Índice

    Ajustes

    Síndrome Coronariana Crônica · Capítulo 13B

    Quando as três travas estão fechadas

    Ivabradina, trimetazidina, ranolazina e nicorandil. O Capítulo 13A terminou num paciente sem espaço: fração de ejeção baixa, pressão justa, frequência lenta — e angina limitante mesmo assim. A célula mais apertada da matriz não estava vazia. Estas são as drogas que moram nela.

    O que esta droga cobra do paciente?

    No 13A a pergunta era qual alavanca dava para puxar. Aqui ela vira o avesso: entre as drogas que sobraram, qual cobra pressão, qual cobra frequência, e qual não cobra nada.

    01

    O simulador de duas agulhas

    Duas barras: pressão arterial e frequência cardíaca. Escolha uma droga e veja o que ela move. Antes de qualquer explicação — o capítulo inteiro nasce do que você vai ver aqui.

    Escolha a droga

    As barras representam o que a droga faz com a pressão e com a frequência deste paciente. Barra que encolhe é custo hemodinâmico; barra que fica é espaço preservado.

    PRESSÃO ARTERIAL
    FREQUÊNCIA CARDÍACA

    O que você acabou de ver

    Betabloqueador e não di-hidropiridínico derrubam as duas barras. Ivabradina derruba só uma. Trimetazidina e ranolazina não derrubam nenhuma. O nicorandil — repare bem — derruba a pressão: ele não pertence ao grupo dos neutros, embora esteja neste capítulo.

    “Toda droga cobra alguma coisa. Saber o preço é metade da prescrição.” — Dr. André Rossanno

    02

    Os quatro deste capítulo — e o que saiu da lista

    Quatro drogas com quatro mecanismos completamente diferentes entre si. A única coisa que as une é a vaga que ocupam: entram quando as classes hemodinâmicas do 13A não cabem, ou não bastam.

    Onde cada uma age

    IvabradinaCanal If do nó sinusal
    TrimetazidinaMetabolismo do miócito
    RanolazinaMetabolismo e canal de sódio
    NicorandilCanal de potássio e óxido nítrico

    Alopurinol: fora

    Aparece na aula apenas para sair da lista: não é mais considerado um antianginoso eficaz. Se ele aparecer numa alternativa como opção antianginosa, é distrator.

    Guarde a ausência com a mesma força com que você guarda as presenças. Na prova, saber o que saiu vale tanto quanto saber o que entrou.

    03

    Ivabradina: o freio que não mexe na pressão

    Ivabradina
    Inibidor do canal iônico If · atua inibindo o nó sinusal

    Só reduz frequência cardíaca. Não altera pressão arterial, não altera contratilidade miocárdica, não altera condução intracardíaca. É a única droga do arsenal antianginoso com esse perfil — e é exatamente por isso que ela existe.

    ↓ frequência pressão preservada contratilidade preservada condução preservada

    Quando ela entra

    Pacientes com doença coronariana que não toleram betabloqueador, ou que permanecem com frequência acima de 60–75 bpm apesar do bloqueador.

    A trava absoluta

    Não usar ivabradina se o ritmo for diferente de sinusal. A droga age no nó sinusal — fora do ritmo sinusal, não há onde agir. Fibrilação atrial encerra a conversa.

    Dose máxima

    7,5 mg duas vezes ao dia.

    Efeito adverso característico

    Fosfenos — pontos luminosos ao sair de ambientes escuros. O mesmo canal If existe na retina.

    IVABRADINA = FREIO SEM CUSTO PRESSÓRICO

    04

    A ivabradina tem dois desfechos, não um

    Esta é a distinção que a prova cobra, e a que mais gente erra por decorar meia frase. A mesma droga responde coisas opostas conforme o paciente tenha ou não insuficiência cardíaca associada.

    DAC CRÔNICA SEM IC ASSOCIADA
    Não reduz desfechos

    Ela continua reduzindo frequência e aliviando angina — mas não é disso que estamos falando. Aqui ela é antianginoso, não droga de prognóstico.

    DAC CRÔNICA COM ICFER ASSOCIADA
    Reduz desfechos

    É o território do SHIFT, discutido na aula de insuficiência cardíaca. Reduz hospitalizações — e é por isso que ela aparece na primeira linha das células de fração reduzida da matriz.

    Além da aula Conferir SBC 2025

    O material-base diz que a ivabradina não reduz desfechos na coronariopatia crônica sem insuficiência cardíaca. A literatura tem uma versão mais dura dessa mesma história: no SIGNIFY, o subgrupo com angina limitante apresentou sinal de dano, não apenas ausência de benefício. Não é a mesma afirmação — e a diferença muda a conduta.

    No mesmo terreno: a associação de ivabradina com verapamil ou diltiazem é proscrita, por interação farmacocinética e somação de bradicardia. Isso não aparece na aula. Confira ambos na diretriz antes de fechar como definitivo.

    05

    Trimetazidina: mudar o combustível, não o motor

    Todas as drogas do 13A mexiam na mecânica: frequência, contratilidade, calibre do vaso. A trimetazidina não toca em nada disso. Ela muda o que o miócito queima.

    Trimetazidina
    Bloqueia a oxidação de ácidos graxos · antianginoso de segunda linha

    O que ela faz na isquemia

    • Bloqueia a oxidação de ácidos graxos
    • Reduz radicais livres durante a isquemia
    • Reduz o acúmulo de cálcio na isquemia
    • Preserva ATP

    O que ela não faz

    não reduz PA não reduz FC

    Hemodinamicamente neutra. É a grande vantagem: pode ser usada quando a pressão está no limite ou a frequência já está baixa. E pode ser usada na ICFER.

    Além da aula Conferir SBC 2025

    A aula não menciona, mas existe restrição regulatória por sintomas extrapiramidais — parkinsonismo, tremor, síndrome das pernas inquietas —, com recomendação de suspender diante desses sintomas e cautela em idosos e em doença de Parkinson. É pegadinha clássica de prova e merece conferência na fonte.

    TRIMETAZIDINA = TROCA O COMBUSTÍVEL

    06

    Ranolazina: sódio dentro, cálcio atrás

    Ranolazina
    Desvia o metabolismo de ácidos graxos para glicose · inibe o canal de sódio

    Dois mecanismos que a aula apresenta juntos:

    1. Desvia o metabolismo de ácidos graxos para glicose — mais ATP por oxigênio consumido.
    2. Reduz a sobrecarga de cálcio ao inibir o canal de sódio. Menos sódio dentro da célula significa menos cálcio retido atrás dele, e um miócito isquêmico que relaxa melhor na diástole.
    não reduz PA não reduz FC aumenta o QT

    MERLIN-TIMI 36

    O ensaio testou a ranolazina em pacientes com síndrome coronariana aguda sem supradesnivelamento. A leitura que interessa: ela melhora sintomas isquêmicos, mas não reduziu desfechos cardiovasculares maiores. Alívio, não prognóstico.

    A ressalva com asterisco — e ela cai

    A ranolazina aumenta o intervalo QT. Mas o próprio MERLIN traz a outra metade da frase: não aumentou arritmias. Prolongamento de QT medido no eletrocardiograma e arritmia clínica não são a mesma coisa — e quem só decorou “aumenta QT” marca a alternativa errada.

    Onde o QT vira problema de verdade

    No paciente que já usa outras drogas que prolongam o QT. Aí a soma importa — e é por isso que as duas listas abaixo existem.

    Efeitos adversos mais comuns: constipação, tontura e cefaleia.

    07

    As duas listas do QT

    Os dois mnemônicos da aula. Não são da ranolazina: são a companhia que torna a ranolazina uma decisão, e não um automatismo.

    PAPERS
    • Psicotrópicos
    • Amiodarona
    • Procinético (cisaprida)
    • Escitalopram
    • Remédio para depressão (amitriptilina, venlafaxina)
    • Sotalol
    CARDIO
    • Cloroquina
    • Azitromicina
    • Ritonavir / lopinavir
    • DHE — os 3 hipo
    • Itraconazol
    • Ofloxacino

    O item que esconde três

    O D de CARDIO é distúrbio hidroeletrolítico, e vale por três: hipocalemia, hipomagnesemia e hipocalcemia. É o único item da lista que você corrige com um frasco — e o primeiro que deve ser checado antes de culpar a droga.

    08

    Nicorandil: o que não pertence ao grupo dos neutros

    Nicorandil
    Abre canais de potássio · aumenta a síntese de óxido nítrico

    Dois mecanismos somados que produzem vasodilatação coronariana e periférica. Pelo braço do óxido nítrico, ele se parece com um nitrato; pelo braço do canal de potássio, não.

    ↓ pré-carga ↓ pós-carga vasodilatação coronariana

    Por que ele é o intruso deste capítulo

    Reduzir pré e pós-carga significa mexer na pressão. O nicorandil está aqui por ser pouco usado, não por ser hemodinamicamente neutro. Se a questão perguntar quais antianginosos não alteram pressão nem frequência, a resposta é trimetazidina e ranolazina — o nicorandil fica de fora.

    Além da aula Conferir SBC 2025

    A aula não cita, mas o efeito adverso mais característico do nicorandil são as ulcerações — oral, gastrointestinal e perianal —, que costumam ser confundidas com outras causas e melhoram com a suspensão. Vale conferir na fonte antes de ensinar como definitivo.

    NICORANDIL = POTÁSSIO + NO, E MEXE NA PRESSÃO

    09

    A matriz vista pelo outro lado

    No Capítulo 13A você escolhia o paciente e a matriz respondia com as drogas. Aqui é o inverso: escolha uma droga deste capítulo e veja onde ela mora. O desenho que aparece diz mais sobre a droga do que qualquer lista de indicações.

    FE ≥ 50%
    PA ≥ 120/70
    PA < 120/70
    FE < 50%
    PA ≥ 120/70
    PA < 120/70
    FC ≥ 70
    FC < 70
    primeira linha segunda linha onde a droga escolhida aparece

    O que o desenho conta

    A ivabradina desenha uma faixa: aparece sempre que a frequência está alta, com ou sem pressão folgada, com ou sem ventrículo bom. É o retrato de uma droga que só cobra frequência.

    Ranolazina e trimetazidina preenchem a matriz inteira — as oito células. Nenhuma outra droga do arsenal faz isso, e o motivo é simples: quem não cobra nada nunca é excluída por falta de espaço.

    10

    Quem pode entrar na insuficiência cardíaca

    A lista do material-base, agora com os quatro deste capítulo no lugar certo. Olhe antes de ler a análise: dois dos quatro estão aqui, dois não.

    Betabloqueadores aprovados para ICFERDi-hidropiridínicosNitratosTrimetazidinaIvabradina

    Estão na lista

    Trimetazidina, por ser neutra e não pedir nada de um ventrículo que já não empurra. Ivabradina, que além de caber tem história própria de desfecho nessa população.

    Não estão — e é diferente de estarem proibidas

    Ranolazina e nicorandil não constam desta lista da aula. Ausência de menção não é o mesmo que contraindicação: é ausência de recomendação formal nesse cenário. Não transforme uma coisa na outra.

    E os que continuam fora

    Verapamil e diltiazem seguem ausentes, pelo mesmo motivo do 13A: inotropismo negativo. Essa ausência, sim, tem peso de alerta.

    11

    Armadilhas

    Sete. Quase todas nascem de decorar metade de uma frase.

    1 · “Ivabradina não reduz desfechos”

    Frase incompleta. Não reduz na coronariopatia crônica sem insuficiência cardíaca associada. Com ICFER associada, reduz — é o terreno do SHIFT.

    Quem decora a metade errada erra nas duas direções: tira a droga de quem se beneficia e mantém em quem não se beneficia.

    2 · Ivabradina fora do ritmo sinusal

    A droga age no nó sinusal. Em fibrilação atrial não há nó sinusal comandando — não há onde agir. Se a vinheta trouxer ritmo diferente do sinusal, ivabradina sai da lista antes de qualquer outra consideração.

    3 · “Ranolazina aumenta o QT, logo é arritmogênica”

    O MERLIN-TIMI 36 traz a outra metade: aumentou o QT e não aumentou arritmias. Prolongamento eletrocardiográfico e evento clínico não são sinônimos.

    O cuidado real é a soma com outras drogas que prolongam o QT — e aí valem PAPERS e CARDIO.

    4 · Confundir alívio com prognóstico

    A ranolazina melhora sintomas isquêmicos e não reduziu desfechos cardiovasculares maiores. Vale para quase tudo neste capítulo: são drogas de sintoma. O prognóstico ficou no Capítulo 12.

    5 · Achar que o nicorandil é neutro

    Ele reduz pré e pós-carga. Está neste capítulo por ser pouco usado, não por não cobrar pressão. Quando a pergunta for “quais não alteram PA nem FC”, a dupla é trimetazidina e ranolazina.

    6 · Alopurinol como antianginoso

    Saiu. A aula o menciona exatamente para dizer que não é mais considerado eficaz nessa indicação. Alternativa com alopurinol tratando angina é distrator.

    7 · A vinheta que parece fácil

    Mulher de 74 anos, doença coronariana, angina limitante. Não tolerou betabloqueador. Frequência 96 bpm, pressão 108 × 64. O eletrocardiograma mostra fibrilação atrial.

    Não. Tudo na vinheta empurra para a ivabradina: frequência alta, intolerância ao betabloqueador, pressão que não permite mais gastos. É exatamente assim que a pegadinha funciona — ela constrói o cenário perfeito e depois esconde o ritmo numa linha só.

    Sem ritmo sinusal, a droga não tem alvo. Restam as neutras: ranolazina e trimetazidina — atenção ao QT se houver companhia das listas PAPERS e CARDIO.

    12

    A Ala Metabólica do Hospital Coronário

    O Capítulo 13A tinha três salas: a garagem, a cidade do cálcio e a casa de máquinas. Esta é a ala nova — para onde vai o paciente que não coube em nenhuma delas.

    Sala 1 · Marca-passo natural

    IVABRADINA

    Um relojoeiro mexe apenas no nó sinusal e retarda o pêndulo. A pressão do prédio não muda, a força da bomba não muda, a fiação não muda.

    Se o relógio não for o sinusal, o relojoeiro vai embora. E ao sair, vê pontos de luz.

    Sala 2 · Refinaria

    TRIMETAZIDINA E RANOLAZINA

    Ninguém toca no motor: trocam o combustível. Menos gordura, mais glicose, mais ATP por oxigênio queimado. A ranolazina ainda fecha uma comporta de sódio, e o cálcio para de se acumular atrás dela.

    Na saída da refinaria, um eletrocardiograma na parede com o QT medido.

    Sala 3 · Sala do potássio

    NICORANDIL

    Duas torneiras abrem juntas: uma de potássio, outra de óxido nítrico. Os vasos relaxam, a pré e a pós-carga caem.

    Placa na porta: esta sala mexe na pressão — não pertence à refinaria dos neutros.

    A caminhada completa

    Garagem → cidade do cálcio → casa de máquinas → ala metabólica. Quatro paradas, e a lógica da série inteira: as três primeiras cobram hemodinâmica, a última quase não cobra. Diante da vinheta, ande nessa ordem e pare onde o paciente couber.

    13

    Recuperação ativa: as pegadinhas

    Quinze afirmações. Decida verdadeiro ou falso antes de conferir.

    Pegadinhas: 0 certas de 0 respondidas
    14

    Oito pacientes

    Dois deles são o mesmo paciente com uma linha trocada. Repare no que muda.

    15

    Arena TEC

    Vinte questões, com o porquê de cada alternativa, palavra-chave, pegadinha e âncora.

    Acertos: 0 Respondidas: 0 de 0
    16

    Flashcards

    Trinta e cinco cartas. Tente responder antes de virar.

    17

    Hipocampo

    O que ainda não entrou

    0acertos na arena
    0erros na arena
    0pegadinhas certas
    0%do capítulo percorrido
    Responda algumas questões da arena e a sua fila de revisão aparece aqui.
    18

    Revisão de 60 segundos

    1. Este capítulo é o que sobra quando as três travas do 13A estão fechadas.
    2. Ivabradina: canal If, nó sinusal. Reduz só a frequência. Não toca em pressão, contratilidade nem condução.
    3. Ivabradina exige ritmo sinusal, tem dose máxima de 7,5 mg 2×/dia e causa fosfenos.
    4. Ivabradina tem dois desfechos: sem insuficiência cardíaca, não reduz; com ICFER, reduz.
    5. Trimetazidina: bloqueia a oxidação de ácidos graxos, reduz radicais livres e acúmulo de cálcio, preserva ATP. Neutra e usável na ICFER.
    6. Ranolazina: desvia o metabolismo para glicose e inibe o canal de sódio, reduzindo a sobrecarga de cálcio. Também neutra.
    7. Ranolazina aumenta o QT, mas não aumentou arritmias no MERLIN. O cuidado é a soma — PAPERS e CARDIO.
    8. MERLIN-TIMI 36: síndrome coronariana aguda sem supra, com melhora de sintomas e sem redução de desfechos maiores.
    9. Nicorandil: canais de potássio mais óxido nítrico, reduzindo pré e pós-carga. Não é neutro.
    10. Alopurinol saiu: não é mais considerado antianginoso eficaz.
    11. Na matriz: ivabradina desenha a faixa da frequência alta; trimetazidina e ranolazina ocupam as oito células.
    12. Na ICFER, dos quatro, entram ivabradina e trimetazidina.
    19

    Filosofia do Atlas

      20

      Âncoras que não podem ser esquecidas

      IVABRADINA = FREIO SEM CUSTO PRESSÓRICO IVABRADINA EXIGE RITMO SINUSAL IVABRADINA = FOSFENOS IVABRADINA TEM DOIS DESFECHOS TRIMETAZIDINA = TROCA O COMBUSTÍVEL RANOLAZINA = SÓDIO DENTRO, CÁLCIO ATRÁS RANOLAZINA: ALÍVIO, NÃO PROGNÓSTICO QT: O PROBLEMA É A COMPANHIA NEUTRAS = TRIMETAZIDINA E RANOLAZINA NICORANDIL = POTÁSSIO + NO, E MEXE NA PRESSÃO ALOPURINOL SAIU DA LISTA ICFER = BB APROVADO, DHP, NITRATO, TRIMETAZIDINA, IVABRADINA

      Fim do Capítulo 13

      O 13A ensinou a ler o espaço do paciente. O 13B ensinou o que fazer quando não há espaço nenhum.

      O QUE ESTA DROGA COBRA DO PACIENTE?

      A seguir na série: ANOCA e INOCA na prática — a angina que não obedece à coronária.