— Dr. André Rossanno
Hipocampo Supremo · SCC · Capítulo 5 · TEC 2026

Teste Ergométrico:
a Academia Coronariana

Um coração em forma de academia. Três catracas na portaria, uma esteira com quatro pernas e dois detectores ligados ao mesmo tempo. Aqui o teste deixa de ser um carimbo e volta a ser uma história fisiológica sob estresse.

Diretriz SBC de Ergometria 2024ST · METs · FC · PA · arritmiasPonto J e J+80 ms15 pegadinhas TEC
Como este capítulo funciona

Nada aqui é para ler passivamente. Cada bloco pede uma decisão antes de mostrar a resposta, e conceitos do começo voltam depois sem aviso — é assim que a memória fixa. Seu progresso fica salvo neste aparelho (localStorage), sem internet e sem servidor.

00

Quatro laudos. Antes de qualquer explicação: qual deles é um teste normal?

Vote nos quatro. Só depois o capítulo começa. ⭐⭐⭐

Você é o cardiologista que recebe estes quatro exames na mesma manhã. Sem ler mais nada, decida: normal ou não é simplesmente normal? Não existe pegadinha escondida — existe a pegadinha de sempre, que é reduzir o teste ao segmento ST.

Perguntar “positivo ou negativo?” é aceitar duas respostas para uma pergunta que tem dez.

— Dr. André Rossanno
01

O teste ergométrico não é um teste de segmento ST

É a avaliação integrada da resposta cardiovascular ao exercício. ⭐⭐⭐

Existe um vício de leitura que atravessa a residência inteira e chega ao TEC: olhar o traçado, procurar infra, escrever “positivo” ou “negativo”, fechar o laudo. O ST é um dos detectores da academia — não é a academia inteira.

Toque em cada peça abaixo para ver o que ela informa. As doze juntas formam o laudo que o TEC cobra.

A pergunta que volta o capítulo inteiro

“O que aconteceu, em que carga aconteceu e o que isso significa para este paciente?”

Guarde a frase inteira. Em prova, quem responde só à primeira parte erra as outras duas.

Notas do professor
Como eu explicaria em 30 segundosO ergométrico é uma entrevista com o coração feita na única língua que ele só fala sob carga. O ST é uma frase dessa entrevista, não a entrevista.
Pergunta para os alunos“Se eu apagasse a linha do ST do laudo, sobraria informação clínica útil?” — Sim, e muita. Peça para listarem.
Erro provávelAluno confunde “sem infra diagnóstico” com “exame normal”.

Uma correção que vale para a vida (e para a prova)

Não é verdade que “o teste ergométrico é sempre o primeiro exame na dor torácica crônica”. O papel do exercício-ECG depende de probabilidade pré-teste, capacidade de exercício, ECG basal interpretável e da estratégia diagnóstica escolhida. Ele é insubstituível quando se quer resposta fisiológica, sintoma reproduzido e capacidade funcional; é fraco quando o ECG não é interpretável ou o paciente não consegue caminhar.

SBC × INTERNACIONAL

A Diretriz Brasileira de Ergometria 2024 (SBC) é a fonte deste capítulo e mantém o exercício-ECG com papel amplo e bem definido no Brasil, inclusive por disponibilidade e custo. As 2024 ESC CCS e a 2021 AHA/ACC Chest Pain tendem a privilegiar métodos de imagem (anatômicos ou funcionais) para diagnóstico de DAC obstrutiva, deixando o exercício-ECG mais para avaliação funcional/prognóstica quando a imagem não está disponível. Para o TEC, responda pela SBC — e saiba que existe a divergência.

02

Portaria da Academia: as três catracas

Ninguém entra na esteira sem atravessar três perguntas, uma por vez. ⭐⭐⭐

1 · CONSEGUE?

O paciente consegue se exercitar?

2 · PODE?

É seguro submetê-lo ao esforço agora?

3 · CONSIGO INTERPRETAR?

Se o ST se alterar, essa alteração terá significado?

Três catracas independentes. Falhar em uma não é o mesmo que falhar nas outras — e é exatamente aí que a prova pega.

Catraca 1

CONSEGUE? — capacidade de exercício

Antes de qualquer discussão de risco, uma pergunta prática: este corpo consegue produzir esforço suficiente para estressar o coração? Um teste em que o paciente para com 2 METs por dor no joelho não testou a coronária — testou o joelho.

o paciente 1 a 2 lances de escada, sem parar heurística de triagem — não é critério isolado

A escada é uma heurística, não uma lei

Subir um a dois lances sem parar sugere capacidade suficiente para um protocolo convencional. Mas é triagem clínica: não substitui a avaliação do paciente real, não vale igualmente para todas as idades e não define sozinha nem indicação nem contraindicação.

Não confunda as duas coisas

Incapacidade de exercício = o corpo não produz a carga (artrose grave, doença arterial periférica limitante, sequela neurológica, descondicionamento extremo). Nesse caso o problema é gerar o estresse.
Contraindicação clínica = o corpo até conseguiria, mas provocar agora é perigoso. Aqui o problema é segurança.
São catracas diferentes e levam a condutas diferentes — no primeiro caso pensa-se em estresse farmacológico ou método anatômico; no segundo, em estabilizar antes.

Recuperação ativa — decida antes de continuar

Paciente de 74 anos, coxartrose grave, anda 30 metros e para pela dor no quadril. ECG basal normal. Dor torácica típica aos mínimos esforços.

Catraca 2

PODE? — segurança do esforço

Aqui mora o conceito-mãe da portaria, e ele cabe em cinco palavras:

AGUDO + INSTÁVEL + DESCOMPENSADO = NÃO PROVOCAR DESNECESSARIAMENTE

Se o quadro está em movimento (agudo), sem controle (instável) ou fora de compensação (descompensado), o esforço adiciona risco sem adicionar informação confiável. Estabilize primeiro; teste depois, se ainda fizer falta.

🟢 Pode
  • Paciente estável, sintomas em padrão habitual
  • Compensado clinicamente
  • Consegue caminhar e cooperar
  • Consentimento obtido
  • Equipe, material de emergência e monitorização disponíveis
🟡 Cautela / ambiente especial
  • Estenose conhecida de tronco de coronária esquerda
  • Valvopatia estenótica moderada a grave de relação incerta com os sintomas
  • Cardiomiopatia hipertrófica com obstrução importante da via de saída
  • Taquiarritmias e bradiarritmias
  • Bloqueio atrioventricular de alto grau
  • Distúrbios hidroeletrolíticos
  • Hipertensão arterial não controlada em repouso
  • Anemia importante, doença aguda febril
  • Limitação cognitiva que comprometa a cooperação
🔴 Contraindicado no cenário atual
  • Infarto agudo do miocárdio muito recente
  • Angina instável não estabilizada / de alto risco
  • Arritmia não controlada com sintomas ou repercussão hemodinâmica
  • Estenose aórtica grave sintomática
  • Insuficiência cardíaca descompensada
  • Miocardite ou pericardite aguda
  • Endocardite ativa
  • Dissecção aguda de aorta
  • Tromboembolismo pulmonar / trombose venosa profunda agudos
  • Incapacidade física que impeça a realização segura
  • Recusa do paciente

⚠️ Prazos em dias e valores pressóricos de corte variam na redação de cada diretriz. Este capítulo apresenta as categorias e evita cravar números não confirmados na fonte enviada — confira a redação literal da Diretriz SBC 2024 antes de decorar um número.

Semáforo — classifique 10 cenários

Toque no cenário, depois na cor. Funciona no toque e no mouse.

Catraca 3

CONSIGO INTERPRETAR o ECG para isquemia?

Esta é a catraca mais esquecida — e a mais cobrada. A pergunta não é “o paciente pode correr?”. É:

Monitor da portaria
“Se aparecer alteração de ST, ela será interpretável?”
Selecione uma condição do ECG basal para ver o efeito sobre a interpretabilidade do segmento ST.

O problema central, em letras grandes

ECG NÃO INTERPRETÁVEL PARA ISQUEMIA PELO ST

Não é “não pode fazer exercício”. Não é “o coração não aguenta”. É que a régua que você usaria — o segmento ST — já está torta antes de o paciente subir na esteira.

⭐⭐⭐ Pegadinha clássica do TEC

“Paciente com bloqueio de ramo esquerdo caminha normalmente. O problema para solicitar o teste ergométrico é incapacidade física?”

NÃO. Ele passa tranquilamente pela Catraca 1 (consegue) e, se estiver estável, pela Catraca 2 (pode). Ele trava na Catraca 3: o BRE altera a sequência de despolarização e, por consequência, a repolarização — o ST/T já está secundariamente alterado no repouso e pode oscilar com a frequência durante o esforço. Qualquer infra que apareça não é atribuível à isquemia com confiança. O exercício ainda pode informar capacidade funcional, sintomas, comportamento da FC e da PA e arritmias; o que se perde é o diagnóstico de isquemia pelo ST. Quando a pergunta é isquemia, a saída costuma ser um método de imagem (estresse farmacológico ou anatômico), conforme a estratégia escolhida.

BRD não é BRE — a ressalva de V1 a V3

O bloqueio de ramo direito não inutiliza o exercício-ECG como o BRE. Ele produz alteração secundária de repolarização predominantemente nas precordiais direitas (V1–V3): nessas derivações, o infradesnivelamento induzido pelo esforço não deve ser usado para diagnóstico de isquemia. Nas demais — especialmente V5, V6, DII e aVF — a análise do ST segue válida.

Traduzindo para prova: BRE = perde o ST inteiro. BRD = perde V1–V3 e mantém o resto.

Notas do professor
Analogia para o quadroA Catraca 3 é a régua. Se a régua já está entortada em casa, não adianta medir melhor na academia.
Pergunta para os alunos“Cite uma informação clínica útil que o exercício ainda dá num paciente com BRE.” — Capacidade funcional, sintomas, resposta cronotrópica, PA, arritmias.
Erro provávelEscrever no laudo “teste negativo” em paciente com ECG não interpretável. Não é negativo: é não diagnóstico para isquemia pelo ST.
05

Sala da Fisiopatologia: a balança demanda ↔ oferta

A esteira existe para desequilibrar de propósito o que o repouso mantém equilibrado. ⭐⭐

Equilíbrio. Nenhum fator marcado ainda.
DEMANDA OFERTA ▲ 0 ▼ 0 FC · contratilidade · tensão parietal fluxo · diástole · autorregulação · O₂

Como ler esta viga

A viga não segue a física de uma balança de peso. A altura de cada lado representa a magnitude daquele lado: marcar um fator de demanda faz o lado da DEMANDA subir; sabotar a oferta faz o lado da OFERTA descer. Quanto maior a abertura entre eles, maior o desequilíbrio.

repouso

Marque os fatores (toque para ligar/desligar)

A cadeia do exercício

Toque em “Acionar” para percorrer a cadeia um elo por vez.

Débito cardíaco no esforço

Durante exercício intenso o débito cardíaco pode aumentar várias vezes em relação ao repouso (a literatura fisiológica costuma trabalhar com uma ordem de grandeza de cerca de 4 a 6 vezes em adultos saudáveis, e mais em atletas treinados). Trate isso como ordem de grandeza didática, não como número individual esperado de um paciente específico.

Um lembrete da Cidade Coronária

O lado da oferta não é só “fluxo”. Ele inclui a duração da diástole (que encurta quando a FC sobe), a autorregulação (que se esgota quando já foi gasta em repouso para compensar uma estenose), a vasomotricidade (espasmo fecha a rua) e o conteúdo de oxigênio (anemia esvazia os caminhões). Isquemia no esforço não exige obstrução epicárdica obrigatória.

06

A cascata isquêmica: a isquemia não começa pela dor

Arraste (ou toque para trocar) até ordenar os cinco degraus. ⭐⭐

No desktop, arraste. No celular, toque em um item e depois no item com o qual quer trocar de lugar.

    A pergunta que fecha o raciocínio

    “Se a alteração metabólica acontece antes da angina, por que métodos diferentes detectam momentos diferentes da cascata?”

    Porque cada método “escuta” um degrau diferente. Perfusão detecta cedo, na fase de heterogeneidade de fluxo. A ecocardiografia sob estresse enxerga a disfunção contrátil, um degrau depois. O ECG só fala quando a alteração elétrica é suficiente para deslocar o ST — mais tarde ainda. E a angina é o último degrau, quando o paciente enfim percebe. Daí duas consequências: (1) um exercício-ECG sem infra pode conviver com isquemia real detectável por outro método; (2) a isquemia silenciosa existe justamente porque o último degrau pode simplesmente não ser subido.

    Cuidado com o excesso: a cascata é um modelo didático, não um cronômetro rígido. A ordem pode se comprimir, sobrepor ou pular degraus dependendo da gravidade e da velocidade da isquemia.

    A esteira não diagnostica: ela cria as condições para que o corpo confesse.

    — Dr. André Rossanno
    07

    Estação dos METs: três portões na esteira

    4 · 7 · 10 — os três números que mudam a leitura de qualquer laudo. ⭐⭐⭐

    Antes de revelar: tente lembrar sozinho como a aula classificou a capacidade funcional em quatro faixas. Só depois toque no botão.

    <4
    Ruim
    METs
    4–7
    Regular
    METs
    7–10
    Boa
    METs
    >10
    Excelente 🏅
    METs
    4 7 10 🏅 ruimregularboaexcelente

    ⭐⭐⭐ Faixas didáticas, não sentença prognóstica

    Essas quatro faixas organizam o raciocínio e caem em prova, mas capacidade funcional só significa alguma coisa dentro do contexto: idade, sexo, protocolo utilizado, motivo da interrupção, medicações em uso e comorbidades. Um valor de 7 METs não quer dizer a mesma coisa numa mulher de 78 anos e num homem de 40. Nunca transforme a faixa em prognóstico absoluto.

    Recuperação ativa

    Paciente sem infradesnivelamento de ST, mas que alcança apenas 3,5 METs, interrompendo por fadiga e dispneia. Você chamaria o teste simplesmente de normal?

    Notas do professor
    Como eu explicaria em 30sMETs é quanto de motor o paciente tem. ST é se o motor falhou. Um carro que anda 20 km/h sem falhar não é um carro saudável.
    Pergunta para os alunos“Entre dois pacientes com o mesmo infra de 1 mm, um a 3 METs e outro a 12 METs — qual preocupa mais e por quê?”
    08

    A encruzilhada dos protocolos

    O protocolo se ajusta ao paciente — nunca o contrário.

    A mensagem única desta seção

    Protocolo errado não gera teste ruim — gera teste inútil.

    Um protocolo agressivo demais em idoso frágil interrompe cedo por limitação periférica e produz um exame submáximo. Um protocolo leve demais em atleta consome tempo e pode gerar fadiga localizada antes de estressar o coração. Não decore estágios: entenda a lógica de incremento — grande e escalonado, pequeno e escalonado, ou contínuo e individualizado.

    Não vale a pena memorizar velocidade e inclinação de cada estágio. Vale saber qual protocolo escolher, por quê, e que o mesmo paciente pode render METs diferentes em protocolos diferentes.

    09

    A regra dos dois detectores

    A esteira tem dois sensores ligados ao mesmo tempo — e eles nem sempre concordam. ⭐⭐⭐

    Detector 1 · O ECG

    Fala pelo segmento ST. É objetivo, mensurável em milímetros — e mudo em boa parte dos pacientes que têm isquemia.

    Detector 2 · O PACIENTE

    Fala pelo sintoma. É subjetivo, exige interrogatório ativo durante o esforço — e frequentemente acende antes do outro.

    O ECG pode ficar calado enquanto o miocárdio fala pela angina.

    — Dr. André Rossanno

    Decida agora

    O paciente desenvolve a sua dor típica durante o esforço, mas não apresenta infradesnivelamento diagnóstico. A ausência de infra exclui isquemia?

    ⭐⭐⭐ E o limite oposto — o excesso simétrico

    Angina típica reproduzida pelo esforço, com o mesmo padrão da queixa habitual, tem valor clínico independente e entra na interpretação global. Mas isso não significa que qualquer dor durante o esforço prove DAC.

    Angina típica induzida

    Desconforto retroesternal em aperto/peso, reproduz a queixa habitual, surge com a carga, alivia com a interrupção. Peso clínico real.

    Dor atípica inespecífica

    Pontada, dor que muda com a posição ou a respiração, dor que aparece no início e some com a carga maior, dor reproduzida à palpação. Peso clínico baixo — e péssima candidata a “fechar” o laudo.

    10

    Laboratório interativo do segmento ST

    Linha isoelétrica, fim do QRS, ponto J, ponto Y (J+80 ms), ponto X, escala em milímetros. ⭐⭐⭐

    1,5 mm
    Morfologia
    Onde medir
    No ponto J
    Em J + 80 ms (Y)
    Critério (regra da aula)

    Cada eixo é intencional: horizontalmente, 1 quadradinho = 40 ms (portanto J + 80 ms = dois quadradinhos); verticalmente, 1 quadradinho = 1 mm. O traçado é reconstruído por coordenadas — não é uma curva decorativa.

    Os quatro pontos que você precisa saber nomear

    PontoO que éPor que importa
    Fim do QRSOnde a despolarização terminaDefine onde começa a repolarização — e, portanto, onde a régua encosta
    Ponto JJunção entre o fim do QRS e o início do segmento STÉ o ponto de medida de algumas morfologias e a referência de todas as outras
    Ponto Y80 ms depois do ponto J (dois quadradinhos)Ponto de medida do infra ascendente e alternativa de medida no horizontal
    Ponto XOnde o segmento ST cruza de volta a linha de baseAjuda a distinguir ascendente rápido (cruza cedo) de ascendente lento (cruza tarde)

    Quem mede sem saber onde medir, mede a própria distração.

    — Dr. André Rossanno
    11

    As quatro morfologias do infradesnivelamento

    Quatro personagens, quatro geometrias, quatro réguas diferentes. ⭐⭐⭐

    ⭐⭐⭐ A tabela que o TEC gosta

    MorfologiaGeometriaOnde medirCorte (material da aula / SBC 2024)
    Horizontal / retificadoDepois do J o ST fica aproximadamente paralelo à linha de base, abaixo delaPonto J ou 80 ms após o J1 mm
    DescendenteDepois do J o ST continua inclinando para baixoPonto J1 mm
    AscendenteComeça deprimido no J e sobe em direção à linha de base80 ms após o J (ponto Y)≥1,5 mm se risco pré-teste moderado/alto
    ≥2 mm se risco pré-teste baixo
    Convexo (convexidade superior)Segmento deprimido com convexidade voltada para cimaNadir do segmento ST≥2 mm
    SupradesnivelamentoST acima da linha de baseJunção J/ST (ponto J)≥1 mm, em derivação sem onda Q anormal

    Repare no detalhe que separa quem estudou de quem decorou: o ascendente é a única morfologia cujo corte muda com a probabilidade pré-teste. Isso não é acaso — é Bayes entrando na régua.

    Ascendente rápido × ascendente lento

    Rápido — geralmente fisiológico

    O J desce, mas o ST sobe depressa e cruza a linha de base cedo (ponto X precoce). É o padrão comum do esforço com taquicardia, sobretudo quando o ponto Y já está próximo da linha de base. Em geral não diagnóstico.

    Lento — pode ser anormal

    O J desce e o ST sobe devagar; em J+80 ms ainda há depressão significativa e o ponto X é tardio. Pode ser anormal dependendo da magnitude e do contexto — e é o padrão com pior desempenho diagnóstico: menor acurácia e mais falso-positivos que o horizontal e o descendente.

    Confundir os dois é a fonte número um de laudo errado nesta seção. A pergunta operacional é sempre: quanto sobrou de depressão dois quadradinhos depois do J?

    Notas do professor
    Analogia para o quadroQuatro personagens com quatro relógios. O horizontal aceita dois horários (J ou J+80). O descendente só aceita o J. O ascendente só aceita o J+80. O convexo não olha relógio, olha o fundo do poço.
    Erro provávelMedir o ascendente no ponto J — sempre dá um número maior e cria falso-positivo.
    Pergunta para os alunos“Por que só o ascendente tem dois cortes diferentes?”
    12

    O elevador vermelho: supradesnivelamento de ST no exercício

    Fica em andar separado da estação dos infras — de propósito. ⭐⭐

    Critério (material fornecido / SBC 2024)

    Supradesnivelamento ≥1 mm na junção J/ST (ponto J), em derivação sem onda Q anormal.

    Achado incomum e que merece atenção especial. Em derivação sem Q patológica, o supra induzido pelo esforço sinaliza isquemia transmural e, diferentemente do infra, tem maior valor localizatório — mas isso não autoriza transformar o exame em mapa coronariano; a decisão continua sendo clínica e o passo seguinte costuma ser investigação anatômica, conforme a estratégia adotada.

    A ressalva que separa os dois cenários

    Supra que aparece em derivação com onda Q patológica prévia (território de infarto antigo) tem outra leitura — costuma relacionar-se a alteração de motilidade da região infartada, discinesia ou aneurisma, e não pode ser tratado da mesma forma sem contextualização. Mesmo achado, significados diferentes: quem manda é o ECG de repouso e a história do paciente.

    13

    Não tente localizar a coronária doente pelo infra-ST

    Uma das pegadinhas mais rentáveis da prova. ⭐⭐⭐

    Decida antes de ler a explicação:

    “Infradesnivelamento predominante em determinada derivação indica necessariamente qual coronária está doente?”

    Por quê

    O infradesnivelamento induzido pelo esforço é a expressão elétrica de isquemia subendocárdica global, não de um território específico. Ele resulta de um vetor de lesão que aponta do subendocárdio para a cavidade e se projeta de forma relativamente estereotipada — tipicamente nas derivações laterais e inferiores (V4–V6, DII, aVF) — independentemente de qual artéria está estenosada. Por isso um infra em V5 não “é da descendente anterior”: ele é do subendocárdio.

    O que tem valor topográfico é o supradesnivelamento em derivação sem onda Q patológica, e mesmo assim com as ressalvas da seção anterior. Guarde o contraste: infra não localiza · supra pode localizar.

    O que o infra realmente informa

    Presença, magnitude, morfologia, número de derivações envolvidas, carga/duplo produto em que apareceu e quanto tempo levou para desaparecer na recuperação. Tudo isso pesa na gravidade estimada — nenhum deles aponta uma artéria.

    14

    O ECG normal muda no esforço — e isso não é isquemia

    Repouso × esforço normal, lado a lado. ⭐⭐

    Toque em cada alteração para destacá-la no traçado:

    O objetivo desta seção

    Impedir que você chame de isquemia toda mudança que o ECG sofre durante o exercício. O traçado do esforço é diferente do traçado do repouso por fisiologia — encurtamento de intervalos, mudanças de amplitude, descida do ponto J com ST ascendente rápido. Reconhecer o normal é o pré-requisito para reconhecer o anormal.

    No esforço, o coração revela reservas que o repouso consegue esconder.

    — Dr. André Rossanno
    15

    A outra balança: quanto o ST mudou × quanto exercício ele conseguiu fazer

    Interpretar o teste exige os dois pratos. ⭐⭐⭐

    Paciente A

    • Discreta alteração de ST
    • >10 METs
    • Assintomático
    • Boa resposta hemodinâmica

    Paciente B

    • Nenhuma depressão diagnóstica de ST
    • <4 METs
    • Dispneia limitante
    • Resposta cronotrópica inadequada

    Qual teste contém mais informação prognóstica desfavorável?

    Como integrar sem virar um único número

    Não existe fórmula mental de um passo. O que existe é uma ordem de perguntas: (1) até onde ele foi? (2) o que apareceu? (3) em que carga apareceu? (4) como ele se comportou hemodinamicamente? (5) como foi a recuperação? Um teste com alteração de ST em carga alta, em paciente com excelente capacidade funcional e recuperação limpa, comunica uma coisa. O mesmo milímetro em carga baixa, com hipotensão e recuperação lenta, comunica outra completamente diferente.

    A carga em que o achado apareceu vale tanto quanto o achado.

    — Dr. André Rossanno
    16

    A esteira de quatro pernas: intolerância ao esforço

    Se qualquer perna falha, a esteira desaba — e nem sempre a culpa é da coronária. ⭐⭐

    Toque em uma perna para quebrá-la e ver o que acontece.

    Contextos e causas que rondam a esteira

    ⭐⭐⭐ A lição desta seção

    Baixa capacidade funcional NÃO significa automaticamente isquemia coronariana.

    Significa que a máquina inteira rendeu pouco. Descobrir qual perna falhou é o trabalho clínico — e frequentemente exige outros exames além da esteira.

    17

    Frequência cardíaca: três caixas que nunca devem ser misturadas

    Como começa · quanto sobe · quanto cai. ⭐⭐

    1 · FC basal

    Como o paciente começa. Sofre influência de ansiedade, condicionamento, febre, anemia, tireoide, betabloqueador e tônus autonômico. Uma FC basal alta já muda a leitura de tudo o que vem depois.

    2 · Resposta cronotrópica

    Quanto a FC sobe em relação ao estímulo e ao esperado para aquele paciente. Resposta insuficiente sugere incompetência cronotrópica — mas antes de chamá-la assim é obrigatório perguntar por betabloqueador, doença do nó sinusal e esforço submáximo.

    3 · Recuperação da FC

    Quanto a FC cai depois que o esforço cessa. Depende de reativação vagal e retirada simpática. É o capítulo do exame que quase ninguém lê — e onde costuma estar escrito o prognóstico.

    Na subida, o motor é a retirada do tônus vagal nos primeiros batimentos e, depois, a ativação simpática progressiva. Na queda imediatamente após a parada, o motor principal é a reativação vagal; a retirada simpática domina a fase mais tardia da recuperação. Uma queda lenta sugere desequilíbrio autonômico com desativação vagal deficiente.

    ⚠️ Números aqui: cuidado deliberado

    Fórmulas de FC máxima prevista e pontos de corte de recuperação e de incompetência cronotrópica existem, aparecem em prova e variam entre diretrizes e entre protocolos de recuperação (em pé, sentado, deitado; primeiro minuto, segundo minuto). Este capítulo não crava número que não estivesse na fonte enviada. A fórmula clássica de estimativa (220 − idade) é apenas uma estimativa populacional com ampla dispersão individual e não deve ser usada como meta absoluta.
    Confira a redação literal da Diretriz Brasileira de Ergometria SBC 2024 antes de decorar qualquer valor.

    18

    Pressão arterial: a informação que some quando o olho fica preso no ST

    Carga no eixo X, pressão no eixo Y. ⭐⭐

    Leitura fisiológica esperada

    Com o aumento da carga, a pressão sistólica sobe progressivamente, acompanhando o débito cardíaco. A diastólica costuma manter-se estável ou cair discretamente, refletindo a vasodilatação da musculatura em atividade. Na recuperação, a sistólica volta a cair.

    Valores numéricos de interrupção do exame, de resposta hipertensiva e de queda pressórica significativa não foram cravados aqui porque não constavam do material enviado — confira a Diretriz SBC 2024.

    19

    Estação elétrica: arritmias no esforço

    Informação importante — e não sinônimo automático de DAC. ⭐⭐

    Ectopias

    Supraventriculares e ventriculares isoladas. Muito comuns; o comportamento com a carga e na recuperação importa mais do que a simples presença.

    Supraventriculares

    Taquicardia supraventricular, fibrilação e flutter atrial deflagrados pelo esforço. Mudam a conduta e frequentemente mudam o diagnóstico do sintoma.

    Ventriculares

    Pares, taquicardia ventricular não sustentada ou sustentada. Podem ter significado grave — e podem ocorrer em contextos não ateroscleróticos (canalopatias, cardiomiopatias, displasia arritmogênica).

    Distúrbios de condução

    Bloqueios que aparecem ou pioram com o esforço; bloqueio de ramo frequência-dependente. Alteram inclusive a interpretabilidade do ST a partir do momento em que surgem.

    A frase para carregar

    “Arritmia no esforço é informação importante, mas não é sinônimo automático de DAC.”

    “Taquicardia ventricular ou ectopias durante o exercício = diagnóstico de DAC?”

    20

    Proibido usar a lógica “positivo × negativo” sozinha

    Um carimbo não é um laudo. ⭐⭐⭐

    LAUDO — TESTE ERGOMÉTRICO
    TESTE POSITIVO.
    — fim do laudo —

    O que precisa estar no lugar dele:

    O TE NÃO É UM CARIMBO.
    É UMA HISTÓRIA FISIOLÓGICA SOB ESTRESSE.

    Notas do professor
    Como eu explicaria em 30s“Positivo” responde a uma pergunta que ninguém fez. A pergunta clínica é: o que este exame mudou na minha estimativa de doença e de risco deste paciente?
    Pergunta para os alunos“Escrevam um laudo de três linhas sem usar as palavras positivo e negativo.”
    21

    Laboratório “Eu leio o traçado”

    Desenho → medida → contexto → significado. Seis etapas, nesta ordem. ⭐⭐⭐

    22

    Mini-palácio: a sala das cinco silhuetas

    Clique em cada personagem e reconstrua o traçado de memória. ⭐⭐⭐

    23

    Segunda rodada, sem as palavras

    Os mesmos conceitos, agora sem apoio. ⭐⭐⭐

    As três catracas — só os ícones

    🏃

    🚦

    📈


    Os três portões — escreva mentalmente antes de tocar


    Onde se mede cada morfologia?


    Verdadeiro ou falso, sem consultar

    25

    As 15 pegadinhas obrigatórias

    Decida primeiro. O feedback vem depois. ⭐⭐⭐

    Cada item é uma afirmação. Marque verdadeiro ou falso e leia o comentário.

    26

    Casos clínicos interativos

    Nenhuma resposta aparece antes da sua decisão. ⭐⭐⭐

    27

    Arena TEC

    Comentário da correta, por que cada errada não serve, e a pegadinha embutida. ⭐⭐⭐

    28

    Flashcards

    Toque para virar. Marque a dificuldade — o Hipocampo usa isso. ⭐⭐

    29

    Hipocampo: onde o capítulo vira memória

    Seu desempenho, sua fila de erros e o calendário de revisão. ⭐⭐

    Fila de revisão — o que você errou

    Responda às questões e pegadinhas para montar sua fila.

    Revisão espaçada

    Hoje

    Amanhã

    Em 7 dias

    Revisão de 60 segundos

    1. Consegue? Capacidade de exercício — a escada é heurística, não lei.
    2. Pode? Agudo + instável + descompensado = não provocar.
    3. Consigo interpretar? BRE, pré-excitação, ritmo de marca-passo e infra basal ≥1 mm derrubam o ST. BRD derruba só V1–V3.
    4. Cascata: metabólica → diastólica → sistólica → elétrica → angina. A dor é a última.
    5. METs: <4 ruim · 4–7 regular · 7–10 boa · >10 excelente — sempre no contexto.
    6. Réguas: horizontal 1 mm (J ou J+80) · descendente 1 mm (J) · ascendente ≥1,5 mm (risco moderado/alto) ou ≥2 mm (risco baixo) em J+80 · convexo ≥2 mm no nadir · supra ≥1 mm no J, sem Q anormal.
    7. Dois detectores: angina típica no esforço vale mesmo sem infra diagnóstico.
    8. Infra não localiza a coronária; supra sem Q pode ter valor topográfico.
    9. Quatro pernas: cardíaca, pulmonar, condicionamento, musculoesquelética. Baixa capacidade ≠ isquemia.
    10. FC em três caixas (basal, cronotrópica, recuperação) e PA nunca ficam de fora do laudo.
    11. Nunca só “positivo/negativo”. O que aconteceu, em que carga, e o que significa para este paciente.
    30

    Painel final de recuperação

    Só os símbolos. Reconstrua o teste inteiro de memória antes de revelar. ⭐⭐⭐

    Percorra os sete símbolos em voz alta. Depois confira.

    31

    Filosofia do Atlas

    Vinte frases para as pausas entre os blocos.

    Você não veio aqui “ver ergometria”.

    Veio para que, diante de uma questão do TEC ou de um laudo real, cinco perguntas subam sozinhas:

    POSSO TESTAR?
    CONSIGO INTERPRETAR?
    O QUE ACONTECEU DURANTE O ESFORÇO?
    EM QUE CARGA ACONTECEU?
    O QUE ISSO SIGNIFICA PARA ESTE PACIENTE?

    Quando as cinco vierem sem esforço, a esteira parou de ser um exame e virou um raciocínio.

    Fontes

    • Fonte principal: Diretriz Brasileira de Ergometria em População Adulta — 2024. Sociedade Brasileira de Cardiologia / Arquivos Brasileiros de Cardiologia.
    • Material didático das aulas preparatórias para o TEC (imagens de referência reconstruídas em SVG original neste capítulo).
    • Complementares, apenas para a caixa de divergência: 2024 ESC Guidelines for the Management of Chronic Coronary Syndromes; 2021 AHA/ACC Guideline for the Evaluation and Diagnosis of Chest Pain.

    Este capítulo evita cravar números que não constavam explicitamente da fonte principal ou do material fornecido. Onde houve dúvida, o texto sinaliza a necessidade de conferência na redação vigente da diretriz em vez de estimar. Material de estudo — não substitui a diretriz nem o julgamento clínico.