEq/L. Diarreia → K⁺ urinário < 20 mEq/L.
05
Beta-agonista baixa K⁺. Beta-bloqueador sobe K⁺.
🫁 Beta-2 AGONISTA → K⁺ BAIXO
Salbutamol, fenoterol, terbutalina
Ativa Na⁺/K⁺-ATPase → K⁺ entra nas células → K⁺ sérico cai → hipocalemia
❤️ Beta-BLOQUEADOR → K⁺ ALTO
Propranolol, atenolol, metoprolol
Bloqueia receptor beta-2 → K⁺ não entra nas células → K⁺ sérico sobe → hipercalemia leve
🎯 "Beta-2 aGOnista → K⁺ GOa para dentro da célula e some do sangue."
🧠 A FRASE QUE RESUME TUDO

"Aldosterona capta Na⁺ e descarta K⁺ —
K⁺ baixo = Na⁺ alto.
Bartter é furosemida. Gitelman é tiazídico mais magnésio baixo.
Liddle tem 2 D's: ENaC Descontrolado, Aldosterona Derrubada.
Sem Mg²⁺, a porta do K⁺ fica aberta — corrija o magnésio primeiro."

— Prof. Dr. André Rossanno Mendes Almeida
12 — QUIZ INTERATIVO

Teste seus conhecimentos

0/8
Parabéns!
13 — RESUMO FINAL

Hipocalemia em 10 segundos

🟢
Leve (3,0–3,5)
Via oral: xarope KCl ou comprimido. Estável, sem arritmia.
🔴
Grave (<2,5)
Reposição EV com bomba. Monitoração cardíaca. Sempre diluído.
🫀
ECG clássico
ST baixo, T achatada, onda U. Alerta para arritmia.
🫁
Causas principais
GI, renal, redistribuição, baixa ingestão. K⁺ urinário diferencia.
🧲
Lembrar do Mg²⁺
Hipomagnesemia → hipocalemia refratária. Corrigir Mg²⁺ antes!
Velocidade importa
Máx. 20 mEq/h periférico. Máx. 40 mEq/h central/UTI. Nunca bolus.
🧪
Concentração importa
Até 40 mEq/L em acesso periférico. Acima disso: acesso central.
🚫
Addison ≠ hipocalemia
Addison → hipercalemia. Hiperaldosteronismo → hipocalemia.

🗺️ Mapa mental relâmpago

HIPOCALEMIA
RedistribuiçãoInsulina · Beta-2 · Alcalose
Perda GIDiarreia · Fístula · Ileostomia
K⁺ urinário < 20
Perda renalDiuréticos · Aldost. · Tubulopatia
K⁺ urinário > 20
ECGST↓ · T achatada · Onda U
Tratamento leveXarope KCl 6% · Comp. 6 mEq
Tratamento graveKCl 10% EV · Bomba · Monitor.
Diluição segura≤ 40 mEq/L periférico
> 40 mEq/L → central
Magnésio!Corrigir Mg²⁺ antes
ROMK fica aberto sem Mg²⁺
PegadinhasAddison → hipercalemia
Vômito → perda renal
Liddle → amilorida
🎓 Resumo final: Hipocalemia é comum, reversível e perigosa se ignorada. Avalie a via da perda, corrija o magnésio, respeite a velocidade de infusão e sempre monitore o ECG em casos graves.