Atlas Mental · Série Síndrome Coronariana Crônica · Capítulo 12

DAC crônica: o tratamento que muda o prognóstico

Este capítulo não é uma lista de medicamentos. É um mapa de portas — cada uma delas é um caminho pelo qual o próximo evento pode entrar.

Consultório · 14h20 · retorno de rotina

Homem, 63 anos IAM há 3 anos ICP prévia Angina: ausente PA 126/74 mmHg LDL 67 mg/dL HbA1c 7,1% IMC 31 kg/m² Uso: AAS + atorvastatina

Ele não tem dor.
Então o tratamento está pronto?

O próximo infarto pode começar
enquanto o paciente está assintomático.

A missão deste capítulo não é tirar a dor. Antianginoso é o Capítulo 13. Aqui nós tentamos impedir que aconteça de novo:

💔IAM
🧠AVC
⚰️Morte CV
🩸Novos eventos aterotrombóticos
01

A pergunta que organiza o capítulo

Paciente → problema → decisão → conduta → por quê → evidência

Existem duas formas de estudar tratamento de DAC crônica. Uma delas reprova no TEC e falha no consultório.

❌ A forma que falha

HOPE = IECA
4S = estatina
COMPASS = rivaroxabana
PEGASUS = ticagrelor

Isso é decorar trabalhos. Na hora da questão você tenta lembrar qual trial era mesmo — e o enunciado não é sobre o trial, é sobre um paciente.

✅ A forma que funciona

Tenho ESTE paciente.
Qual risco permanece aberto?
O que devo fazer AGORA?

O estudo entra depois, como sustentação da decisão. Ele responde “por que sei disso”, não “o que faço”.

DAC não se trata com uma lista de medicamentos. Trata-se fechando portas para o próximo evento.

Quais são os objetivos no tratamento da SCC?

💔 Prevenção do infarto agudo do miocárdio

⚰️ Prevenção de morte

🙂 Melhora dos sintomas

Retorno às atividades normais, com efeitos colaterais mínimos.

🎯 Controle dos fatores de risco

Repare na assimetria. Três dos quatro objetivos são prognósticos e um é sintomático — e mesmo o sintomático vem com uma condição embutida (“efeitos colaterais mínimos”), porque tirar a dor às custas de um paciente intolerável não é sucesso terapêutico. Este capítulo cobre os três primeiros. O quarto é o Capítulo 13.

Os três ramos do tratamento da coronariopatia crônica

Ramo 1

🏋️ Tratamento não farmacológico

Estação 03 deste capítulo. Não é o aquecimento — é terapia.

Ramo 2

💊 Tratamento farmacológico

Estações 04 a 22. Divide-se em prognóstico (aqui) e antianginoso (Cap.13).

Ramo 3

🎈 Intervenção

ICP e revascularização cirúrgica. Fora do escopo deste capítulo — mas lembre: a câmera e o balão não substituem os ramos 1 e 2.

🎓 Como eu explicaria em 30 segundos: “Prognóstico e sintoma são dois tratamentos diferentes que moram no mesmo paciente. O que tira a dor quase nunca é o que evita o infarto. Quando vocês virem uma prescrição de coronariopata, separem mentalmente as duas colunas.”
Pergunta para os alunos: “Betabloqueador está em qual coluna?” (resposta desconfortável: depende — sintoma sempre, prognóstico só em cenários específicos.)

🧪 Ordem correta do raciocínio

Toque nos passos na ordem em que devem acontecer. Errar reinicia — de propósito.

02

🏰 A Fortaleza Coronária

Palácio da memória do capítulo · seis portas, seis caminhos de entrada

Seis portas. O próximo evento só precisa de uma.

Toque em uma porta para ir até a estação correspondente. Ela fecha (fica verde) quando você conclui a seção.

MIOCÁRDIO CADA PORTA ABERTA É UM RISCO RESIDUAL
Fortaleza protegida: 0%

🎨 As cores deste capítulo têm significado fixo

verde recomendado / proteção   âmbar considerar / pegadinha   vermelho contraindicação / perigo   azul evidência   roxo risco residual   cinza histórico / menor prioridade

Se você bater o olho e vier a cor antes da palavra, o capítulo está funcionando.

03

🚬 Porta 1 — o tratamento que não vem em comprimido

N1 · estilo de vida e fatores de risco como terapia prognóstica

Existe uma armadilha silenciosa na cabeça de quem estuda cardiologia: tratar “não farmacológico” como a parte chata que vem antes da parte séria.

Ela é a parte séria. O paciente da abertura tem IMC 31 e HbA1c 7,1% — dois dados que nenhuma dose de estatina resolve. E é aqui que mora o único item do capítulo com benefício em todos os domínios ao mesmo tempo: pressão, lipídio, glicose, trombose e inflamação.

DAC não se trata sentado.

🎯 As cinco metas da coronariopatia crônica

Antes de qualquer roda ou tabela, guarde estas cinco. Elas cabem num cartão de bolso — e o paciente da abertura falha em pelo menos duas. Toque em cada meta para conferir contra ele.

⚠️ Duas pressões diferentes, e a banca sabe disso

O Life’s Essential 8 define a pressão ideal em < 120 × 80 como marcador de saúde cardiovascular na população. A meta prática no coronariopata aparece como < 130 × 80. Não são números concorrentes: um é o ideal de saúde, o outro é o alvo de tratamento. Enunciado que mistura os dois contextos está testando se você sabe de onde cada número veio. SBC SCC 2025

🎡 Life’s Essential 8 — a roda de 2022 AHA · Circulation 2022;146(5):e18–e43

Oito domínios, cada um com uma meta objetiva. Toque para revelar a meta — tente lembrar antes de abrir.

0/8 revelados

A novidade de 2022 foi o sono. A construção anterior tinha 7 itens; o oitavo entrou porque duração e qualidade do sono se mostraram parte da saúde cardiovascular. Se você aprendeu “Life’s Simple 7”, atualize — e saiba que a diferença é exatamente essa.

🧩 Ainda na porta 1

Adesão (prescrição que o paciente não toma tem eficácia zero), vacinação quando indicada e redução da exposição a fatores ambientais — poluição e tabagismo passivo. São todos “fatores de risco”, e fator de risco não tratado é porta escancarada.

🎯 A meta da atividade física

Monte a semana do paciente e veja se ela fecha. Regra prática: 1 minuto vigoroso conta como 2 minutos moderados.

🚬 Missão cumprida?

“Doutor, eu reduzi de 20 para 3 cigarros por dia.”

🚴 Alguns dos benefícios do exercício físico na DAC

Oito ramos. Toque em cada um — e repare que só o primeiro é um desfecho; os outros sete são mecanismos.

💡 EXERCÍCIO PODE PROMOVER
REGRESSÃO DA ATEROSCLEROSE
Não é só “melhora o condicionamento”. A placa é um processo vivo — e o exercício mexe nele.

Trava de leitura: “pode promover regressão” e “estabiliza a placa, podendo até regredir seu tamanho” são afirmações sobre potencial, sustentadas por mecanismo e por dados de imagem — não uma promessa de que a coronária de todo paciente vai desentupir com caminhada. E note o detalhe fino do LDL: o exercício altera pouco o valor do LDL, mas o mantém mais tempo na forma reduzida. Marcador quase igual, biologia diferente.

🏥 Estratificação de risco para o exercício físico na DAC crônica

Aqui está a resposta séria para “preciso pedir teste antes de liberar exercício?”. Não é sim/não — é em que faixa este paciente cai e quanta supervisão ele precisa. Mova a capacidade funcional e veja a faixa mudar.

Leitura fina que a tabela esconde: a faixa moderada não é “paciente que não pode se exercitar” — é paciente que se exercita com supervisão médica nas primeiras 12 semanas e, se livre de intercorrências, evolui para um programa externo semissupervisionado. Supervisão é uma etapa, não um veredito. SBC SCC 2025

🚬 Tabagismo versus DAC

  • Aumenta a progressão da DAC;
  • Aumenta a demanda de O₂;
  • Causa vasoconstrição coronariana.

Ou seja: ele ataca os dois pratos da balança ao mesmo tempo — sobe a demanda e derruba a oferta — além de acelerar a doença de base. Poucos fatores de risco fazem as três coisas juntas.

🏭 Poluição versus DAC

  • Estresse oxidativo;
  • Inflamação;
  • Disfunção endotelial;
  • Disfunção autonômica;
  • Remodelamento vascular.

É o fator de risco que o paciente não escolhe e que a consulta quase nunca menciona — e que reaparece na Porta 5, porque dois dos cinco mecanismos são inflamatórios.

🍷 Álcool — o número da aula e a trava que vem junto

< 15 g/dia — cerca de 100 mL de vinho ou 1 lata de cerveja

⚠️ Como ler esse número sem errar a questão

Isso é um teto de consumo para quem já bebe, não uma prescrição. O álcool não é apresentado como estratégia cardioprotetora e não se recomenda iniciar consumo de álcool para prevenção cardiovascular.

A frase que resume: “se bebe, no máximo isso; se não bebe, não comece”. Enunciado que oferece “orientar consumo moderado de vinho para proteção cardiovascular” está errado mesmo citando o número certo.

💉 Vacinação como prevenção cardiovascular

Deixou de ser assunto do posto de saúde e virou assunto de cardiologista — a ESC publicou em 2025 um clinical consensus statement intitulado “Vaccination as a new form of cardiovascular prevention” Eur Heart J 2025. E a Diretriz de SCC 2025 traz calendário próprio para o cardiopata.

VacinaEsquema e recomendaçãoOnde
InfluenzaEm > 60 anos, preferível a quadrivalente de altas concentrações (high dose HD4V). A quadrivalente (4V) é preferível à trivalente (3V).Trivalente na UBS; quadrivalente em centro de vacinação privado.
Pneumocócica conjugada (VPC13, VPC15, VPC20)Indicada a partir dos 2 meses de idade. No adulto > 60 anos, uma dose de reforço, preferencialmente VPC20.CRIE (VPC13 e VPC15) e clínicas privadas (VPC20).
Pneumocócica polissacarídica 23-valente (VPP23)Uma dose, com reforço após 5 anos.CRIE.
Covid-19Esquema primário: duas doses com intervalo de 4 semanas + terceira dose após 8 semanas. Reforço anual.UBS.

Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica, 2025 (Tabela 36.1). SBC SCC 2025

Por que isso cai em prova: porque parece detalhe de medicina de família e é, na verdade, prevenção cardiovascular. Infecção respiratória em coronariopata é gatilho de evento agudo — taquicardia, hipoxemia, inflamação sistêmica e estado pró-trombótico, tudo ao mesmo tempo, no paciente errado.

⚠️ Duas armadilhas clássicas desta porta

1. “Todo coronariopata precisa de teste ergométrico antes de qualquer exercício.” Não — mas cuidado com o extremo oposto. O que se faz é estratificação de risco e avaliação individualizada (a tabela acima), e o resultado dela decide quanta supervisão o paciente precisa, não se ele pode ou não se mexer. Caminhar não é o mesmo pedido de avaliação que treino intervalado de alta intensidade.

2. “Uma tacinha de vinho protege o coração.” Recomendar bebida a quem não bebe é iatrogenia com verniz cultural. O <15 g/dia é teto para quem já consome — veja o laboratório do álcool acima.

🙈 Fecha os olhos

Sem olhar para cima: cite os três alvos de estilo de vida que você abordaria primeiro neste paciente de 63 anos, IMC 31, HbA1c 7,1% — e diga por quê.

Peso · atividade física · alimentação — porque nesse paciente os três atacam simultaneamente a glicada, o IMC e o risco residual metabólico, que são exatamente as portas que a receita atual (AAS + estatina) não toca. O tabagismo não aparece porque ele não fuma; se fumasse, seria o primeiro da lista, sem competição.

04

🧈 Porta 2 — a cinquentinha

N2 · a meta lipídica da SCC é a pergunta mais rentável do capítulo

Paciente com DAC estabelecida não entra em calculadora de risco. Ele já respondeu à pergunta com o próprio infarto.

SCC / DAC ESTABELECIDA

RISCO MUITO ALTO

LDL < 50 mg/dL  E  redução ≥ 50% do basal

Repare no E. Não é “ou”. Esse conectivo sozinho vale questão. SBC SCC 2025

🎯🕺 DAC = CINQUENTINHA A boate chama-se CORONÁRIA. O segurança da porta é objetivo: “aqui, LDL só entra abaixo de 50”.

🚪 O segurança da boate Coronária

Mova o LDL do seu paciente e veja o veredito na porta.

🩸 E quando ele volta a ter evento?

Paciente que apresenta um segundo evento vascular dentro de 2 anos do primeiro, já em terapia com estatina na dose máxima tolerada: uma meta abaixo de 40 mg/dL pode ser considerada. SBC SCC 2025

Este é o território do risco extremo da Diretriz Brasileira de Dislipidemias 2025 — a categoria criada exatamente para quem já provou que o alvo anterior não bastou.

🔻 REINCIDIU? A PORTA DESCE PARA 40. Recorrência precoce em terapia máxima = a régua fica mais dura, não mais leniente.

⚠️ Três leituras erradas que a banca adora

  • “LDL 48, então está tudo certo” — e a redução percentual? Se o basal era 60, você reduziu 20%.
  • “Reduziu 60%, então está tudo certo” — e o valor absoluto? Se parou em 72, a porta continua aberta.
  • “Menos de 40 é para todo mundo com DAC” — não. É um cenário selecionado (recorrência precoce sob terapia máxima), não a meta universal da SCC.
05

Algoritmo hipolipemiante

N4 · a escada que você sobe até a meta — e não até o remédio

🪜 Suba a escada tocando cada degrau

Em cada parada a pergunta é sempre a mesma: atingiu a meta?

🔬 O que existe na prateleira, e em que ordem de peso

EstratégiaPapelObservação para o TEC
Estatina de alta intensidade / máxima toleradaBase de tudoBenefício de desfecho mais consolidado. Nada substitui o primeiro degrau.
Ezetimiba 10 mgPrimeira associaçãoAditiva, oral, barata, boa tolerância. Diretriz 2025 favorece terapia combinada precoce nos de risco muito alto/extremo. SBC Dislipidemias 2025
Inibidores de PCSK9 (evolocumabe, alirocumabe)Quando a meta não é alcançadaAnticorpo monoclonal subcutâneo. Considerar conforme indicação, disponibilidade e diretriz.
Ácido bempedoicoAlternativa/adjuvanteÚtil sobretudo na intolerância verdadeira a estatinas.
Inclisirana (siRNA)AdjuvanteIntervalo de aplicação longo. Não é equivalente automático das estratégias com desfecho mais estabelecido.

Trava de raciocínio: terapia nova ≠ terapia equivalente. A ordem existe porque o peso das evidências de desfecho é diferente entre elas.

💊 “Ele não tolera estatina”

Antes de aceitar a frase, separe três coisas: intolerância verdadeira (sintoma reprodutível, que some e volta com o desafio), efeito nocebo e problema de adesão. As três produzem a mesma queixa e exigem condutas opostas: trocar/reduzir/espaçar, educar, ou reintroduzir.

06

🔑🔑 A pegadinha das duas chaves

N6 · o caso em que “melhorou muito” não é “atingiu a meta”

Paciente com DAC estabelecida. LDL basal 160 mg/dL. Após tratamento otimizado: 70 mg/dL.

O tratamento atingiu a meta?

🎓 Erro provável do aluno: ler “redução de 56%” e responder no automático. A pergunta não é “o tratamento foi bom?”, é “a meta foi atingida?”. São perguntas diferentes e a prova sabe disso.
07

Fibratos e triglicerídeos — a armadilha do marcador

N6 · melhorar exame ≠ reduzir evento

Se o fibrato reduz triglicerídeos, ele necessariamente reduz eventos cardiovasculares?

🔬 Por que sabemos disso

O PROMINENT testou pemafibrato em pacientes com diabetes tipo 2 e hipertrigliceridemia já sob estatina. O fármaco fez exatamente o que prometia com o marcador — e não entregou redução do desfecho cardiovascular.

Isso não apaga o papel dos fibratos onde eles têm indicação própria (por exemplo, hipertrigliceridemia grave e risco de pancreatite). Apaga a extrapolação: “baixou o número, logo protegeu o coração”.

📉≠🛡️ MELHORAR MARCADOR ≠ REDUZIR DESFECHO Vale para triglicerídeos, para HDL, para glicada e para qualquer número bonito de laboratório.
08

🩸 Porta 3 — plaquetas

N3 · cinco perguntas antes de qualquer nome de remédio

Ninguém prescreve antiplaquetário “para DAC”. Prescreve-se para um cenário. Antes de abrir o algoritmo, o capítulo tranca a porta: responda as cinco perguntas.

🔐 As cinco perguntas que liberam o algoritmo

09

Clopidogrel em dois níveis

O que a prova cobra e o que a prática contemporânea faz

📕 Nível TEC clássico

Intolerância ou contraindicação ao AASclopidogrel 75 mg/dia é a alternativa I B. Essa é a resposta que a maioria dos enunciados quer, e ela não está errada.

📗 Nível contemporâneo

Estratégias de monoterapia com inibidor de P2Y12, particularmente após ICP e depois do período inicial de dupla antiagregação, podem ser apropriadas em pacientes selecionados.

E há um terceiro cenário que quase ninguém lembra: o clopidogrel também é alternativa ao AAS em pacientes com doença arterial periférica ou antecedente de AVC isquêmico IIa B.

🎯 Três portas para o clopidogrel isolado

Toque em cada uma. Elas não competem — são situações diferentes.

❌ O que NÃO se deve gravar

“Clopidogrel = só se houver alergia ao AAS.” É uma simplificação que funciona em metade das questões e falha na outra metade — justamente nas que valorizam raciocínio, que são as que separam aprovado de reprovado.

CAPRIE Lancet, 1996 — ensaio randomizado e cego que comparou clopidogrel versus aspirina em pacientes sob risco de eventos isquêmicos, com doença aterosclerótica manifesta (coronariana, cerebrovascular ou arterial periférica). Foi o estudo que estabeleceu o clopidogrel como alternativa legítima ao AAS, e não apenas como plano de fuga.

HOST-EXAM — em pacientes submetidos a ICP com stent farmacológico (DES) que ficaram livres de eventos sob DAPT por 6 a 18 meses, comparou manter clopidogrel em monoterapia versus manter AAS em monoterapia.

📈 Seguimento de 10 anos (apresentado no ACC.26)

Desfecho composto orientado ao paciente — morte por todas as causas, IAM não fatal, AVC, readmissão por SCA e sangramento maior (BARC ≥3):

28,5%
AAS
739 eventos
25,4%
Clopidogrel
646 eventos

HR 0,86 (IC 95% 0,77–0,96) · p = 0,0050 · NNT 32,7 (18,0–173,8)

O detalhe que faz a diferença: o benefício apareceu tanto nos desfechos trombóticos quanto nos desfechos de sangramento — não foi uma troca de proteção isquêmica por hemorragia. E o NNT caiu de 51 em 2 anos para 33 em 10 anos: a curva continuou se abrindo depois do fim do estudo original.

Conclusão dos autores: o clopidogrel pode ser considerado o agente preferido para monoterapia antiplaquetária de longo prazo na fase crônica de manutenção após ICP.

⚠️ Limite de extrapolação

HOST-EXAM foi feito em uma população específica: ICP com DES, livre de eventos sob DAPT por 6–18 meses. Não é licença para trocar AAS por clopidogrel em qualquer paciente com DAC crônica — e note que “pode ser considerado o agente preferido” é conclusão de autores de estudo, que não equivale automaticamente à classe de recomendação de uma diretriz. Na SBC 2025, o clopidogrel como alternativa ao AAS aparece como I B na intolerância e IIa B nos demais cenários.

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🏛️ Sala histórica — ticlopidina

Cinco linhas, porque é o que ela merece hoje

A ancestral problemática

Primeira tienopiridina a ser amplamente usada, hoje praticamente aposentada por toxicidade:

🩸 neutropenia 🩸 plaquetopenia 🩸 PTT

A memória é fácil: a ticlopidina saiu de cena porque atacava as três linhagens do sangue de formas diferentes — e o clopidogrel fazia o mesmo trabalho sem essa conta.

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🛡️🛡️ DAPT — os dois seguranças

N4 · a duração não é um número, é um equilíbrio

Stent recém-implantado. Chegam dois seguranças para a porta: AAS e um inibidor de P2Y12.

STENT NOVO → DUPLA PROTEÇÃO.

Mas... para sempre?

A pergunta direta: quando usar AAS + clopidogrel na DAC crônica?

Antes de qualquer nuance de duração, existe uma resposta curta e ela precisa estar automática:

💡 Após angioplastia

Ou seja: na DAC crônica estável, sem stent recente, a dupla antiagregação não é o padrão. Ela entra pela porta da intervenção — e, depois disso, pela porta do alto risco isquêmico com baixo risco de sangramento IIa A.

CHARISMA NEJM — “Clopidogrel and Aspirin versus Aspirin Alone for the Prevention of Atherothrombotic Events”. Testou a dupla antiagregação de rotina em uma população ampla, com doença aterotrombótica estabelecida ou múltiplos fatores de risco.

O que ele ensina: somar clopidogrel ao AAS indiscriminadamente, em população estável e heterogênea, não é a estratégia — o ganho isquêmico global não compensou o custo hemorrágico. É por isso que a dupla antiagregação na DAC crônica precisa de um gatilho (stent, alto risco isquêmico selecionado) e não de um hábito.

Limitação para extrapolação: população ampla demais é justamente a característica que dilui o benefício. O sinal em subgrupos com doença estabelecida não autoriza generalizar de volta para todo mundo — o erro inverso.

⚖️ A balança que decide a duração

Marque as características do seu paciente. A viga sobe do lado que pesa mais — como em todos os materiais do Atlas, a altura representa a magnitude daquele lado, não a física de uma balança de peso.

⚔️ Risco isquêmico

🩸 Risco hemorrágico

ISQ 0 HEM 0

🔬 As ferramentas que a diretriz manda usar

Para avaliar risco de sangramento e considerar DAPT encurtada, a Diretriz de SCC 2025 aponta os escores ARC-HBR e PRECISE-DAPT IIa SBC SCC 2025. Ou seja: encurtar não é improviso, é decisão estruturada.

⚠️ Nunca decore uma duração única

A duração da DAPT muda conforme o cenário: ICP eletiva em doença estável, contexto de síndrome coronariana aguda, alto risco hemorrágico (estratégias abreviadas), alto risco isquêmico (estratégias estendidas). Se a sua resposta para todos esses casos for o mesmo número, ela está errada em pelo menos três deles.

🙈 Fecha os olhos

Sem olhar: você tem um paciente pós-ICP eletiva, com sangramento digestivo prévio e anemia. Qual é a sua primeira frase na decisão sobre DAPT?

“Este é um paciente de alto risco hemorrágico — preciso de um escore formal (ARC-HBR/PRECISE-DAPT) e devo considerar uma estratégia abreviada, não a duração padrão.” Repare que a frase não começa com um remédio nem com um número: começa com a classificação de risco.

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🚨 Três remédios para o sangue?

FA + DAC + ICP · a estação onde mais se erra por excesso

Paciente com fibrilação atrial anticoagulado realiza ICP com stent. Você sai da sala com quantas drogas antitrombóticas?

⏱️ O esquema temporal — duas trilhas, quatro fases

Escolha o perfil do paciente e toque em uma fase. As barras mostram quanto tempo cada droga permanece.

⚠️ Aula × diretriz — a divergência que vale sinalizar

O esquema acima (da aula) mantém a aspirina durante a internação na terapia padrão e até cerca de 1 mês no paciente de alto risco de trombose. O texto da Diretriz de SCC 2025 formula o mesmo recuo em outra medida: o AAS pode ser suspenso após cerca de 1 semana, mantendo anticoagulante + clopidogrel quando o risco de trombose é baixo, e a tripla pode ir a cerca de 1 mês quando esse risco é alto IIa. As duas leituras apontam para a mesma direção — tripla curta — mas com réguas diferentes. Guarde a lógica, e confira a redação literal antes de cravar um número em prova. SBC SCC 2025

🔬 O que a Diretriz de SCC 2025 organiza aqui SBC SCC 2025

  • Pacientes com indicação de anticoagulação após ICP devem usar preferencialmente um DOAC associado à terapia antiplaquetária.
  • O AAS pode ser suspenso após 1 semana, mantendo-se apenas anticoagulante + clopidogrel, quando o risco de trombose for baixo.
  • Se o risco de trombose for alto, pode-se manter a terapia tripla por cerca de um mês IIa.
  • Se o risco de sangramento for elevado, pode-se optar por terapia dupla com anticoagulante + prasugrel ou ticagrelor IIb.
  • Prasugrel e ticagrelor NÃO são recomendados dentro da terapia tripla. pegadinha de ouro
🪜 TRIPLA É DEGRAU, NÃO É PATAMAR Toda estratégia tripla existe para ser abandonada. Se você não sabe quando vai retirá-la, você ainda não decidiu.

⚠️ A armadilha do “quanto tempo exatamente”

Não existe uma regra rígida universal de duração. O que existe é uma sequência — tripla o mais curta possível → anticoagulante + P2Y12 → anticoagulação isolada — cujos marcos dependem do tempo desde a ICP, do risco isquêmico, do risco hemorrágico e da diretriz vigente. Enunciado que fixa um número absoluto sem contexto costuma estar testando se você decorou ou se você entendeu.

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🩸 Porta 6 — o risco que sobra

N5 · o paciente “otimizado” que continua infartando

Volte à fortaleza. Nosso paciente já recebeu:

✓ estilo de vida  ·  ✓ controle de fatores de risco  ·  ✓ tratamento lipídico  ·  ✓ antiplaquetário apropriado

Ainda existe risco residual?

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Três corredores antitrombóticos

Não confundir jamais — são populações, drogas e lógicas diferentes

Corredor 1

DAPT estendida

Quem: paciente após evento/ICP, já passado o período inicial, que tolerou a dupla sem sangramento relevante.

O quê: AAS + clopidogrel ou prasugrel. Na formulação da aula: após 1 ano de DAPT por angioplastia, prolongar o uso — 30 meses no total.

Pergunta-chave: alto risco isquêmico + baixo risco hemorrágico + boa tolerância?

Guarde o 30, mas guarde junto a ressalva. Esse número vem de uma estratégia estudada em população selecionada — serve para reconhecer o cenário na questão, não para virar duração automática de todo paciente com stent.

Corredor 2

🪽 PEGASUS

Quem: paciente com IAM prévio, particularmente na janela de 1 a 3 anos, com características de maior risco isquêmico e risco hemorrágico aceitável.

O quê: AAS + ticagrelor prolongado, em pacientes selecionados. Dose associada nessa estratégia: ticagrelor 60 mg 2×/dia.

Imagem: um cavalo alado cuja sela traz escrito “IAM PRÉVIO”. Sem IAM prévio, o cavalo não voa.

Distinção fina: “dose estudada/recomendada” ≠ “dose comercialmente disponível na sua cidade”. Disponibilidade local de uma apresentação não vira recomendação universal.

Corredor 3

🧭 COMPASS

Quem: alto risco isquêmico + paciente crônico, com risco hemorrágico aceitável.

O quê: AAS + rivaroxabana 2,5 mg 2×/dia — inibição de duas vias (plaqueta + coagulação).

Lógica: não é intensificar a plaqueta, é abrir uma segunda frente.

Estação inteira dedicada a ele logo abaixo — é a que mais rende questão.

📋 Os três corredores em uma linha cada

EsquemaCombinaçãoQuem entra · dose
DAPT estendidaAAS + clopidogrel ou prasugrelApós 1 ano de DAPT por angioplastia, prolongar o uso — 30 meses no total.
PEGASUSAAS + ticagrelorPassado de IAM há 1–3 anos. Associar ticagrelor 60 mg 2×/dia.
COMPASSAAS + rivaroxabanaAlto risco isquêmico + paciente crônico. Associar rivaroxabana 2,5 mg 2×/dia.

Truque de leitura: os três compartilham o AAS. O que muda é o segundo nome — e o segundo nome é escolhido pelo antecedente, não pelo gosto. Stent recente prolongado → clopidogrel/prasugrel. IAM na janela de 1–3 anos → ticagrelor 60. Risco isquêmico difuso e crônico → rivaroxabana 2,5.

Distinção que a prova cobra: ticagrelor 60 mg 2×/dia é a dose da estratégia prolongada — não é a dose de ataque nem a dose usada na fase aguda da síndrome coronariana. Como no COMPASS, é a mesma molécula com outra função.

🎯 Qual corredor é este?

Leia o fragmento e escolha o corredor. São de propósito parecidos.

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🧭 COMPASS — a bússola do risco trombótico residual

A maior estação do capítulo · e a mais cobrada

A bússola do COMPASS aponta para três territórios ao mesmo tempo:

🫀 Coronária

🦵 Periférica

🧠 Cerebral

Quanto mais territórios acometidos e mais marcadores de risco, maior o interesse pelo risco trombótico residual.

A ideia central: o AAS trabalha na plaqueta. Mas o evento aterotrombótico também usa a via da trombina. Adicionar uma dose vascular de anticoagulante fecha uma porta que o antiplaquetário sozinho não alcança — ao custo de sangramento.

AAS  +  rivaroxabana 2,5 mg 2×/dia
em pacientes cuidadosamente selecionados

✅ O checklist obrigatório antes de escrever essa receita

Cinco perguntas. Todas precisam ser respondidas — e uma delas sozinha derruba a estratégia.

🚨 A pegadinha TEC mais rentável desta estação

A rivaroxabana 2,5 mg 2×/dia do COMPASS NÃO é a dose de anticoagulação plena da fibrilação atrial.

São duas drogas diferentes vestidas com o mesmo nome. Uma é dose vascular, somada ao AAS, para reduzir eventos aterotrombóticos. A outra é dose antitrombótica plena, para prevenir cardioembolismo na FA. Trocar uma pela outra deixa o paciente com FA sem anticoagulação efetiva.

Dose vascular (COMPASS)

2,5 mg · 2×/dia · com AAS
Alvo: risco aterotrombótico residual

Anticoagulação plena (FA)

Dose plena conforme função renal e critérios
Alvo: cardioembolismo

Corolário: paciente que já tem indicação de anticoagulação em dose plena não é candidato ao esquema do COMPASS. Ele já está em outra conversa.

🙈 Fecha os olhos

Sem olhar: cite os dois critérios que, sozinhos, tiram o paciente do COMPASS.

1. Indicação atual de anticoagulação em dose plena (ele já usa outra estratégia). 2. Risco hemorrágico inaceitável — a estratégia aumenta sangramento, e esse é o preço que o paciente selecionado aceita pagar. Um terceiro, quase tão importante: estar em DAPT com indicação atual, porque somar tudo é somar sangramento.

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A regra dos trials

A placa que deveria estar pendurada em toda enfermaria

🪧 ANTES DE COPIAR UM TRIAL,
VEJA QUEM ENTROU NO TRIAL.
Resultado positivo ≠ prescrever para qualquer paciente.

Três perguntas que transformam leitura de estudo em decisão clínica:

  1. Meu paciente teria sido incluído? (critérios de inclusão e exclusão)
  2. Meu paciente se parece com o paciente médio do estudo? (idade, comorbidades, terapia de base)
  3. O desfecho que melhorou é o que me importa neste paciente? (mortalidade × marcador × desfecho composto)

Se as três respostas não forem confortáveis, o estudo continua verdadeiro — mas ele não é sobre o seu paciente.

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🫀 Porta 4 — diabetes não é só glicose

N6 · a questão em que a glicada boa engana

Paciente com DAC + diabetes tipo 2. HbA1c = 6,7%.

“Como a glicada está boa, não existe razão cardiovascular para considerar SGLT2 ou GLP-1.”

✅ O que a Diretriz de SCC 2025 diz SBC SCC 2025

Em pacientes com DM2, inibidores de SGLT2 e agonistas do receptor de GLP-1 devem ser utilizados para a prevenção secundária de eventos ateroscleróticos recorrentes.

Repare no verbo. Não é “podem ajudar no controle glicêmico”. É prevenção secundária — a mesma prateleira mental da estatina e do antiplaquetário.

🩸➡️🫀 NÃO ESTAMOS TRATANDO APENAS GLICOSE.
ESTAMOS TRATANDO RISCO.
A glicada é o motivo pelo qual a droga nasceu, não o motivo pelo qual você a prescreve aqui.
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Dois caminhos: cardiorrenal × aterosclerótico

Heurística de raciocínio — não é lei, e não são excludentes

Caminho ❤️🫘

Fenótipo cardiorrenal

Insuficiência cardíaca, doença renal crônica, congestão, queda de TFG.

→ SGLT2i ganha especial relevância

Caminho 🫀⚖️

Fenótipo aterosclerótico / ponderal

Doença aterosclerótica manifesta, obesidade, necessidade de redução ponderal.

→ GLP-1 RA ganha especial relevância

⚠️ Leia isto antes de transformar o quadro acima em dogma

Isso é uma heurística de raciocínio, útil para organizar a primeira escolha. Não significa que as classes sejam mutuamente exclusivas. Existem pacientes com indicação e benefício de ambas — e o paciente da nossa abertura (DAC + DM2 + IMC 31) é exatamente um deles.

🧭 Qual caminho pesa mais aqui?

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Obesidade sem diabetes — a questão surpresa

O estudo que mudou a conversa

Paciente com IMC elevado, doença cardiovascular estabelecida e sem diabetes.

“A semaglutida só teria interesse cardiovascular se ele fosse diabético.”

💬 “EU NÃO VIM PELA GLICOSE.
VIM PELO RISCO CARDIOVASCULAR.”
É a frase que a molécula diria ao entrar no consultório de um coronariopata obeso sem diabetes.
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🔥 Porta 5 — inflamação residual

N7 · quando tudo está controlado e o risco continua

LDL na meta. Pressão controlada. Antiagregação adequada. Diabetes tratado.

O risco acabou?

NÃO.

A placa não é só um depósito de gordura — é um processo inflamatório crônico na parede arterial. É possível apagar o combustível lipídico e ainda ter brasa acesa.

🔥🔥🔥

🧪 PCR ultrassensível — o que ela é e o que ela não é

A PCR-us é um marcador de inflamação e de risco: ajuda a identificar quem carrega risco inflamatório residual apesar do tratamento otimizado.

O que ela não é: um gatilho automático de prescrição. “PCR-us alta, logo colchicina” é um atalho que a diretriz não autoriza. O valor entra na composição do julgamento clínico, não no lugar dele.

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🧯 Colchicina

Extintor disponível — não é sprinkler obrigatório

📌 A recomendação, na íntegra do raciocínio SBC SCC 2025

Na Diretriz de SCC 2025, a adição de colchicina pode ser considerada para reduzir eventos coronarianos agudos recorrentes em pacientes selecionados.

CLASSE IIb · NÍVEL B

Colchicina não é rotina obrigatória para todo paciente com DAC.

🗣️ Tradução das classes de recomendação

Toque para revelar a tradução em linguagem de plantão.

Trava de leitura: nunca transforme “pode ser considerado” em “é recomendado”. Essa é a diferença entre IIb e I — e entre acertar e errar a questão.

LoDoCo e LoDoCo2 — colchicina em baixa dose em pacientes com doença coronariana crônica, mostrando redução de eventos cardiovasculares.

COLCOT — colchicina em baixa dose iniciada logo após infarto agudo do miocárdio.

Dose usada nesses regimes: 0,5 mg/dia.

Limitação para extrapolação: populações selecionadas, tolerância gastrointestinal relevante, atenção a função renal, interações e ao contexto de miopatia. O conjunto justificou uma recomendação IIb, e não uma indicação universal.

🧯 EXTINTOR DISPONÍVEL.
NÃO É SPRINKLER OBRIGATÓRIO EM TODO CORONARIOPATA.
Extintor você usa quando há fogo e quando você sabe manuseá-lo. Sprinkler dispara em todo mundo.
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IECA/BRA — não cair na armadilha

E o mnemônico que abre perguntas, não fecha condutas

A frase perigosa é: “todo paciente com DAC obrigatoriamente recebe IECA”.

A pergunta certa não é “ele tem placa?”. É “qual é o contexto deste paciente?” — porque o IECA entra por indicações que ele carrega, não pela coronária em si.

🔎 Este paciente tem indicação?

Marque o que existe no seu paciente.

🔬 A base histórica

HOPE (ramipril) e EUROPA (perindopril) sustentam o benefício de IECA em populações de alto risco cardiovascular. São a razão pela qual a classe entrou nessa conversa — não um passe livre para prescrevê-la a todos.

Havendo intolerância ao IECA (tosse, por exemplo), considerar BRA quando apropriado.

🚪 IECA NÃO ENTRA PELA PLACA.
ENTRA PELO PERFIL DO PACIENTE.

🔤 O mnemônico IECA

Como ferramenta de recuperação

I = IECA
E = Estatina
C = Clopidogrel
A = AAS

⚠️ Cuidado

É uma ferramenta de recuperação de memória. Não significa que todo paciente deve receber simultaneamente os quatro.

Repare: C e A juntos, sem contexto de ICP recente ou de alto risco isquêmico, é dupla antiagregação sem indicação — ou seja, sangramento sem benefício.

O mnemônico deve abrir perguntas, não fechar condutas.

🎓 Pergunta para os alunos: “Se o mnemônico manda dar os quatro, por que o paciente da abertura usa só dois?” — a resposta obriga o aluno a reconstruir o raciocínio inteiro do capítulo em 30 segundos.

🔗 Ponte com o Capítulo 13 — betabloqueador

A Diretriz de SCC 2025 registra que, em estudos mais recentes como o REDUCE-AMI, não houve benefício do betabloqueador em pacientes pós-IAM com FEVE > 50%, mantendo a recomendação de uso como antianginoso e nos pacientes com disfunção ventricular. SBC SCC 2025

Ou seja: betabloqueador vive com um pé em cada coluna, e a coluna do sintoma é assunto do próximo capítulo.

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🌳 Algoritmo mestre

A árvore que deve rodar sozinha na sua cabeça diante de qualquer questão de DAC

Percorra a árvore

Toque em cada ramo para abrir. A ordem importa: as terapias adicionais só aparecem depois que os cinco ramos foram percorridos.

🧠 PROTEGER → LDL → ANTITROMBÓTICO → COMORBIDADES → RISCO RESIDUAL E, no fim de tudo, a pergunta que assina este capítulo: qual porta ainda está aberta?
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🩺 Simulador de consultório

N5 · decidir antes de ver a resposta — sempre

Cada caso obriga uma decisão. Depois da escolha você recebe: por que a correta é correta, por que cada errada está errada, a palavra que entrega a questão, a pegadinha TEC e a âncora de memória.

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⚔️ Arena TEC

Questões de decisão, não de memória factual

Antes de ver a resposta, marque sua confiança. Isso não é enfeite: a diferença entre “tenho certeza e errei” e “chutei e acertei” é exatamente o que a sua revisão precisa saber.

✅ Tenho certeza 🤔 Estou entre duas 🎲 Chutei
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🃏 Flashcards

Recuperação ativa — pergunta na frente, resposta atrás

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🔢 Números que matam questão

Poucos, e nenhum solto

Regra da sala: número sem contexto é número perdido. Cada linha abaixo carrega o cenário grudado nela — se você lembrar do número e esquecer o cenário, você acertou metade e errou a questão.

NúmeroOnde ele mora
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🔬 Evidência por trás da conduta

A camada que só se abre depois da decisão

Regra de ouro do capítulo: sempre que você estiver prestes a escrever “o estudo X mostrou…”, pare e pergunte — qual decisão clínica este estudo ajuda a tomar? Mostre a decisão primeiro. O estudo vem depois.

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🧠 Hipocampo

Seus erros, sua fila, seu calendário

Painel de desempenho

O painel só é honesto se você tiver respondido antes de olhar a resposta. Ele não sabe se você trapaceou — mas a prova saberá.

📌 Conceitos a revisar

Responda às questões e aos casos: os conceitos que você errar aparecem aqui.

🗓️ Repetição espaçada

Marque conforme for revisando. O progresso fica salvo neste navegador.

⏱️ Revisão de 60 segundos

  1. Fecho as portas na ordem: estilo de vida → LDL → antitrombótico → comorbidades → risco residual.
  2. LDL da SCC: <50 E redução ≥50%. Segundo evento em 2 anos sob terapia máxima → considerar <40.
  3. Antiplaquetário: AAS baixa dose é a base; clopidogrel é alternativa (e, pós-ICP selecionado, manutenção possível).
  4. DAPT: duração é equilíbrio isquêmico × hemorrágico, com ARC-HBR / PRECISE-DAPT — nunca um número único.
  5. FA + ICP: tripla o mais curta possível → ACO + P2Y12 → ACO isolado. Prasugrel/ticagrelor não entram na tripla.
  6. COMPASS: AAS + rivaroxabana 2,5 mg 2×/dia — não é a dose plena da FA.
  7. PEGASUS: IAM prévio (janela clássica 1–3 anos), alto risco isquêmico, sangramento aceitável.
  8. DM2 + DAC: SGLT2i e GLP-1 RA são prevenção secundária, independentemente de a glicada estar boa.
  9. Obesidade + DCV sem DM: SELECT — semaglutida 2,4 mg, ~20% de redução relativa de MACE.
  10. Colchicina: IIb B, pacientes selecionados. Extintor, não sprinkler.
  11. IECA: entra pelo perfil do paciente, não pela placa.
  12. As cinco metas: ≥150 min/semana · PA <130×80 · LDL <50 · IMC <25 · zero cigarro.
  13. Estilo de vida: Life’s Essential 8 (sono 7–9 h, IMC <25, PA <120×80, ≥150/75 min); álcool <15 g/dia é teto, não prescrição; exercício estratificado por METs decide a supervisão, não a permissão.
  14. Vacinação é prevenção cardiovascular: influenza (HD4V se >60a), pneumocócicas e covid-19.
  15. E a pergunta final: qual porta ainda está aberta?
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🏰 A fortaleza revisitada

Volta ao paciente da abertura

Mesmo consultório · mesma cadeira · mesmo homem de 63 anos

IAM há 3 anosICP préviaSem angina PA 126/74LDL 67HbA1c 7,1% IMC 31AAS + atorvastatina

Ele não tem angina.
O tratamento está pronto?

Marque agora as portas que você considera ainda abertas neste paciente. Depois compare.

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Filosofia do Atlas

Vinte frases · sorteie uma para começar a revisão

— Dr. André Rossanno