Semiologia cardiovascular · nível 1 · 2º período

O exame começa antes
do estetoscópio.

Inspeção e palpação do sistema cardiovascular, na ordem exata em que sua mão percorre o paciente — do primeiro olhar até a ponta dos dedos.

Uma pergunta guia o módulo inteiro:
Onde eu olho → o que eu faço → o que eu procuro → o que aquilo significa.
👁️OLHAR 🩵PESCOÇO 🫀PRECÓRDIO 🩸PULSOS 🖐️PONTA DOS DEDOS
00
Antes de começar

Por que esta aula existe

No segundo período ninguém espera que você feche diagnósticos. Espera-se outra coisa, mais difícil de ensinar: que você encoste no paciente com um roteiro na cabeça.

A maior parte dos erros de exame físico não vem de ignorância. Vem de desordem — o aluno palpa o ictus, lembra da jugular, volta ao pescoço, esquece os pulsos do pé. O paciente percebe. E o achado se perde.

Por isso este módulo não é uma lista de sinais. É uma rota. Sempre a mesma, sempre na mesma direção: de cima para baixo, do olho para a mão, do centro para a periferia. Quando a rota vira automática, sua cabeça fica livre para a parte que interessa — pensar.

Aprenda a sequência agora. Os nomes bonitos você aprende depois; eles vão ter onde se pendurar.

— Dr. André Rossanno
Como usarLeia uma estação por vez e mexa nos laboratórios azuis — eles existem para você errar aqui, e não no paciente. No fim há 8 pegadinhas, um banco de questões, flashcards de revisão e um checklist de repetição espaçada que salva seu progresso neste navegador.
01
Estação 1 · antes de tocar

O primeiro olhar

📍 Onde? A cena montada

  • Paciente em decúbito dorsal, tronco elevado a 30–45°.
  • Examinador à direita do paciente — sempre o mesmo lado, sempre a mesma rotina.
  • Tórax exposto, com o pudor preservado. Luz que possa incidir de lado (tangencial).
  • Ambiente silencioso: você ainda vai auscultar aqui.
Laboratório 01 · posicione o paciente

Por que 45° e não deitado?

Arraste a inclinação e veja o que acontece com a coluna de sangue da veia jugular (em azul).

ângulo de Louis
45°

👁️ O rosto entrega coisas

  • Fácies mitral: bochechas avermelhadas com lábios arroxeados — clássica da estenose mitral importante.
  • Ortopneia: o paciente não deita. Sentou-se sozinho antes de você pedir.
  • Posição genupeitoral (tronco inclinado para frente): alivia a dor da pericardite.

🫁 O tórax também

  • Pectus excavatum: esterno afundado — pode empurrar o ictus para a esquerda.
  • Pectus carinatum: esterno projetado, em quilha.
  • Tórax em tonel: hiperinsuflado — o ictus quase some.
  • Cifoscoliose: deforma tudo e engana o iniciante.
PegadinhaTórax deformado muda a posição dos achados, não a doença. Um ictus fora do lugar num pectus excavatum pode ser um coração perfeitamente normal empurrado de lado.
SÍNTESEAntes de tocar, você já colheu três dados: como ele está deitado, como está o rosto, como é o tórax.
02
Estação 2 · pescoço

A janela cervical: dois mundos no mesmo pescoço

🔵 Jugular — o mundo do VOLUME

Mostra o que acontece no átrio direito. É o manômetro do corpo: se há sangue demais represado, a coluna sobe.

se enxerga · não se palpa

🔴 Carótida — o mundo da PRESSÃO

Mostra a ejeção do ventrículo esquerdo. É o soco que o coração dá no sangue a cada sístole.

se palpa · não se mede pela vista
Laboratório 02 · três testes de cabeceira

Como saber se aquilo que pulsa é veia ou artéria

Toque um teste e compare as duas colunas.

🔵 Jugular

Escolha um teste acima.

🔴 Carótida

Escolha um teste acima.

O que comparoPulso venoso jugularPulso arterial carotídeo
Como avalioInspeção — quase nunca palpávelPalpação — bate no dedo
Forma da ondaOndulante, com mais de um movimento por batimentoUm pico único e rápido por batimento
Compressão leve na baseSome acima do ponto comprimidoContinua batendo
InspiraçãoA coluna descePraticamente não muda
Mudar a inclinaçãoA altura da coluna muda muitoAmplitude igual
SÍNTESEJugular é olho e é volume. Carótida é dedo e é pressão.
03
Estação 3 · sistema venoso

Jugular: o manômetro que dá para ver

✋ A técnica, em cinco passos

  1. Tronco a 45°, cabeça levemente girada para o lado oposto ao que você examina.
  2. Procure a jugular interna direita — é a mais fiel ao átrio direito.
  3. Ache o topo da coluna que oscila.
  4. Meça a altura vertical desse topo até o ângulo de Louis (a saliência entre o manúbrio e o corpo do esterno).
  5. Some 5 cm — é a distância aproximada do ângulo de Louis até o centro do átrio direito.
Laboratório 03 · a régua do ângulo de Louis

Meça e converta

0 · ângulo de Louis 2 cm 3 cm · limite normal 5 cm 9 cm
2 cm
Altura acima do Louis
até 3 cm
Alguns autores aceitam até 4 cm. Acima disso: pressão venosa aumentada.
PVC estimada
até 8–9 cmH₂O
Altura medida + 5 cm.
Refluxo hepatojugular
≥ 3–4 cm
Elevação que se mantém durante toda a compressão.

🫀 Refluxo hepatojugular (abdominojugular)

Comprima com firmeza o quadrante superior direito do abdome por 10 a 15 segundos, com o paciente respirando normal — sem prender a respiração.

PositivoA coluna sobe ≥ 3–4 cm e permanece alta enquanto você comprime, caindo de vez quando você solta. Traduz um ventrículo direito que não dá conta do sangue que chega.
PegadinhaSubir e voltar sozinho nos primeiros segundos é resposta normal. Se você chamar isso de positivo, quase todo mundo terá insuficiência direita.
Guarde para o futuroSinal de Kussmaul: a jugular deveria descer na inspiração. Quando ela sobe, o sinal é de que o coração está preso — pericardite constritiva, infarto de ventrículo direito. Você não precisa dominar isso agora; precisa nunca mais achar normal.
SÍNTESEMeça sempre do ângulo de Louis, nunca da clavícula: até 3 cm é normal, e o refluxo só conta se for sustentado.
04
Estação 4 · sistema arterial

Carótida: sentindo a ejeção

✋ Como palpar

  • Onde: no sulco entre a traqueia e o músculo esternocleidomastóideo, no terço inferior do pescoço.
  • Com o quê: polpas do indicador e do médio. Pressão suave.
  • O que avaliar: amplitude (força), contorno (rápido ou arrastado) e a parede do vaso.
  • Em idoso ou vasculopata: ausculte antes de palpar, procurando sopro.

🚫 Nunca faça isso na carótida

Regra 1Nunca palpe as duas ao mesmo tempo. Você pode reduzir o fluxo cerebral e derrubar o paciente.
Regra 2Nunca massageie o seio carotídeo por conta própria — no terço superior, perto da bifurcação. Risco de bradicardia grave e de soltar placa de ateroma.
SÍNTESEUma carótida de cada vez, terço inferior, dedo leve.
05
Estação 5 · tórax

O precórdio: o coração empurrando a parede

A ideia: o coração se mexe dentro de uma caixa fechada. Parte desse movimento chega à superfície. Inspecionar e palpar o precórdio é traduzir mecânica interna em movimento de pele.

Inspeção tangencialOlho e luz de lado, quase rente à pele. É assim que pulsações discretas aparecem.
AbaulamentoParede projetada para fora. Sugere coração aumentado desde a infância, quando as cartilagens ainda cediam.
Pulsação anormalBatimento visível na base, na borda esternal ou no epigástrio.
Laboratório 05 · mapa do tórax

Toque cada região e veja o que mora ali

BASE 2º EIC direito e esquerdo BORDA ESTERNAL 3º ao 5º EIC esquerdo ÁPICE 5º EIC · LHC a varredura desce: base → borda → ápice
Toque uma região do tórax.
SÍNTESESempre de cima para baixo: base, borda esternal, ápice. Nunca comece pelo ictus.
06
Estação 6 · o choque da ponta

Ictus cordis

O que é

É a ponta do ventrículo esquerdo batendo na parede do tórax durante a sístole. É o único ponto em que você literalmente sente o coração trabalhar.

Como achar

  1. Espalme a mão sobre a região do ápice e espere o impulso encontrar a sua palma.
  2. Delimite com as polpas do indicador e do médio.
  3. Não achou? Manobra de Pachón: vire o paciente em decúbito lateral esquerdo — o ápice se aproxima da parede.
Laboratório 06 · onde deveria estar

Posicione o ictus e receba o veredito

Linhas de referência no eixo horizontal, espaços intercostais no vertical. Toque um quadrado.

Escolha um ponto.
Biotipo importaNormolíneo: 5º EIC na linha hemiclavicular. Brevilíneo (baixo e largo): sobe para o 4º. Longilíneo (alto e magro): desce para o 6º e fica mais medial.
Laboratório 07 · o pentágono do ictus

Cinco perguntas, sempre nesta ordem

LOCAL1 EXTENSÃO2 FORÇA3 MOBILID.4 DURAÇÃO5 o pentágono toque cada vértice
Toque um vértice do pentágono.
A pegadinha central do ictusDuas alterações, dois mecanismos opostos:
Deslocado para baixo e para fora + extenso = câmara dilatada (sobrecarga de volume).
No lugar, porém forte e demorado = parede hipertrofiada (sobrecarga de pressão).
SÍNTESELocal, extensão, força, mobilidade, duração — cinco perguntas, sempre na mesma ordem.
07
Estação 7 · o outro ventrículo

O ventrículo direito na parede do tórax

Impulsão paraesternal

📍 Onde: borda esternal esquerda, 3º ao 5º EIC.

✋ Como: apoie a região hipotenar da mão e sinta se ela é levantada.

🫀 Significa: ventrículo direito sobrecarregado, empurrando o esterno.

Pulsação epigástrica

📍 Onde: logo abaixo do apêndice xifoide.

✋ Como: polpas dos dedos dirigidas para cima, sob o rebordo.

🫀 Significa: impulso de cima para baixo sugere ventrículo direito; de trás para frente, aorta abdominal.

Retração sistólica apical

📍 Onde: na região do ápice.

✋ Como: a parede afunda na sístole em vez de projetar.

🫀 Significa: ventrículo direito muito aumentado ocupando o precórdio.

SÍNTESEÁpice é ventrículo esquerdo. Borda esternal e epigástrio são o território do direito.
08
Estação 8 · a ponte

Frêmito: o sopro que a mão escuta

A cadeia, em quatro elos

FLUXO TURBULÊNCIA VIBRAÇÃO SUA MÃO
  • Onde da mão: região palmar logo abaixo dos dedos (articulações metacarpofalângicas) ou as eminências tenar e hipotenar.
  • Onde do tórax: passe por todos os focos, da base ao ápice.
  • Sensação: aquele ronronar de gato.
  • Quando: sistólico, diastólico ou contínuo — sempre confira com o pulso carotídeo para saber em que tempo você está.
A regra de ouroSe há frêmito, o sopro é alto: grau ≥ IV de VI na escala de Levine. O contrário não vale — sopro sem frêmito continua podendo ser importante.
SÍNTESEAntes de o estetoscópio ouvir o sopro, a mão pode senti-lo vibrar.
09
Estação 9 · periferia

O mapa dos pulsos

Laboratório 08 · sete pontos que você precisa achar de olhos fechados

Toque cada ponto do corpo

🔴 centrais🟡 membro sup.🔵 membro inf.
Toque um ponto colorido.
Regra da simetriaPulsos periféricos se palpam dos dois lados ao mesmo tempo, comparando. É assim que se percebe assimetria e o atraso entre o pulso radial e o femoral — pista de coartação da aorta.
A exceçãoA carótida nunca entra nessa regra. Uma de cada vez.
SÍNTESECompare sempre os dois lados — menos na carótida.
10
Estação 10 · checklist

F.R.A.T.E.C.S. — o pulso em sete perguntas

Laboratório 09 · rode o algoritmo

Toque as sete letras, na ordem

Comece pelo F.
SÍNTESEPeguei o pulso — meu cérebro roda sozinho: F-R-A-T-E-C-S.
11
Estação 11 · forma da onda

Dois pulsos que você precisa reconhecer

Laboratório 10 · onda em movimento

Toque em reproduzir e compare o traçado

Célere / martelo d'água

Sobe num estalo e despenca. Muito sangue sai, e parte dele volta.
Clássico da insuficiência aórtica.

Parvus et tardus

Pequeno (parvus) e atrasado (tardus). O sangue custa a passar.
Clássico da estenose aórtica importante.

Pulso alternante

Uma onda forte, uma fraca, em ritmo regular. Sinal de ventrículo esquerdo em falência.

Pulso paradoxal

A pressão sistólica cai mais de 10 mmHg na inspiração. Pensa em tamponamento cardíaco.

Pulso filiforme

Fino, rápido e difícil de achar. É o pulso do paciente em choque.

Pegadinha do nomeO pulso paradoxal não tem nada de paradoxo: na inspiração a pressão já cai um pouco em qualquer pessoa. O que existe ali é exagero do normal.
12
Estação 12 · o fim da linha

Perfusão: o sangue chegou?

Laboratório 11 · meça um enchimento capilar

Pressione a unha, solte e cronometre

Segure o dedo por 5 segundos, solte e toque em “voltou a cor” no instante em que a unha ficar rosada de novo.

segure aqui
0,0 s
Normal: até 3 segundos.

Cor e temperatura

  • Sinta a temperatura subindo pelo membro: onde o frio termina, a má perfusão termina.
  • Cianose periférica: extremidades frias, ponta dos dedos e leito ungueal.
  • Cianose central: língua e mucosas, com extremidades quentes. Muda completamente o raciocínio.

Teste de Allen

  1. Comprima radial e ulnar ao mesmo tempo, no punho.
  2. Peça para abrir e fechar a mão até ela empalidecer.
  3. Solte só a ulnar e conte.
NormalA cor volta em menos de 7 a 10 segundos — a ulnar sozinha nutre a mão. É o que autoriza puncionar a radial.
PegadinhaEnchimento capilar lento sozinho não fecha diagnóstico de choque: mão fria, sala gelada e idade avançada atrasam o retorno da cor em gente saudável.
SÍNTESEO exame começou olhando o paciente inteiro e termina perguntando se o sangue chegou à ponta dos dedos.
🧠
Memorização · N3 loci

O palácio é o próprio paciente

Você não precisa de um palácio imaginário: o corpo à sua frente já é o mapa. Cinco salas, de cima para baixo.

👁️
Sala 1 — A portaAntes de tocar: 45°, rosto, formato do tórax.
🩵
Sala 2 — A janela dupla (pescoço)Azul à esquerda é volume e se olha. Vermelho à direita é pressão e se palpa — uma de cada vez.
🫀
Sala 3 — O salão (tórax)Desce em três degraus: base, borda esternal, ápice. No ápice mora o pentágono.
🩸
Sala 4 — Os corredores (pulsos)Sete pontos, sempre em par. FRATECS toca como alarme em cada um.
🖐️
Sala 5 — A ponta dos dedosCor, temperatura, enchimento capilar. O sangue chegou até aqui?
Regra de geografiaPESCOÇO = hemodinâmica · TÓRAX = mecânica do coração · EXTREMIDADES = entrega do sangue.

👩‍🏫 Nota para quem ensina

Ancoragem N1–N7 deste módulo: N1 rota espacial única como âncora semântica · N2 cor fixa (azul venoso, vermelho arterial, âmbar pegadinha) · N3 palácio no próprio corpo · N4 laboratórios e quiz com devolutiva imediata · N5 pares contrastantes (jugular×carótida, dilatação×hipertrofia, célere×parvus) · N6 frases-âncora e erro simulado · N7 mesmo conteúdo em três formatos: laboratório, questão e flashcard.

⚠️
As armadilhas

Oito erros que quase todo mundo comete

1. Medir a jugular pela clavículaA referência é o ângulo de Louis. Medir de outro ponto inventa números.
2. Chamar de refluxo hepatojugular a subida que volta sozinhaSó conta se a elevação se mantém durante toda a compressão.
3. Palpar as duas carótidas juntasA regra da comparação bilateral tem exatamente essa exceção.
4. Confundir deslocamento com propulsãoDeslocado e extenso = dilatação. Forte e demorado no lugar = hipertrofia.
5. Procurar o ictus com o paciente sentadoComece a 30–45°; se não achar, decúbito lateral esquerdo (Pachón).
6. Achar que todo sopro tem frêmitoFrêmito indica sopro alto (≥ IV/VI). A recíproca é falsa.
7. Tratar cianose periférica e central como a mesma coisaExtremidade fria é periférica. Língua e mucosas é central — e é mais grave.
8. Fechar choque só pelo enchimento capilarFrio ambiente e idade atrasam o retorno da cor em pessoas saudáveis.
🎯
Testagem ativa · N4

Arena de questões

Responda antes de reler. Errar aqui é a parte útil.

0 de 0 respondidas.
Revisão rápida

Flashcards — pergunta e resposta à vista

Para conteúdo básico, esconder a resposta atrapalha. Leia de cima a baixo, cobrindo a linha de baixo com o dedo se quiser se testar.

⏱️
Fechamento

Revisão de 60 segundos

  1. 45°, examinador à direita, tórax exposto e luz de lado.
  2. Pescoço: jugular é olho e volume; carótida é dedo e pressão, uma de cada vez.
  3. Coluna venosa até 3 cm acima do ângulo de Louis; PVC ≈ altura + 5.
  4. Refluxo hepatojugular positivo é o sustentado.
  5. Tórax de cima para baixo: base → borda esternal → ápice.
  6. Ictus: 5º EIC na linha hemiclavicular, 1–2 polpas digitais.
  7. Pentágono: local, extensão, força, mobilidade, duração.
  8. Borda esternal e epigástrio = ventrículo direito.
  9. Frêmito = sopro ≥ IV/VI.
  10. Pulsos aos pares, com F.R.A.T.E.C.S. em cada um.
  11. Célere = insuficiência aórtica · parvus et tardus = estenose aórtica.
  12. Enchimento capilar até 3 s; Allen normal em menos de 7–10 s.
📆
Repetição espaçada · N7

Seu plano de revisão

PRÓXIMO MÓDULO

🩺 Ausculta cardíaca

Depois de olhar e tocar, chegou a hora de ouvir. Focos, B1 e B2, desdobramentos, B3, B4 — e então os sopros.