A pergunta que organiza o capítulo
Paciente → problema → decisão → conduta → por quê → evidência
Existem duas formas de estudar tratamento de DAC crônica. Uma delas reprova no TEC e falha no consultório.
❌ A forma que falha
HOPE = IECA
4S = estatina
COMPASS = rivaroxabana
PEGASUS = ticagrelor
Isso é decorar trabalhos. Na hora da questão você tenta lembrar qual trial era mesmo — e o enunciado não é sobre o trial, é sobre um paciente.
✅ A forma que funciona
Tenho ESTE paciente.
Qual risco permanece aberto?
O que devo fazer AGORA?
O estudo entra depois, como sustentação da decisão. Ele responde “por que sei disso”, não “o que faço”.
DAC não se trata com uma lista de medicamentos. Trata-se fechando portas para o próximo evento.
Quais são os objetivos no tratamento da SCC?
💔 Prevenção do infarto agudo do miocárdio
⚰️ Prevenção de morte
🎯 Controle dos fatores de risco
Repare na assimetria. Três dos quatro objetivos são prognósticos e um é sintomático — e mesmo o sintomático vem com uma condição embutida (“efeitos colaterais mínimos”), porque tirar a dor às custas de um paciente intolerável não é sucesso terapêutico. Este capítulo cobre os três primeiros. O quarto é o Capítulo 13.
Os três ramos do tratamento da coronariopatia crônica
Ramo 1
🏋️ Tratamento não farmacológicoEstação 03 deste capítulo. Não é o aquecimento — é terapia.
Ramo 2
💊 Tratamento farmacológicoEstações 04 a 22. Divide-se em prognóstico (aqui) e antianginoso (Cap.13).
Ramo 3
🎈 IntervençãoICP e revascularização cirúrgica. Fora do escopo deste capítulo — mas lembre: a câmera e o balão não substituem os ramos 1 e 2.
Pergunta para os alunos: “Betabloqueador está em qual coluna?” (resposta desconfortável: depende — sintoma sempre, prognóstico só em cenários específicos.)
🧪 Ordem correta do raciocínio
Toque nos passos na ordem em que devem acontecer. Errar reinicia — de propósito.
🏰 A Fortaleza Coronária
Palácio da memória do capítulo · seis portas, seis caminhos de entrada
Seis portas. O próximo evento só precisa de uma.
Toque em uma porta para ir até a estação correspondente. Ela fecha (fica verde) quando você conclui a seção.
🎨 As cores deste capítulo têm significado fixo
verde recomendado / proteção considerar / pegadinha vermelho contraindicação / perigo azul evidência roxo risco residual cinza histórico / menor prioridade
Se você bater o olho e vier a cor antes da palavra, o capítulo está funcionando.
🚬 Porta 1 — o tratamento que não vem em comprimido
N1 · estilo de vida e fatores de risco como terapia prognóstica
Existe uma armadilha silenciosa na cabeça de quem estuda cardiologia: tratar “não farmacológico” como a parte chata que vem antes da parte séria.
Ela é a parte séria. O paciente da abertura tem IMC 31 e HbA1c 7,1% — dois dados que nenhuma dose de estatina resolve. E é aqui que mora o único item do capítulo com benefício em todos os domínios ao mesmo tempo: pressão, lipídio, glicose, trombose e inflamação.
DAC não se trata sentado.
🎯 As cinco metas da coronariopatia crônica
Antes de qualquer roda ou tabela, guarde estas cinco. Elas cabem num cartão de bolso — e o paciente da abertura falha em pelo menos duas. Toque em cada meta para conferir contra ele.
🎡 Life’s Essential 8 — a roda de 2022 AHA · Circulation 2022;146(5):e18–e43
Oito domínios, cada um com uma meta objetiva. Toque para revelar a meta — tente lembrar antes de abrir.
🧩 Ainda na porta 1
Adesão (prescrição que o paciente não toma tem eficácia zero), vacinação quando indicada e redução da exposição a fatores ambientais — poluição e tabagismo passivo. São todos “fatores de risco”, e fator de risco não tratado é porta escancarada.
🎯 A meta da atividade física
Monte a semana do paciente e veja se ela fecha. Regra prática: 1 minuto vigoroso conta como 2 minutos moderados.
🚬 Missão cumprida?
“Doutor, eu reduzi de 20 para 3 cigarros por dia.”
🚴 Alguns dos benefícios do exercício físico na DAC
Oito ramos. Toque em cada um — e repare que só o primeiro é um desfecho; os outros sete são mecanismos.
REGRESSÃO DA ATEROSCLEROSE Não é só “melhora o condicionamento”. A placa é um processo vivo — e o exercício mexe nele.
🏥 Estratificação de risco para o exercício físico na DAC crônica
Aqui está a resposta séria para “preciso pedir teste antes de liberar exercício?”. Não é sim/não — é em que faixa este paciente cai e quanta supervisão ele precisa. Mova a capacidade funcional e veja a faixa mudar.
Leitura fina que a tabela esconde: a faixa moderada não é “paciente que não pode se exercitar” — é paciente que se exercita com supervisão médica nas primeiras 12 semanas e, se livre de intercorrências, evolui para um programa externo semissupervisionado. Supervisão é uma etapa, não um veredito. SBC SCC 2025
🚬 Tabagismo versus DAC
- Aumenta a progressão da DAC;
- Aumenta a demanda de O₂;
- Causa vasoconstrição coronariana.
Ou seja: ele ataca os dois pratos da balança ao mesmo tempo — sobe a demanda e derruba a oferta — além de acelerar a doença de base. Poucos fatores de risco fazem as três coisas juntas.
🏭 Poluição versus DAC
- Estresse oxidativo;
- Inflamação;
- Disfunção endotelial;
- Disfunção autonômica;
- Remodelamento vascular.
É o fator de risco que o paciente não escolhe e que a consulta quase nunca menciona — e que reaparece na Porta 5, porque dois dos cinco mecanismos são inflamatórios.
🍷 Álcool — o número da aula e a trava que vem junto
< 15 g/dia — cerca de 100 mL de vinho ou 1 lata de cerveja
⚠️ Como ler esse número sem errar a questão
Isso é um teto de consumo para quem já bebe, não uma prescrição. O álcool não é apresentado como estratégia cardioprotetora e não se recomenda iniciar consumo de álcool para prevenção cardiovascular.
A frase que resume: “se bebe, no máximo isso; se não bebe, não comece”. Enunciado que oferece “orientar consumo moderado de vinho para proteção cardiovascular” está errado mesmo citando o número certo.
💉 Vacinação como prevenção cardiovascular
Deixou de ser assunto do posto de saúde e virou assunto de cardiologista — a ESC publicou em 2025 um clinical consensus statement intitulado “Vaccination as a new form of cardiovascular prevention” Eur Heart J 2025. E a Diretriz de SCC 2025 traz calendário próprio para o cardiopata.
| Vacina | Esquema e recomendação | Onde |
|---|---|---|
| Influenza | Em > 60 anos, preferível a quadrivalente de altas concentrações (high dose HD4V). A quadrivalente (4V) é preferível à trivalente (3V). | Trivalente na UBS; quadrivalente em centro de vacinação privado. |
| Pneumocócica conjugada (VPC13, VPC15, VPC20) | Indicada a partir dos 2 meses de idade. No adulto > 60 anos, uma dose de reforço, preferencialmente VPC20. | CRIE (VPC13 e VPC15) e clínicas privadas (VPC20). |
| Pneumocócica polissacarídica 23-valente (VPP23) | Uma dose, com reforço após 5 anos. | CRIE. |
| Covid-19 | Esquema primário: duas doses com intervalo de 4 semanas + terceira dose após 8 semanas. Reforço anual. | UBS. |
Fonte: Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica, 2025 (Tabela 36.1). SBC SCC 2025
Sem olhar para cima: cite os três alvos de estilo de vida que você abordaria primeiro neste paciente de 63 anos, IMC 31, HbA1c 7,1% — e diga por quê.
Peso · atividade física · alimentação — porque nesse paciente os três atacam simultaneamente a glicada, o IMC e o risco residual metabólico, que são exatamente as portas que a receita atual (AAS + estatina) não toca. O tabagismo não aparece porque ele não fuma; se fumasse, seria o primeiro da lista, sem competição.
🧈 Porta 2 — a cinquentinha
N2 · a meta lipídica da SCC é a pergunta mais rentável do capítulo
Paciente com DAC estabelecida não entra em calculadora de risco. Ele já respondeu à pergunta com o próprio infarto.
SCC / DAC ESTABELECIDA
↓
RISCO MUITO ALTO
↓
LDL < 50 mg/dL E redução ≥ 50% do basal
Repare no E. Não é “ou”. Esse conectivo sozinho vale questão. SBC SCC 2025
🚪 O segurança da boate Coronária
Mova o LDL do seu paciente e veja o veredito na porta.
🩸 E quando ele volta a ter evento?
Paciente que apresenta um segundo evento vascular dentro de 2 anos do primeiro, já em terapia com estatina na dose máxima tolerada: uma meta abaixo de 40 mg/dL pode ser considerada. SBC SCC 2025
Este é o território do risco extremo da Diretriz Brasileira de Dislipidemias 2025 — a categoria criada exatamente para quem já provou que o alvo anterior não bastou.
Algoritmo hipolipemiante
N4 · a escada que você sobe até a meta — e não até o remédio
🪜 Suba a escada tocando cada degrau
Em cada parada a pergunta é sempre a mesma: atingiu a meta?
🔬 O que existe na prateleira, e em que ordem de peso
| Estratégia | Papel | Observação para o TEC |
|---|---|---|
| Estatina de alta intensidade / máxima tolerada | Base de tudo | Benefício de desfecho mais consolidado. Nada substitui o primeiro degrau. |
| Ezetimiba 10 mg | Primeira associação | Aditiva, oral, barata, boa tolerância. Diretriz 2025 favorece terapia combinada precoce nos de risco muito alto/extremo. SBC Dislipidemias 2025 |
| Inibidores de PCSK9 (evolocumabe, alirocumabe) | Quando a meta não é alcançada | Anticorpo monoclonal subcutâneo. Considerar conforme indicação, disponibilidade e diretriz. |
| Ácido bempedoico | Alternativa/adjuvante | Útil sobretudo na intolerância verdadeira a estatinas. |
| Inclisirana (siRNA) | Adjuvante | Intervalo de aplicação longo. Não é equivalente automático das estratégias com desfecho mais estabelecido. |
Trava de raciocínio: terapia nova ≠ terapia equivalente. A ordem existe porque o peso das evidências de desfecho é diferente entre elas.
🔑🔑 A pegadinha das duas chaves
N6 · o caso em que “melhorou muito” não é “atingiu a meta”
Paciente com DAC estabelecida. LDL basal 160 mg/dL. Após tratamento otimizado: 70 mg/dL.
O tratamento atingiu a meta?
Fibratos e triglicerídeos — a armadilha do marcador
N6 · melhorar exame ≠ reduzir evento
Se o fibrato reduz triglicerídeos, ele necessariamente reduz eventos cardiovasculares?
🔬 Por que sabemos disso
O PROMINENT testou pemafibrato em pacientes com diabetes tipo 2 e hipertrigliceridemia já sob estatina. O fármaco fez exatamente o que prometia com o marcador — e não entregou redução do desfecho cardiovascular.
Isso não apaga o papel dos fibratos onde eles têm indicação própria (por exemplo, hipertrigliceridemia grave e risco de pancreatite). Apaga a extrapolação: “baixou o número, logo protegeu o coração”.
🩸 Porta 3 — plaquetas
N3 · cinco perguntas antes de qualquer nome de remédio
Ninguém prescreve antiplaquetário “para DAC”. Prescreve-se para um cenário. Antes de abrir o algoritmo, o capítulo tranca a porta: responda as cinco perguntas.
🔐 As cinco perguntas que liberam o algoritmo
Clopidogrel em dois níveis
O que a prova cobra e o que a prática contemporânea faz
📕 Nível TEC clássico
Intolerância ou contraindicação ao AAS → clopidogrel 75 mg/dia é a alternativa I B. Essa é a resposta que a maioria dos enunciados quer, e ela não está errada.
📗 Nível contemporâneo
Estratégias de monoterapia com inibidor de P2Y12, particularmente após ICP e depois do período inicial de dupla antiagregação, podem ser apropriadas em pacientes selecionados.
E há um terceiro cenário que quase ninguém lembra: o clopidogrel também é alternativa ao AAS em pacientes com doença arterial periférica ou antecedente de AVC isquêmico .
🎯 Três portas para o clopidogrel isolado
Toque em cada uma. Elas não competem — são situações diferentes.
❌ O que NÃO se deve gravar
“Clopidogrel = só se houver alergia ao AAS.” É uma simplificação que funciona em metade das questões e falha na outra metade — justamente nas que valorizam raciocínio, que são as que separam aprovado de reprovado.
CAPRIE Lancet, 1996 — ensaio randomizado e cego que comparou clopidogrel versus aspirina em pacientes sob risco de eventos isquêmicos, com doença aterosclerótica manifesta (coronariana, cerebrovascular ou arterial periférica). Foi o estudo que estabeleceu o clopidogrel como alternativa legítima ao AAS, e não apenas como plano de fuga.
HOST-EXAM — em pacientes submetidos a ICP com stent farmacológico (DES) que ficaram livres de eventos sob DAPT por 6 a 18 meses, comparou manter clopidogrel em monoterapia versus manter AAS em monoterapia.
📈 Seguimento de 10 anos (apresentado no ACC.26)
Desfecho composto orientado ao paciente — morte por todas as causas, IAM não fatal, AVC, readmissão por SCA e sangramento maior (BARC ≥3):
HR 0,86 (IC 95% 0,77–0,96) · p = 0,0050 · NNT 32,7 (18,0–173,8)
O detalhe que faz a diferença: o benefício apareceu tanto nos desfechos trombóticos quanto nos desfechos de sangramento — não foi uma troca de proteção isquêmica por hemorragia. E o NNT caiu de 51 em 2 anos para 33 em 10 anos: a curva continuou se abrindo depois do fim do estudo original.
Conclusão dos autores: o clopidogrel pode ser considerado o agente preferido para monoterapia antiplaquetária de longo prazo na fase crônica de manutenção após ICP.
🏛️ Sala histórica — ticlopidina
Cinco linhas, porque é o que ela merece hoje
A ancestral problemática
Primeira tienopiridina a ser amplamente usada, hoje praticamente aposentada por toxicidade:
🩸 neutropenia 🩸 plaquetopenia 🩸 PTT
A memória é fácil: a ticlopidina saiu de cena porque atacava as três linhagens do sangue de formas diferentes — e o clopidogrel fazia o mesmo trabalho sem essa conta.
🛡️🛡️ DAPT — os dois seguranças
N4 · a duração não é um número, é um equilíbrio
Stent recém-implantado. Chegam dois seguranças para a porta: AAS e um inibidor de P2Y12.
STENT NOVO → DUPLA PROTEÇÃO.
Mas... para sempre?
A pergunta direta: quando usar AAS + clopidogrel na DAC crônica?
Antes de qualquer nuance de duração, existe uma resposta curta e ela precisa estar automática:
💡 Após angioplastia
Ou seja: na DAC crônica estável, sem stent recente, a dupla antiagregação não é o padrão. Ela entra pela porta da intervenção — e, depois disso, pela porta do alto risco isquêmico com baixo risco de sangramento .
CHARISMA NEJM — “Clopidogrel and Aspirin versus Aspirin Alone for the Prevention of Atherothrombotic Events”. Testou a dupla antiagregação de rotina em uma população ampla, com doença aterotrombótica estabelecida ou múltiplos fatores de risco.
O que ele ensina: somar clopidogrel ao AAS indiscriminadamente, em população estável e heterogênea, não é a estratégia — o ganho isquêmico global não compensou o custo hemorrágico. É por isso que a dupla antiagregação na DAC crônica precisa de um gatilho (stent, alto risco isquêmico selecionado) e não de um hábito.
Limitação para extrapolação: população ampla demais é justamente a característica que dilui o benefício. O sinal em subgrupos com doença estabelecida não autoriza generalizar de volta para todo mundo — o erro inverso.
⚖️ A balança que decide a duração
Marque as características do seu paciente. A viga sobe do lado que pesa mais — como em todos os materiais do Atlas, a altura representa a magnitude daquele lado, não a física de uma balança de peso.
⚔️ Risco isquêmico
🩸 Risco hemorrágico
🔬 As ferramentas que a diretriz manda usar
Para avaliar risco de sangramento e considerar DAPT encurtada, a Diretriz de SCC 2025 aponta os escores ARC-HBR e PRECISE-DAPT SBC SCC 2025. Ou seja: encurtar não é improviso, é decisão estruturada.
Sem olhar: você tem um paciente pós-ICP eletiva, com sangramento digestivo prévio e anemia. Qual é a sua primeira frase na decisão sobre DAPT?
“Este é um paciente de alto risco hemorrágico — preciso de um escore formal (ARC-HBR/PRECISE-DAPT) e devo considerar uma estratégia abreviada, não a duração padrão.” Repare que a frase não começa com um remédio nem com um número: começa com a classificação de risco.
🚨 Três remédios para o sangue?
FA + DAC + ICP · a estação onde mais se erra por excesso
Paciente com fibrilação atrial anticoagulado realiza ICP com stent. Você sai da sala com quantas drogas antitrombóticas?
⏱️ O esquema temporal — duas trilhas, quatro fases
Escolha o perfil do paciente e toque em uma fase. As barras mostram quanto tempo cada droga permanece.
🔬 O que a Diretriz de SCC 2025 organiza aqui SBC SCC 2025
- Pacientes com indicação de anticoagulação após ICP devem usar preferencialmente um DOAC associado à terapia antiplaquetária.
- O AAS pode ser suspenso após 1 semana, mantendo-se apenas anticoagulante + clopidogrel, quando o risco de trombose for baixo.
- Se o risco de trombose for alto, pode-se manter a terapia tripla por cerca de um mês .
- Se o risco de sangramento for elevado, pode-se optar por terapia dupla com anticoagulante + prasugrel ou ticagrelor .
- Prasugrel e ticagrelor NÃO são recomendados dentro da terapia tripla. pegadinha de ouro
🩸 Porta 6 — o risco que sobra
N5 · o paciente “otimizado” que continua infartando
Volte à fortaleza. Nosso paciente já recebeu:
✓ estilo de vida · ✓ controle de fatores de risco · ✓ tratamento lipídico · ✓ antiplaquetário apropriado
Ainda existe risco residual?
Três corredores antitrombóticos
Não confundir jamais — são populações, drogas e lógicas diferentes
Corredor 1
DAPT estendida
Quem: paciente após evento/ICP, já passado o período inicial, que tolerou a dupla sem sangramento relevante.
O quê: AAS + clopidogrel ou prasugrel. Na formulação da aula: após 1 ano de DAPT por angioplastia, prolongar o uso — 30 meses no total.
Pergunta-chave: alto risco isquêmico + baixo risco hemorrágico + boa tolerância?
Corredor 2
🪽 PEGASUS
Quem: paciente com IAM prévio, particularmente na janela de 1 a 3 anos, com características de maior risco isquêmico e risco hemorrágico aceitável.
O quê: AAS + ticagrelor prolongado, em pacientes selecionados. Dose associada nessa estratégia: ticagrelor 60 mg 2×/dia.
Imagem: um cavalo alado cuja sela traz escrito “IAM PRÉVIO”. Sem IAM prévio, o cavalo não voa.
Distinção fina: “dose estudada/recomendada” ≠ “dose comercialmente disponível na sua cidade”. Disponibilidade local de uma apresentação não vira recomendação universal.
Corredor 3
🧭 COMPASS
Quem: alto risco isquêmico + paciente crônico, com risco hemorrágico aceitável.
O quê: AAS + rivaroxabana 2,5 mg 2×/dia — inibição de duas vias (plaqueta + coagulação).
Lógica: não é intensificar a plaqueta, é abrir uma segunda frente.
📋 Os três corredores em uma linha cada
| Esquema | Combinação | Quem entra · dose |
|---|---|---|
| DAPT estendida | AAS + clopidogrel ou prasugrel | Após 1 ano de DAPT por angioplastia, prolongar o uso — 30 meses no total. |
| PEGASUS | AAS + ticagrelor | Passado de IAM há 1–3 anos. Associar ticagrelor 60 mg 2×/dia. |
| COMPASS | AAS + rivaroxabana | Alto risco isquêmico + paciente crônico. Associar rivaroxabana 2,5 mg 2×/dia. |
Truque de leitura: os três compartilham o AAS. O que muda é o segundo nome — e o segundo nome é escolhido pelo antecedente, não pelo gosto. Stent recente prolongado → clopidogrel/prasugrel. IAM na janela de 1–3 anos → ticagrelor 60. Risco isquêmico difuso e crônico → rivaroxabana 2,5.
Distinção que a prova cobra: ticagrelor 60 mg 2×/dia é a dose da estratégia prolongada — não é a dose de ataque nem a dose usada na fase aguda da síndrome coronariana. Como no COMPASS, é a mesma molécula com outra função.
🎯 Qual corredor é este?
Leia o fragmento e escolha o corredor. São de propósito parecidos.
🧭 COMPASS — a bússola do risco trombótico residual
A maior estação do capítulo · e a mais cobrada
A bússola do COMPASS aponta para três territórios ao mesmo tempo:
🫀 Coronária
🦵 Periférica
🧠 Cerebral
Quanto mais territórios acometidos e mais marcadores de risco, maior o interesse pelo risco trombótico residual.
A ideia central: o AAS trabalha na plaqueta. Mas o evento aterotrombótico também usa a via da trombina. Adicionar uma dose vascular de anticoagulante fecha uma porta que o antiplaquetário sozinho não alcança — ao custo de sangramento.
AAS + rivaroxabana 2,5 mg 2×/dia
em pacientes cuidadosamente selecionados
✅ O checklist obrigatório antes de escrever essa receita
Cinco perguntas. Todas precisam ser respondidas — e uma delas sozinha derruba a estratégia.
🚨 A pegadinha TEC mais rentável desta estação
A rivaroxabana 2,5 mg 2×/dia do COMPASS NÃO é a dose de anticoagulação plena da fibrilação atrial.
São duas drogas diferentes vestidas com o mesmo nome. Uma é dose vascular, somada ao AAS, para reduzir eventos aterotrombóticos. A outra é dose antitrombótica plena, para prevenir cardioembolismo na FA. Trocar uma pela outra deixa o paciente com FA sem anticoagulação efetiva.
2,5 mg · 2×/dia · com AAS
Alvo: risco aterotrombótico residual
Dose plena conforme função renal e critérios
Alvo: cardioembolismo
Corolário: paciente que já tem indicação de anticoagulação em dose plena não é candidato ao esquema do COMPASS. Ele já está em outra conversa.
Sem olhar: cite os dois critérios que, sozinhos, tiram o paciente do COMPASS.
1. Indicação atual de anticoagulação em dose plena (ele já usa outra estratégia). 2. Risco hemorrágico inaceitável — a estratégia aumenta sangramento, e esse é o preço que o paciente selecionado aceita pagar. Um terceiro, quase tão importante: estar em DAPT com indicação atual, porque somar tudo é somar sangramento.
A regra dos trials
A placa que deveria estar pendurada em toda enfermaria
VEJA QUEM ENTROU NO TRIAL. Resultado positivo ≠ prescrever para qualquer paciente.
Três perguntas que transformam leitura de estudo em decisão clínica:
- Meu paciente teria sido incluído? (critérios de inclusão e exclusão)
- Meu paciente se parece com o paciente médio do estudo? (idade, comorbidades, terapia de base)
- O desfecho que melhorou é o que me importa neste paciente? (mortalidade × marcador × desfecho composto)
🫀 Porta 4 — diabetes não é só glicose
N6 · a questão em que a glicada boa engana
Paciente com DAC + diabetes tipo 2. HbA1c = 6,7%.
“Como a glicada está boa, não existe razão cardiovascular para considerar SGLT2 ou GLP-1.”
✅ O que a Diretriz de SCC 2025 diz SBC SCC 2025
Em pacientes com DM2, inibidores de SGLT2 e agonistas do receptor de GLP-1 devem ser utilizados para a prevenção secundária de eventos ateroscleróticos recorrentes.
Repare no verbo. Não é “podem ajudar no controle glicêmico”. É prevenção secundária — a mesma prateleira mental da estatina e do antiplaquetário.
ESTAMOS TRATANDO RISCO. A glicada é o motivo pelo qual a droga nasceu, não o motivo pelo qual você a prescreve aqui.
Dois caminhos: cardiorrenal × aterosclerótico
Heurística de raciocínio — não é lei, e não são excludentes
Caminho ❤️🫘
Fenótipo cardiorrenal
Insuficiência cardíaca, doença renal crônica, congestão, queda de TFG.
→ SGLT2i ganha especial relevância
Caminho 🫀⚖️
Fenótipo aterosclerótico / ponderal
Doença aterosclerótica manifesta, obesidade, necessidade de redução ponderal.
→ GLP-1 RA ganha especial relevância
🧭 Qual caminho pesa mais aqui?
Obesidade sem diabetes — a questão surpresa
O estudo que mudou a conversa
Paciente com IMC elevado, doença cardiovascular estabelecida e sem diabetes.
“A semaglutida só teria interesse cardiovascular se ele fosse diabético.”
VIM PELO RISCO CARDIOVASCULAR.” É a frase que a molécula diria ao entrar no consultório de um coronariopata obeso sem diabetes.
🔥 Porta 5 — inflamação residual
N7 · quando tudo está controlado e o risco continua
LDL na meta. Pressão controlada. Antiagregação adequada. Diabetes tratado.
O risco acabou?
NÃO.
A placa não é só um depósito de gordura — é um processo inflamatório crônico na parede arterial. É possível apagar o combustível lipídico e ainda ter brasa acesa.
🧪 PCR ultrassensível — o que ela é e o que ela não é
A PCR-us é um marcador de inflamação e de risco: ajuda a identificar quem carrega risco inflamatório residual apesar do tratamento otimizado.
O que ela não é: um gatilho automático de prescrição. “PCR-us alta, logo colchicina” é um atalho que a diretriz não autoriza. O valor entra na composição do julgamento clínico, não no lugar dele.
🧯 Colchicina
Extintor disponível — não é sprinkler obrigatório
🗣️ Tradução das classes de recomendação
Toque para revelar a tradução em linguagem de plantão.
Trava de leitura: nunca transforme “pode ser considerado” em “é recomendado”. Essa é a diferença entre IIb e I — e entre acertar e errar a questão.
LoDoCo e LoDoCo2 — colchicina em baixa dose em pacientes com doença coronariana crônica, mostrando redução de eventos cardiovasculares.
COLCOT — colchicina em baixa dose iniciada logo após infarto agudo do miocárdio.
Dose usada nesses regimes: 0,5 mg/dia.
Limitação para extrapolação: populações selecionadas, tolerância gastrointestinal relevante, atenção a função renal, interações e ao contexto de miopatia. O conjunto justificou uma recomendação IIb, e não uma indicação universal.
NÃO É SPRINKLER OBRIGATÓRIO EM TODO CORONARIOPATA. Extintor você usa quando há fogo e quando você sabe manuseá-lo. Sprinkler dispara em todo mundo.
IECA/BRA — não cair na armadilha
E o mnemônico que abre perguntas, não fecha condutas
A frase perigosa é: “todo paciente com DAC obrigatoriamente recebe IECA”.
A pergunta certa não é “ele tem placa?”. É “qual é o contexto deste paciente?” — porque o IECA entra por indicações que ele carrega, não pela coronária em si.
🔎 Este paciente tem indicação?
Marque o que existe no seu paciente.
🔬 A base histórica
HOPE (ramipril) e EUROPA (perindopril) sustentam o benefício de IECA em populações de alto risco cardiovascular. São a razão pela qual a classe entrou nessa conversa — não um passe livre para prescrevê-la a todos.
Havendo intolerância ao IECA (tosse, por exemplo), considerar BRA quando apropriado.
ENTRA PELO PERFIL DO PACIENTE.
🔤 O mnemônico IECA
Como ferramenta de recuperação
I = IECA
E = Estatina
C = Clopidogrel
A = AAS
⚠️ Cuidado
É uma ferramenta de recuperação de memória. Não significa que todo paciente deve receber simultaneamente os quatro.
Repare: C e A juntos, sem contexto de ICP recente ou de alto risco isquêmico, é dupla antiagregação sem indicação — ou seja, sangramento sem benefício.
O mnemônico deve abrir perguntas, não fechar condutas.
🔗 Ponte com o Capítulo 13 — betabloqueador
A Diretriz de SCC 2025 registra que, em estudos mais recentes como o REDUCE-AMI, não houve benefício do betabloqueador em pacientes pós-IAM com FEVE > 50%, mantendo a recomendação de uso como antianginoso e nos pacientes com disfunção ventricular. SBC SCC 2025
Ou seja: betabloqueador vive com um pé em cada coluna, e a coluna do sintoma é assunto do próximo capítulo.
🌳 Algoritmo mestre
A árvore que deve rodar sozinha na sua cabeça diante de qualquer questão de DAC
Percorra a árvore
Toque em cada ramo para abrir. A ordem importa: as terapias adicionais só aparecem depois que os cinco ramos foram percorridos.
🩺 Simulador de consultório
N5 · decidir antes de ver a resposta — sempre
Cada caso obriga uma decisão. Depois da escolha você recebe: por que a correta é correta, por que cada errada está errada, a palavra que entrega a questão, a pegadinha TEC e a âncora de memória.
⚔️ Arena TEC
Questões de decisão, não de memória factual
Antes de ver a resposta, marque sua confiança. Isso não é enfeite: a diferença entre “tenho certeza e errei” e “chutei e acertei” é exatamente o que a sua revisão precisa saber.
🃏 Flashcards
Recuperação ativa — pergunta na frente, resposta atrás
🔢 Números que matam questão
Poucos, e nenhum solto
| Número | Onde ele mora |
|---|
🔬 Evidência por trás da conduta
A camada que só se abre depois da decisão
Regra de ouro do capítulo: sempre que você estiver prestes a escrever “o estudo X mostrou…”, pare e pergunte — qual decisão clínica este estudo ajuda a tomar? Mostre a decisão primeiro. O estudo vem depois.
🧠 Hipocampo
Seus erros, sua fila, seu calendário
Painel de desempenho
O painel só é honesto se você tiver respondido antes de olhar a resposta. Ele não sabe se você trapaceou — mas a prova saberá.
📌 Conceitos a revisar
Responda às questões e aos casos: os conceitos que você errar aparecem aqui.
🗓️ Repetição espaçada
Marque conforme for revisando. O progresso fica salvo neste navegador.
⏱️ Revisão de 60 segundos
- Fecho as portas na ordem: estilo de vida → LDL → antitrombótico → comorbidades → risco residual.
- LDL da SCC: <50 E redução ≥50%. Segundo evento em 2 anos sob terapia máxima → considerar <40.
- Antiplaquetário: AAS baixa dose é a base; clopidogrel é alternativa (e, pós-ICP selecionado, manutenção possível).
- DAPT: duração é equilíbrio isquêmico × hemorrágico, com ARC-HBR / PRECISE-DAPT — nunca um número único.
- FA + ICP: tripla o mais curta possível → ACO + P2Y12 → ACO isolado. Prasugrel/ticagrelor não entram na tripla.
- COMPASS: AAS + rivaroxabana 2,5 mg 2×/dia — não é a dose plena da FA.
- PEGASUS: IAM prévio (janela clássica 1–3 anos), alto risco isquêmico, sangramento aceitável.
- DM2 + DAC: SGLT2i e GLP-1 RA são prevenção secundária, independentemente de a glicada estar boa.
- Obesidade + DCV sem DM: SELECT — semaglutida 2,4 mg, ~20% de redução relativa de MACE.
- Colchicina: IIb B, pacientes selecionados. Extintor, não sprinkler.
- IECA: entra pelo perfil do paciente, não pela placa.
- As cinco metas: ≥150 min/semana · PA <130×80 · LDL <50 · IMC <25 · zero cigarro.
- Estilo de vida: Life’s Essential 8 (sono 7–9 h, IMC <25, PA <120×80, ≥150/75 min); álcool <15 g/dia é teto, não prescrição; exercício estratificado por METs decide a supervisão, não a permissão.
- Vacinação é prevenção cardiovascular: influenza (HD4V se >60a), pneumocócicas e covid-19.
- E a pergunta final: qual porta ainda está aberta?
🏰 A fortaleza revisitada
Volta ao paciente da abertura
Mesmo consultório · mesma cadeira · mesmo homem de 63 anos
Ele não tem angina.
O tratamento está pronto?
Marque agora as portas que você considera ainda abertas neste paciente. Depois compare.
Filosofia do Atlas
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— Dr. André Rossanno